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Expresso

Festival de Cinema de Berlim

Rasgo de génio da Coreia

I’m a Cyborg, But That’s Ok, grande filme de Park Chan-wook, chega a Berlim para dividir.

O coreano Park Chan-wook é um «habitué» da Berlinale desde o ano 2000 e da estreia mundial da sua primeira longa-metragem, Joint Security Area. Também nós nos habituámos a descobrir aqui a sua filmografia, à excepção de Oldboy, estreado em Cannes em 2003 e vencedor do Grande Prémio do Júri no ano em que a «Palma» foi para Michael Moore. Oldboy, até então, e de muito longe, o seu melhor filme, foi um estrondoso êxito crítico e comercial. Park filmou depois um segmento menor do filme de «sketches» Three Extremes e um decepcionante Sympathy for Lady Vengeance. A expectativa do regresso a Berlim com I’m a Cyborg… era, por tudo isto, altíssima.

Grande surpresa ao descobrir que Park, após ter ganho tudo o que havia para ganhar, recusa por completo a imagem de marca deixada pelo êxito anterior. Em I’m a Cyborg, o jogo lúdico sobre a loucura, que afinal já era o vector de Oldboy, reinventa-se a cada plano, recusa o ornamento, afasta-se radicalmente da dramatização e da identificação com a realidade.

Seguimos a aventura de uma adolescente, Young-goon, que após crise de identidade se liga literalmente à corrente eléctrica, acabando por passar um belo pedaço de tempo numa clínica psiquiátrica. No bolso ela leva a dentadura da sua querida avó já falecida, entre outros objectos «fétiche».

Ela lá sabe os porquês do seu «gesto eléctrico»: julga-se um cyborg e não ingere comida normal, pois alimenta-se a pilhas e é capaz de transformar os dez dedos das mãos em letais metralhadoras contra os médicos do hospital. Acreditamos na sua aventura? Claro que sim. Como no brilhante A Senhora da Água, último filme de Shyamalan, toda a acção e personagens de I’m a Cyborg… embarcam no delírio, entram no reino dos impossíveis, o que necessariamente é um gesto radical.

Não faltarão vozes que outrora apoiaram Oldboy a levantar-se agora contra o novo filme de Park e as ousadias do seu argumento. No hospital, onde a loucura de cada personagem se transforma em gesto criativo de cinema, Young-goon conhece um rapaz, Il-soon. Ele passou por experiência traumática (foi violado) e passa os dias a jogar ping-pong com uma máscara de superherói. Il-song vai ajudar a nossa cyborg a sair da letargia. Ambos vão criar um belo casal romântico, desesperado, fora das convenções, entregue ao poder da imaginação, como Alice no País das Maravilhas. Brilhante filme, original e maduro, sobre a angústia contemporânea: é o melhor de Park até à data.

«La Môme» de Olivier Dahan

O «biopic» francês sobre Edith Piaf que inaugurou ontem Berlim, La Môme, segue em montagem alternada os passos da vida da intérprete de «La Vie en Rose», desde os tempos de miséria no bairro parisiense de Belleville, no pós-I Guerra Mundial, ainda Piaf era criança, até à sua morte, em 1963.

A infância entre os bordéis e os circos, as primeiras canções nos cabarets para ganhar a vida, a consagração nas grandes salas de «music hall» de Paris e Nova Iorque, bem como a decadência final de Piaf, misturam-se a torto e a direito num filme, afinal, incapaz de criar qualquer perspectiva sólida sobre a figura que homenageia.

Quando Piaf canta, sidera tudo o que está à sua volta (e é mesmo a sua voz rouca que se ouve, em dezenas de canções). O filme, contudo, e apesar dos bons valores de produção, só tem uma mímica de Piaf para dar (o trabalho da actriz Marion Cotillard torna-se um desperdício de esforço ao tentar imitar o inimitável).

A minúcia do filme e a sua fome de detalhes, os nobres e os mais sórdidos (Piaf teve vida de excessos desbragados, mas isso todos nós sabemos), acabam mesmo por se tornar inquisidores e injustos para a brava mulher que, já a cair da tripeça na fase final da carreira, teve a coragem de subir ao palco do Olympia para cantar «Je Ne Regrette Rien» («Não Me Arrependo de Nada»). Melhores filmes franceses virão, certamente, com os novos de Rivette, Ozon e Téchiné.

