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Expresso

Festival de Cinema de Berlim

O poder do melodrama

«Angel», último filme da Competição, é o melhor de François Ozon até à data.

Angel vai estrear-se em Berlim em condições anormais. Terá a sua sessão de gala neste sábado à tarde, imediatamente antes do anúncio do «Palmarés», cerca das 18h. Angel encerra Berlim e, no entanto, está na Competição e na luta pelo Urso de Ouro. Em muitos anos de festivais de cinema nunca se viu tal coisa. O que ganhará o filme com isso? O que perderá, numa altura em que grande parte da imprensa já abandonou Berlim sem o ter visto?

Corre nos bastidores que tudo estava pronto para que Angel só estreasse no próximo Festival de Cannes, em Maio, mas desentendimentos de última hora ainda por esclarecer acabaram por trazê-lo à capital germânica. Berlim recebeu-o de braços abertos e incluiu-o no programa à última hora.

E ganhou com a aposta: Angel, primeiro filme de Ozon rodado em inglês, com actores britânicos, é também o seu melhor. Adapta uma novela inglesa de Elizabeth Taylor (não, não é a famosa actriz de Hollywood) que, segundo o realizador, «nem os ingleses conhecem». A heroína da novela é a Angel do título, uma adolescente da província com jeito para escrever romances de cordel na Inglaterra de 1905. Ozon filma a sua ascenção nesses primeiros anos do século XX. Tudo muda quando, em 1914, rebenta a I Guerra Mundial.

Filha de uma modesta lojista inglesa sem grandes recursos, Angel, uma das personagens mais narcisistas que o cinema já viu, está disposta a tudo para conseguir os seus objectivos. A sua escrita «light» seduz o grande público, que cedo a transforma numa estrela. Angel vai conseguir tudo o que quer: o palácio dos seus sonhos, o homem que ama, uma colossal fortuna. Tem o mundo a seus pés. O seu gosto extravagente por veludos garridos, animais exóticos, estátuas de porcelana e outros luxos de gosto infeliz são um festival de luz e de cor. Ozon filma esta história de sonho como Vincente Minnelli filmava melodramas na Hollywood dos anos 40 e 50, terminando da forma que o género exige - a fazer chorar as pedrinhas da calçada. Ao mesmo tempo, o filme é atravessado por uma corrente de cinismo sobre o problema do gosto e a futilidade do mundo artístico.

Ozon entregou-se de alma e coração ao romanesco e assinou um dos filmes mais impressionantes de Berlim. É um fortíssimo candidato ao Urso de Ouro desta noite.