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Ici Paris

O dia mais longo

Levantamo-nos às 4h15. Bebemos champanhe às 10h30. Almoçamos no Le Refectoire às 14h15. Às 17h20 fui apanhado pelo controlo do metro sem fotografia na Carte Orange. Demos uma entrevista na Rádio Alfa às 18h00. À noite, vimos o Creteil perder ingloriamente em casa com o Le Havre. É a vida, tal como ela é.

O Nokia despertou às 4h15. O primeiro «rendez vous» do dia foi às 4h45, junto à praça de táxis da Ópera, na praça da Bastilha, onde o diligente Manuel Vaz, passou, ao volante do seu Ford em segunda mão (comprado a semana passada) para nos levar à região de Champagne.

A expedição tinha sido combinada na véspera. António Dias, o queijeiro do Eliseu, sugeriu que conversássemos com Erick De Sousa, 44 anos, um produtor de champanhe de origem portuguesa. Deu-nos o contacto dele e Manuel Vaz, um emigrante do Sabugal, amigo de Dias, que estava presente na conversa, logo se disponibilizou a transportar-nos.

Eram oito da manhã, em ponto, e nós estávamos a entrar em casa de Erick Sousa, neto de um português de Braga combateu em França, na Guerra de 14-18, integrado no Corpo Expedicionário Português.

Apesar da guerra, o avô de Erick gostou do que viu por cá. E como, no regresso da guerra, não se deu com os ares da pátria, agitados pelo sidonismo, voltou a França, com a mulher e um filho de seis meses – que viria a ser o fundador da De Sousa & Fils, «recoltant e manipulant» de champanhe, com sede em Avize.

Avize, uma pequena localidade de dois mil habitantes que fica a uma dezena de quilómetros de Epinay, é um dos mais prestigiados santuários da região de Champagne, sendo ainda a sede do único liceu francês que oferece um Bac (o equivalente melhorado ao nosso 12º ano) especializado na arte e negócio do champanhe.

Os de Sousa têm nove hectares das melhores terras da região, que albergam vinhas antigas (com uma idade média próxima dos 50 anos) e praticam a agricultura biológica. Por isso, os seus champanhes, comercializados com as marcas De Sousa & Fils e Zoémie (o nome da mãe de Erick) De Sousa, são considerados como dos cinco melhores do Mundo, pela critica especializada.

Como qualidade e procura são grandes e a oferta é pequena (a produção média anual anda à volta das 100 mil garrafas, uma gota no total de 320 milhões de garrafas que o sector injecta anualmente no mercado), os De Sousa podem vender caro e não precisam de fazer marketing. Toda a produção está vendida à partida.

No final da conversa, e após nos ter feito uma instrutiva visita guiada às suas caves, Eric deu-nos a provar três dos seus champanhes: o brut tradicional, um millèsime e um rosé.

Sim. É verdade. Pode acreditar no que está a ler. Às 10h30 já tínhamos bebido, a seco, três generosas flûtes de magníficos champanhes brutos!.

Para dar algum contexto à gravidade da ocorrência e relativizar as coisas, devo lembrar-vos que nos levantamos às 4h15. Ou seja, já estávamos acordados há mais de seis horas quando nos abandonamos ao sensual prazer do champanhe. Foi, portanto, o equivalente a beber champanhe antes de um almoço tardio (digamos 14h15) para alguém que acordou às oito da manhã.

Acho que isto já serve de desculpa e não é preciso acrescentar que por volta das seis da manhã comemos um sanduíche de «thon e crudités», acompanhada de vários copos de Coke Light e sobremesados por um café, numa estação de serviço da Total na A4.

Por volta das duas da tarde já estávamos de volta à Bastilha, trazendo cada um de nós na bagagem um botelha do formidável champanhe De Sousa, gentilmente oferecidas pelo Erick.

O Manuel Vaz deixou-nos à porta do hotel Íbis Opera Bastille e foi à vida. Eu e o Tó Pê deixamos o nosso enxoval (garrafas, blocos, máquinas fotográficas, guarda chuva para a iluminação e ofícios correlativos) e decidimos tirar folga no início da tarde.

