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Expresso

Inter-rail

Tempestade em Verona

O vento que chega pela janela bate-me nos pés. A sensação é boa. Estou deitado no beliche de cima a continuar as minhas leituras. Preparo-me para dormir. O Tiago esgueira-se pela janela e dispara o obturador sempre que o comboio pára numa estação.

Partimos há uma hora de Florença e seguimos para Munique. Na paragem seguinte, a revisora do veículo abre-nos a porta do compartimento. Olho para aquela mulher gorda na farda azul, modos autoritários, que com um sorriso apresenta o casal de passageiros septuagenários que seguem atrás dela para ocuparem as duas camas que estavam livres no nosso compartimento. O conforto acaba nesse preciso momento. A porta e a janela são logo fechadas pelas mãos da viajante recém-chegada que diz confiar nas artes do ar condicionado. Não demorou muito para eu começar a transpirar e a tropeçar nas linhas do livro. O ambiente no compartimento torna-se demasiado pesado e bafiento com a respiração das quatro pessoas ali trancadas. Eu e o Tiago decidimos escapar-nos dali para o corredor. Sento-me num canto, junto às casas de banho, e continuo a ler.

«Acordou algumas horas depois, com um sobressalto. Sabia o que é que o tinha despertado – um gemido alto, quase um grito, algures mesmo ali. Nesse mesmo instante soou o agudo tinido de uma campainha. Sentou-se e acendeu a luz. Reparou que o comboio parara – provavelmente numa estação».

Olho para a porta escarlate do comboio. Está escancarada. Apercebo-me que a paragem na estação de Verona estendeu-se para além do normal. Olho para o relógio: 00h40. Comento com o Tiago a coincidência com o momento da história que estava a ler. Quem me manda a mim andar a ler policiais passados em comboios a meio de uma viagem de inter-rail?

Antes de começar a magicar possibilidades estrambólicas «a la Agatha Christie», somos informados que o comboio está aguardar por uma nova carruagem que virá de Veneza. Acorre-nos a pergunta da praxe «Estarão portugueses por lá?».

Saltamos fora do comboio para desentorpecer as pernas e comprar bebidas na máquina. Nem vestígio de malta lusitana. Para o cenário tornar-se mais propício à boa literatura rebenta uma tromba de água do céu, reforçada por trovões e relâmpagos. Do interior dos compartimentos acorrem pessoas estremunhadas para olhar a chuva e procurar razões para o atraso. O Tiago fotografa, eu observo. Uma hora depois o comboio arranca. Com aquela demora toda já não apanharemos o tal comboio, às 6h37, onde tínhamos planeado seguir para Amesterdão.

Penso em esticar-me umas cinco horas antes de chegarmos a Munique. Ironias da vida, a senhora dona que divide o cubículo connosco acordou afogueada e tem a porta escancarada. Dei-lhe uma ajudinha e abri a tal janela (discretamente). Volto a sentir o vento nos pés e adormeço.