«Panorama» e «Fórum»: inaugurações

A secção «Panorama», que paralelamente à Competição exibe, «apenas», 50 longas-metragens, trouxe-nos para a sua abertura um filme canadiano, The Tracey Fragments.

Conta-se a história, em «split screen» (o ecrã é dividido em vários pedaços e cada um deles mostra um bocado da acção: nada de novo, Andy Warhol fez muito melhor e há muito tempo), de uma miúda depressiva e antisocial de 15 anos. Ela procura o paradeiro do seu irmão de 9, com o agravante deste se julgar um cão…

A miúda não é uma actriz qualquer, trata-se da jovem Ellen Page, revelada no drama psicológico Hard Candy, estreado no ano passado em Portugal. A busca da personagem torna-se um pesadelo tão grande quanto o filme, completamente toxicómano do seu sainete artístico e inútil.

O «Fórum», laboratório dedicado ao cinema do futuro e uma das melhores, se não a melhor, secção de cinema independente do planeta, cumpre este ano a sua 37.ª edição e é um festival à parte dentro da «Berlinale».

Para o leitor fazer uma ideia da dimensão de Berlim, também aqui são exibidas mais de 50 longas-metragens (mais uma retrospectiva ao cineasta nipónico Okamoto Kihachi).

Inaugurou-se melhor o «Fórum», com um notável filme que, por acaso, já apoiámos com um prémio de distribuição em Dezembro de 2006, numa passagem que tivemos pelo Júri Internacional do Festival de Belfort, em França. 

Agora em «posição neutra», podemos falar de quanto é magnífico Substitute, uma produção independente feita com duas câmaras de «Super 8 mm» e meia-dúzia de tostões.

Foi realizada por Fred Poulet, que trabalhou em videoclips, e por Vikash Dhorasoo. De Fred Poulet, pouco ou nada sabíamos. Já Dhorasoo… é ele mesmo, o famoso futebolista do Paris Saint Germain (PSG), campeão europeu e do mundo pela Selecção Francesa.

Dhorasoo, organizador de jogo no meio campo, futebolista temperamental, seria despedido sem justa causa do PSG (e foi o primeiro futebolista do mundo a sê-lo) por alegada indisciplina e insubordinação, pouco depois da sua presença nos «Bleus», no último Campeonato do Mundo de Futebol, aqui na Alemanha.

Chamado pelo treinador francês, in extremis, para o lote de convocados, Dhorasoo foi apenas utilizado, em todos os jogos da França (e foram muitos, até à derrota na final), durante 16 minutos.

O que ninguém sabia é que, antes do Mundial começar, Poulet teve a ideia genial de passar uma câmara Super-8 a Dhorasoo, de ensiná-lo a filmar, e o gesto nobre de dividir com ele a realização.

O que se vê é um filme sobre um homem que quer jogar à bola e não pode. Um tipo cheio de sangue na guelra que mal consegue sentar-se no banco de suplentes da equipa.

Ele é o eterno «substituto» do título e este filme, rodado a mielas, concentra a sua angústia, a sua insatisfação, mas também a sua alegria até à final de Berlim e à cabeçada de Zidane naquela derradeira partida (o momento nos balneários logo após esse jogo é um grande momento de cinema e abre uma perspectiva radicalmente oposta ao espectáculo que é o futebol numa transmissão da TV).

Nos últimos anos de cinema, são muito raros os filmes tão melancólicos, e também tão humanos, como este documentário. Não hesitamos um segundo em classificar Substitute como uma das maiores descobertas de 2006. Talvez um dia ele possa ser visto fora dos festivais (daí a importância daquele prémio de ajuda à distribuição francesa, já garantida). Fora do hexágono, passará porventura em sessão isolada de um ciclo de arte e ensaio, ou numa tímida difusão na TV. Por nós, ia directamente para o circuito de exibição em sala. E cheira-nos: o distribuidor que lhe pegasse talvez não desse por mal empregue o seu tempo. Nem o seu dinheiro…