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Expresso

Ici Paris

L'important c'est le fromage

Passamos a manhã com o português que fornece queijos ao Eliseu. À tarde, a nossa persistência foi recompensada e falamos com o Da Silva. Ao crepúsculo bebemos um café do Panamá, com Graça, uma mulher cheia de curriculum. Amanhã o despertador toca às 4h15. 

Sempre gostei de queijo. Comecei pelo flamengo, de bola, e no entretanto evolui, podendo-se dizer que tenho ideias bem definidas sobre a matéria. Para mim, o Serra amanteigado é o rei dos queijos, cujo consumo não banalizo, por razões diversas.

Reservo o Serra para ocasiões especiais porque se trata de um queijo caro (duplamente caro porque exige um vinho à sua altura) e de um injecção de colesterol directamente aplicada nas veias.

Em minha casa, a tábua de queijos tipo baseia-se no Ilhas picante (preferencialmente o S.Jorge com quatro meses de cura) e manchego, que recebem com alguma regularidade a companhia de um Brie ou de Parmesão.

Vem tudo isto a propósito de António Dias, o português de bigode que dirige, com a ajuda de Marie-Anne (a francesa com que casou há 30 anos), a Cantin, provavelmente a melhor queijaria francesa.

A carteira de clientes da Cantin (12 Champs de Mars, metro Ecole Militaire), onde se incluem o Eliseu, o Senado, a Assembleia Nacional, a maioria dos ministérios, inúmeras embaixadas e os hotéis de luxo como o Crillon, será talvez a melhor das suas credenciais.

Passamos a manhã a falar com António, nascido em Paços de Ferreira, que vive em Paris há 40 anos, tempo suficiente para ter afrancesado para Antoine. Tem uma história curiosa.

O pai, operário marceneiro, e veio para Paris em 1961. Ele, a mãe e os quatro irmãos ficaram em casa dos avós.

Três anos depois, quando a mãe e os quatro irmãos se juntaram ao pai, ele, à época com nove anos, recusou-se a sair da cama e a partir.  «A minha mãe chorava e insistia para eu ir, com eles apanhar o comboio a Campanhã. Mas eu resisti. Não saía da cama, onde ela deixou ficar o meu passaporte e algum dinheiro. Fiquei mal, mas fiquei». Aos 13 anos, em 1968, António juntou-se finalmente aos pais e irmãos.

Em 1984, 20 anos volvidos sobre a birra, António voltou a recusar-se a partir. O pai, a mãe e os irmãos voltaram para Portugal. Ele ficou em Paris.

Antes da segunda tentativa para falamos com o cantor Da Silva (agendada para as 15h00, nos estúdios Ferber, onde Pink Floyd e Tom Waits gravaram), almoçamos no Bar Brasserie Aux PTT (54m rue Cler), onde nos levaram 16 euros por um pichet de 50 cl de vin rouge (roubo, em português, vol, em francês, rip off, em inglês, em sueco não sei como se diz, mas continua a ser um roubo) e o Tó Pê comeu o seu terceiro bife tártaro em menos de uma semana.

Estou convencido que ele anda a fazer algum estudo comparado sobre a matéria (o bife tártaro). Assim como quem não quer a coisa, perguntei-lhe qual o melhor dos três que tinha comido. Ele não hesitou em responder que o foi de La Fresque, o restaurante onde jantamos no sábado.

Não sei se nessa opinião tem algum impacto o facto de inadvertidamente (jura ele…) ter entrado na casa de banho das senhoras e surpreendido uma das lindas raparigas brasileiras da mesa ao lado quando ela estava sentada na sanita.

Une bonne nouvelle à l’aprés midi. O Da Silva estava no sítio, pediu desculpa por ontem ter faltado ao «rendez vous» e deixou-se fotografar. Os pais são de Braga, mas ele nasceu em França, há 30 anos, em Nevers, e diz que compreende bem o português mas não ousa falá-lo.

Está em estúdio desde 15 de Dezembro, para gravar o seu segundo CD, que será lançado em Abril . O primeiro, Decembre en Eté, foi um enorme sucesso. Mais de 80 mil CD vendidos em pouco mais de um ano. Meio milhão de espectadores na tournée de 107 concertos em França, Bélgica e Suíça.

Emmanuel Da Silva, que todos os anos vem passar férias a casa dos pais na Ericeira, vive na Bretanha, adora Mísia, Cristina Branco e Madredeus, não gosta muito de Marisa nem dos franceses. Ouve bastante Clash, Ramones e Johnny Cash.

A vida corre-lhe bem. Casou com Vanessa, uma bretã loura que gosta de bacalhau e lhe deu uma filha, actualmente com 20 meses, chamada Lula (Da Silva). E os «jobs» de vendedor de discos, «gardien de nuit» ou repositor de frutas e legumes no Carrefour  já estão enterrados no passado. Agora, ele pode viver da música.

A seguir, encontramo-nos com a Graça dos Santos, 49 anos, e a sua filha Alice, de 18, à porta do Paul, junto ao Hotel de Ville. Depois rumamos em procissão, a pé, para o café Lapeyronie (3, rue Brantôme. Metro Rambutau, no Quartier de l’Horloge, ao lado do Pompidou).


À volta de um café do Panamá, conversamos um bom par de horas sobre uma série de coisas sérias. Graça é uma mulher cheia de curriculum. Filha de emigrantes de Matacães (Torres Vedras), considera-se uma francesa de origem portuguesa.

Graça fundou há 25 anos a companhia de teatro Cá e Lá. É a directora  do Departamento de Estudos Portugueses em Nanterre. Recebeu o prémio Máxima Revelação 2005 pela sua tese de doutoramento sobre o teatro no salazarismo, editada pela Caminho.

Podia contar-vos uma dezena de coisas interessantes que ela nos disse, mas amanhã tenho de acordar às 4h15 para irmos para Reims, falar com o Henrique Sousa, um produtor de um célebre champanhe que é descendente de um português que veio para França combater na Guerra de 14-48 e acabou por ficar por cá. Por isso, só conto uma história da Graça.

Ela e os filhos falam habitualmente em francês. Só usam o português (em que são fluentes) quando estão zangados ou com mimo. «O português é a lingua do inho e do ão», sentenciou a Graça.