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Ici Paris

Banhada em Bagnolet

O dia começou menos mal, com José do Nascimento, o braço direito de Sarkozy para o partido. Piorou bastante quando o cantor Da Silva nos deu uma banhada. Recuperou com Lina, leitora de manuscritos da Albin Michel. E acabou com «panache» ao jantar na casa/barco de casa de Taya, directora geral do Salon du Livre de Paris.

Sabe quem é o Da Silva? Eu não sabia, até que o Daniel Ribeiro, nosso correspondente em Paris, me jurou que «é um dos maiores acontecimentos da música francesa» e me deu um papelinho com o número de telemóvel da Anne Marie Dordor, da Tôt ou Tarde, a editora que lançou o primeiro disco a solo dele.

A Anne Marie foi muito simpática, mas não, o Da Silva já não é nada com ela , quem trata agora dele é a Virginie.

Liguei à Virginie, que também foi muito simpática mas pôs-me coração ao alto. O Da Silva está em estúdio, a gravar o segundo CD. Ela fala com ele mas não se acredita que ele tenha tempo e disponibilidade de espírito para nos aturar.

Pelo sim pelo não, dei-lhe o meu número de telemóvel, que ela achou engraçado porque tem muitos 6 (é verdade, quatro 6 em 9 algarismos). Prometeu que me ligava se o Da Silva arranjasse tempo e cabeça para nós.

E não é que a Virgine telefonou ontem de manhã a dizer que tinha boas notícias, que o Da Silva arranjava uma hora para nós, ao início da tarde de quarta ou quinta feira. O pequeno senão é que como está em estúdio deixou de fazer a barba e não quer ser fotografado – mas que ela tem todo o gosto em arranjar-me uma fotografia promocional.

Pas de problème, respondi-lhe, convencido que após meia hora de conversa connosco ele se deixará fotografar, apesar de não estar barbeado. Ao fim e ao cabo na capa de «Decembre en Eté», o seu CD de estreia, o Da Silva está de com barba de três dias – e os olhos fechados.

Dei o meu endereço de mail à Virginie, para ela me mandar a morada dos estúdios Ferber - 56 da rue Capitaine Ferber, no 20º arrondissement, metro Porte de Bagnolet, linha 3. O encontro ficou marcado para hoje às três da tarde.

A Place Edith Piaf  (na foto) é a melhor saída da estação Porte de Bagnolet para quem vai para a rua Capitaine Ferber. Desembarcamos lá às 14h30, ainda a tempo de comer uma «tagine d’agneau», empurrada por uma Leffe, no Country Bar, numa esquina a menos de cem metros dos estúdios.

À hora marcada lá estávamos lá nós os dois, a tocar à porta do estúdio. O Da Silva tinha ido almoçar, disseram-nos, será que querem esperar um bocadinho?  Ainda antes de nos sentarmos já estava a Virginie a telefonar. Confessou-se «desolé» pelos menos cinco vezes. Tinha surgido um contratempo e o Da Silva não ia poder comparecer ao «rendez vous». Ela lamentava muito, estava desolé, mas tinha surgido um imprevisto. Consumava-se a primeira banhada deste trabalho. Uma banhada em Bagnolet!

Como de manhã tinha investido 20,30 euros a comprar o disco do Da Silva, e ainda porque um músico vem mesmo a calhar no nosso painel de filhos de emigrantes, decidi ser condescendente, aceitar sem remoques o imprevisto do Da Silva e a desolação da Virginie, e disse-lhe que estava disposto a uma segunda tentativa, na 5ª ou na 6ª feira à tarde.

A «desolé» Virginie prometeu-me que ia ver e depois dizia qualquer coisa. Ao fim do dia ligou a dizer que garantia que, se nós quiséssemos, o Da Silva se encontrava connosco amanhã, no mesmo sítio e à mesma hora.

Vamos lá a ver se será desta. Para vos provar que não fiquei ressentido, devo dizer-vos que estou a ouvir o disco dele enquanto escrevo este postal.

Valha-nos que o resto do dia correu bem. O trabalho começou às 10h30, no gabinete do José do Nascimento, na sede da UMP-Union por un Mouvement Populaire (56, rue de Boétie, uma perpendicular dos Champs Elysées).

Filho de agricultor de Penedono que emigrou para França e se tornou pedreiro, José, 38 anos, é o homem que controla o aparelho do partido no Governo em França e integra o estado maior de Nicolas Sarkozy, o candidato presidencial da direita, com quem reúne três vezes por semana.

José fumou alguns cigarros enquanto nos contava como é que nos últimos dois anos conseguiu triplicar o número de militantes da UMP (uma das armas que usou foi a adesão via SMS!) aproveitando de ser hoje o último dia em que é permitido fumar nos locais de trabalho em França.

A partir de amanhã o cinzeiro vai desaparecer da sua secretária. Por várias razões e mais uma, sendo que a mais uma é que Sarkozy, o presidente da UMP e chefe de Nascimento é o ministro do Interior, o directo responsável pela aplicação da proibição.

Mas não foi por essa razão que o José pediu ao Tó Pê que o cinzeiro cheio de beatas parecesse na fotografia que vai ser publicada no Expresso. È que a mãe dele não sabe que ele fuma. O José nunca ousou fumar à frente dela…

À tarde, aproveitamos o tempo deixado livre pela banhada do Da Silva para vermos a exposição do Robert Doisneau (sabem quem é, é o autor da famoso fotografia do beijo), antes de atravessarmos o Sena e rumarmos para a sede da editora da Albin Michel, uma das grandes editoras francesas.

A Lina Pinto, 30 anos, nascida na região de Paris (a história repete-se, como não podia deixar de ser é filha de um pedreiro e de uma mulher da limpeza de S. João da Pesqueira) é a responsável pela leitura de manuscritos da Albin Michel.

Em 2006 recebeu dez mil manuscritos. Ela despacha, em média, 30 por dia. Em 80% dos casos basta-lhe ler a primeira página para o rejeitar. O ano passado recomendou a publicação de cinco livros. Todos eles foram um sucesso.

Lina não gosta nada de ser fotografada, mas é uma rapariga divertida, que  nos contou uma data de histórias curiosas, como por exemplo a de que algumas aspirantes a escritoras que partem do principio que o seu manuscrito vai ser lido por um homem e que por isso, na vã tentativa de para melhorarem as chances de serem publicadas, anexam uma fotografia delas nuas.

Já passava das oito da noite quando nos despedimos de Lina na Place Picasso, em Montparnasse (a Albin Michel fica no 22 rua Huyghens, metro Vanvin), em frente ao café La Rotonde, onde Modigliani apanhou algumas valentes bebedeiras.

Estávamos um pouco atrasados para o nosso último encontro do dia, com Taya de Rayniès-d’Orey, que nos convidou para jantarmos em casa dela, um barco ancorado no Sena, a três minutos de distância da saída da estação do metro Boulogne- Pont de St Cloud.

Filha de um militar francês e de uma portuguesa, Taya, 37 anos, é a directora geral do Salon du Livre do Paris, um dos maiores acontecimentos do mundo literário, e casada com um português,

Bernardo d’Orey, 39 anos, que trabalha no luxo. Passou pela Louis Vuitton e Chanel, desenhou e produziu jóias que vendia com a sua marca, e agora está na Boucheron.

O serão de hoje, na casa/barco de Taya e Bernardo, foi o mais agradável que tivemos desde que desembarcamos em Paris, na 6ª feira passada. A simpatia deles fez-nos esquecer a banhada em Bagnolet.