Siga-nos

Perfil

Expresso

Festival de Cinema de Berlim

Os anos do sida

André Téchiné acerta contas com o passado em «Les Témoins/As Testemunhas».

Num Festival recheado de filmes de época, também Téchiné regressa ao passado, aos anos 80 que viram deflagrar a doença que marcou o século XX. É curioso: nos filmes que este veterano do cinema francês realizou na segunda metade dos anos 80 (O Local do Crime, Os Inocentes...), numa altura em que o sida transformava por completo os comportamentos sociais e sexuais, nunca o tema foi directamente abordado.

O «acerto de contas» não se deve só ao tema. Les Témoins é um filme muito mais selvagem dos que os últimos de Téchiné, recorda Não Dou Beijos, e traz-nos novamente uma Paris de anos 80 nocturna, viciosa, invadida pelo desejo dos corpos.

Estamos em 1984. Manu, jovem de 20 anos da província, chega a Paris e procura trabalho. Homossexual, frequenta os locais de engate, tornando-se amigo de um médico «gay» de 50 anos, Adrien, que por ele se apaixona. É sobretudo pelo olhar de Adrien, alter-ego de Téchiné, que se observa a acção. Adrien apresenta Manu a um casal heterossexual, a escritora Sarah e o polícia Mehdi. No entanto, Mehdi, que esconde a sua homossexualidade, será seduzido por Manu e inicia com ele uma relação paralela. O drama estala quando o jovem herói do filme descobre estar infectado pelo vírus.

Les Témoins tem um «casting» de nível (Michel Blanc, Emmanuelle Béart, Johan Libereau, Sami Bouajila) e observa sem remorsos nem complexos de culpa a transformação brutal de um tempo. É um candidato ao Urso de Ouro.

Razoável e justo é o que se pode dizer do olhar de In Memoria di Me, do italiano Saverio Costanzo, a seguir o caminho da fé de um jovem homem que entra no complexo eclesiástico da ilha de San Giorgio Maggiore, em Veneza. Aqui domina o silêncio.

O resto da Competição tem sido tépida (é sobretudo nas secções «Panorama» e «Fórum» que se têm encontrado as surpresas). No desastroso Goodbye Bafana, uma co-produção europeia realizada por Bille August, estamos na África do Sul do «apartheid» no fim dos anos 60 (mais um filme de época, para variar). Acompanha-se a tomada de consciência política de James (Joseph Fiennes), um guarda prisional «afrikaner» de Robben Island, cadeia onde Nelson Mandela (interpretado por Dennis Haysbert) cumpriu pena. James sensibiliza-se com a injustiça do seu país mas, do ponto de vista cinematográfico, o que temos é um panfleto humanista de pacotilha. É o típico filme programado ao milímetro para fazer correr a lágrima e convencer júris comovidos. Esperemos que Goodbye Bafana deixe Berlim sem prémios, pela simples razão de que não os merece.

Ainda mais penoso é When a Man Falls in the Forest, segundo filme do americano Ryan Eslinger. Sharon Stone e Timothy Hutton participam neste drama psicológico e arrogante, com ares de “cinema indie”, sobre a monotonia de quatro personagens infelizes e em crise de meia-idade. O filme é tão infeliz quanto eles.