O recreio começou com um almoço de sopa de tomate e posta de salmão grelhado (acompanhada por couscous frio e um tomate seco ao sol e regada por um bom Bordeaux, servido num pichet 50 cl), no altamente recomendável Le Refectoire ( 80, Boulevard Richard Lenoir, 11º Metro Breguet-Sabin), provavelmente o mais bonito restaurante onde comemos durante esta viagem. Por isso, o Tó Pê o imortalizou, fotografando-o, e ambos achamos que devia ser a imagem do postal ilustrado de hoje.

Fizemos a digestão durante um passeio a pé pelo 10º Arrondissement. Subimos a Richard Lenoir até ao canal de Saint Martin, cujas margens estão bordadas por tendas de SDF (iniciais que designam a rapaziada Sem Domicilio Fixo) até Stalingrad. Depois, demos uma espreitadela à sede do PCF, riscada por Niemayer, antes de apanharmos o metro de regresso ao hotel, na place Colonel Fabien.

Já equipados, retomamos o trabalho um pouco antes das 17h00, encetando uma atribulada viagem até Creteil, onde tínhamos dois compromissos – dar uma entrevista à Rádio Alfa, conduzida pelo Daniel Ribeiro (aka Monsieur Ribeiro, seu director, nosso amigo e correspondente do Expresso em Paris), e ver o Creteil-Le Havre, a contar para a 23º jornada da Ligue 2.

Para começar, fui apanhado por um controlo do metro sem fotografia na Carte Orange (o titulo de transporte que, contra o pagamento de 17 euros, nos habilita a usar durante oito dias a rede de autocarros, metro e RER de Paris). A controladora registou a ocorrência na minha Carte Orange, em eventual beneficio de um seu colega controlador e advertiu-me: «Vai ser multado se for apanhado outra vez sem a foto». Para evitar esse embaraço e para não ter de testar a atitude da Cristina Barroso (a ministra das Finanças do Expresso) face à apresentação de uma multa na nota de despesas, tirei quatro fotografias tipo passe, que me custaram quatro euros, na estação de Creteil.

Depois tivemos de aturar, na viagem entre o metro e a Rádio Alfa, um taxista eleitor do Le Pen que apesar de não saber onde era a rádio se recusou a falar ao telemóvel com o Daniel para receber as indicações.

O programa da noite (fria) não foi completamente feliz. O Le Havre (4º classificado) entrou na partida muito melhor que o Creteil, que apenas no final da primeira parte conseguiu assentar o seu jogo e equilibrar as operações.  O jogo estava 0-0 ao intervalo.

Pouco depois do reatamento, o Artur Jorge mexeu na equipa, substituindo o médio trapalhão El Omari pelo estreante brasileiro Sales, e o Creteil passou a dominar o jogo. A vitória esteve ao alcance dos azuis (com risca verde-rubra) de Paris. Num livre, o Sales atirou a bola ao ângulo do poste com a trave. E o camaronês Effa Owona desperdiçou uma oportunidade soberana ao chutar para fora quando estava isolado na grande área do Le Havre.

Como é hábito, quem não mata morre e o Le Havre fez um golo que gelou ainda mais as bancadas do Stade Duvauchelle, guarnecidas por umas cinco mil pessoas. Os de fora ganharam, mas não mereciam.

Não se perdeu tudo. Gostei de estar na tenda VIP, ao intervalo e no final do jogo, a ver Armando Lopes (dono do Creteil e da Rádio Alfa)  e a sua família (mulher, filha e genro) a servirem, com uma desarmante simplicidade, taças (sim, taças, não flûtes) de champanhe e copos de verde Muralhas aos convidados.

Gostei ainda de petiscar bolinhos de bacalhau e presunto enquanto comentava o jogo com o Daniel, o Manel Vaz, o Zé Duarte (embaixador de Cabo Verde em Paris), o António Esteves Martins (o correspondente da RTP em Bruxelas, um homem mais conhecido no Mundo da lusofonia do que a batata frita Pala Pala) e a Fátima, a presidente de Câmara adjunta de Boulogne-Billancourt, cidade que devido à sua hábil acção escapou à onda de violência e revolta que incendiou a banlieue de Paris.

Amanhã é dia de regresso a casa.