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Expresso

Festival de Cinema de Berlim

Magnífico Jacques Rivette

«Ne Touchez pas la Hache», com Jeanne Balibar e Guillaume Depardieu, é a obra-prima que faltava a Berlim.

Jacques Rivette, 78 anos, um dos cineastas que, no fim dos anos 50, lançou a «Nouvelle Vague», mostrou em Berlim um extraordinário filme de época que não se assemelha a nada do que já foi visto no Festival. Inspirado num romance de Balzac incluído em «A Comédia Humana», Ne Touchez pas la Hache passa-se no início do século XIX, após a Restauração Francesa. Segue a complexa relação amorosa do general francês Armand de Montriveau (Guillaume Depardieu), um herói de guerra fiel a Napoleão, e da duquesa Antoinette de Navarreins (Jeanne Balibar em estado de graça), «femme coquette» da aristocracia parisiense.

Montriveau apaixona-se perdidamente pela duquesa e lança o escândalo em Paris, já que ela é uma mulher casada. Nada se "concretiza", porém: a duquesa parece troçar do militar e das suas visitas sucessivas. Montriveau fica sempre na sala de estar da duquesa, não chega a entrar na alcova. Mais tarde, e depois de muitas renúncias, é ela que se descobre apaixonada e persegue Montriveau, mas este despreza-a. Perdida para a sociedade, ela abraça vida monástica num convento das Carmelitas Descalças em Espanha.

O filme começa cinco anos depois da acção central, numa altura em que Montriveau reencontra Antoinette. O argumento e as interpretações (a Balibar e Depardieu juntam-se Michel Piccoli e Bulle Ogier) são tão brilhantes quanto o trabalho de fotografia de William Lubtchansky. Tudo é perfeito nesta paixão casta, e paradoxalmente minada pelo cinismo, num tempo em que os valores dominantes eram a hipocrisia, o dinheiro e a sede de poder. Uma obra-prima.