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Expresso

O Expresso no Festival de Veneza

Sob o signo do filme negro

Veneza não abriu com um filme extraordinário mas ofereceu o «glamour» e o enquadramento justos para o que parece poder vir a ser uma grande mostra de cinema.

Com um filme à moda dos anos 40, o Festival de Veneza abriu sob um signo negro – tanto que, na festa de inauguração, às mulheres foi imposto um código vestimental intransponível: vestido preto, a condizer com a «cor» do filme que recebeu as honras inaugurais: «The Black Dahlia» de Brian de Palma.

Na base está um romance policiário de James Ellroy, ele mesmo inspirado num evento real dos anos 40: a horrenda morte de uma jovem candidata a actriz nos meios pouco sãos de uma Hollywood secreta. Mas o que importa na fita de Brian de Palma não são factos, mas um estilo. Há uma emaranhadíssima teia de personagens e eventos – um polícia determinado, um parceiro que parece impoluto, mas está metido em lama, uma mulher que quer salvar-se, uma outra que já está perdida – e muita elegância formal. Scarlett Joahansson é uma mulher de mau passado e que quer ter um futuro, mas a verdadeira ave assombrosa e assombradora da fita é Hillary Swank, que mergulha até ao fundo de uma morbidez feita do mais enleante dos venenos. A cenografia requintada (do grande Dante Ferretti) e uma fotografia onde se sente a mão ímpar de Vilmos Zsigmond embrulham o nosso olhar em beleza.

Veneza não abriu com um filme extraordinário (é a norma dos festivais...), mas ofereceu o «glamour» e o enquadramento justos para o que parece poder vir a ser uma grande mostra de cinema.