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Inter-rail

Conversas da treta

O rosto da pequena Lila, uma mulata de 12 anos, recebe o vento da janela e deixa-se abandonar naquela sensação de voo pela velocidade do comboio. Foi esta a imagem que registámos mal entrámos na nossa cabine, para assumirmos os respectivos lugares 81 e 82. Tínhamos acabado de fazer uma vistoria de uma ponta à outra do comboio Sud Express, direcção Lisboa- Hendaye, em busca de jovens portugueses que estivessem a iniciar a sua rota de Inter-rail pela Europa - o nosso propósito principal da reportagem.

Depois de algumas primeiras abordagens feitas a estreantes nas viagens sobre o carril, quisemos pousar as «mochilas-montanha» e recuperar o fôlego. Ambicionávamos uma cabine vazia, para montar uma redacção improvisada do EXPRESSO, mas a realidade apresentou-se de outra maneira. O habitáculo estava lotado e, mal nos sentámos nos lugares, joelhos com joelhos com os passageiros da frente, fomos apresentados ao verdadeiro espírito do Inter-rail: A disponibilidade para a sociabilização e a suposta obrigação de manter conversa com todos, quer se queira ou não. Donathela e o seu marido Francesco, dois italianos de Viccino, cumprimentam-nos, apresentam a sua filha Lila e tecem rasgados elogios a Lisboa. «A arquitectura é como em Nápoles, ou em Génova», chega a dizer.

Antoine, o holandês do lugar ao lado, entra com um sorriso exagerado para a conversa e desata a gabar os seus atributos para línguas. Fala sobre tudo e sobre nada. Até todos adormecerem o olhar num ponto vago à procura de um pouco de silêncio e de espaço interior. «Que graça que isto tem. Isto é o conceito de “Modern Latin”, num misto de holandês, inglês, Português. Sabem que eu até sei falar chinês? Mas não digam a ninguém...!». Ninguém disse nada. O Tiago refugiou-se nas músicas do seu MP3. Eu mergulhei nas páginas do livro «Pela estrada fora», de Jack Kerouac, que se revelaram na melhor das fugas. Sem êxito. «Cheguei a ter uma namorada chinesa...por isso falo chinês..., não é engraçado?», voltou Antoine à carga.