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Expresso

Festival de Cinema de Berlim

Marianne Faithfull em posição incómoda

Dois filmes que podem ver os seus actores principais no Palmarés do próximo sábado: «Irina Palm», do polaco Sam Garbarski, e «El Otro», do argentino Ariel Rotter.

Marianne Faithfull brilhou numa co-produção europeia sem brilho e com queda para o grotesco, muito longe do melhor que até agora se viu em Berlim. Apesar disso, são positivos os ecos gerais que Irina Palm deixou na Potsdamer Platz.

Corre nos bastidores que Paul Schrader, presidente do Júri de Berlim, também se sensibilizou com a história da heroína do filme, Maggie, uma pacata avó da classe média inglesa com missão delicada para cumprir.

Para pagar a operação que poderá salvar da morte o seu neto, a personagem de Marianne Faithfull começa a trabalhar num bar de «peep show», a masturbar homens, e cedo ganha fama.

A bravura da personagem, no seu naturalismo sempre forçado (o naturalismo típico do cinema britânico), é sempre superior, quer à facilidade de um "tema choque", quer ao ridículo pudor da câmara, nas cenas, digamos, "mais picantes".

Tudo é higiénica e cuidadosamente deixado fora de campo para não abalar o sacrifício e as boas intenções deste retrato de mulher. Um retrato que é bem capaz de conceder a Marianne Faithfull o prémio de interpretação feminina (quanto a nós, era Cate Blanchett que o levava por The Good German).

Longe deste tipo de polémicas está El Otro, segunda longa-metragem do argentino de origem judia Ariel Rotter. Seguimos a crise existencial de Juan, advogado de meia idade de Buenos Aires, a partir do momento em que ele recebe da namorada a notícia de que vai ser pai pela primeira vez.

Com o seu próprio pai, um septuagenário quase acamado, ele tem uma relação especial. Juan aproveita uma pequena viagem de trabalho para experimentar, durante dois ou três dias, "outra vida", o «El Otro» do título, que é afinal o seu duplo. Instala-se num motel com um nome falso, faz-se passar por amigo de quem não conhece, seduz uma mulher, antes de voltar a casa e retomar o quotidiano.

O filme acompanha este "mini-tsunami" da personagem, sem consequências de maior, com ideias de cinema sugestivas. Proporciona também outro papel de relevo a Júlio Chávez (aqui o vimos no ano passado em El Custodio), actor de respeito de um novo cinema argentino que continua a surpreender. El Otro é um óptimo filme e merece a atenção dos distribuidores europeus.