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Expresso

Festival de Cinema de Berlim

Made in Japan

Aplausos para Clint Eastwood: «Cartas de Iwo Jima» é um filme notável. Robert de Niro realiza e interpreta trabalho de estima, «The Good Shepherd».

Cartas de Iwo Jima, (estreia em Portugal na quinta-feira), segunda parte do díptico dedicado àquela batalha da II Guerra Mundial, é um filme mais rigoroso e sombrio que As Bandeiras dos Nossos Pais. A história já é do conhecimento público: num gesto de enorme nobreza, Clint sentiu a «necessidade» (ética e moral) de filmar a guerra dos dois lados da trincheira. Cartas de Iwo Jima enquadra novamente a invasão americana da ilha, mas desta vez sob o ponto de vista do exército japonês, numa altura em que este já se encontrava bastante inferiorizado e à beira do desespero. A batalha de Iwo Jima, ilha estratégica a partir da qual os americanos lançariam os B-52 contra Tóquio, foi decisiva e uma das mais sangrentas de toda a história militar. Novamente produzido por Spielberg, o filme de Clint é praticamente todo falado em japonês, e são japoneses os seus actores principais. Passou em Berlim fora de competição.

Há uma história que traz o passado da guerra para a actualidade, quando, no início do filme, aquela equipa de arqueólogos descobre enterrado na ilha um saco com centenas de cartas de soldados nipónicos. Cartas (quase todas de amor) que nunca chegariam ao destino.

A acção volta depois ao tempo da batalha. As personagens são apresentadas uma por uma e descem ao palco da guerra. Destaca-se o general Kuribayashi (papel extraordinário de Ken Watanabe), militar inteligente e circunspecto, e Baron Nishi (Tsuyoshi Ihara), o militar aristocrata e cosmopolita que vencera uma medalha de equitação nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. Nishi, descobrimos mais tarde, é a parte romântica do filme. Como numa tragédia grega, Kuribayashi e Nishi têm a dimensão dos arquétipos, estão conscientes do seu destino. O que aguarda os japoneses? A morte certa. Um massacre. Uma missão suicida, pois é imensa a diferença entre aqueles homens famintos e mal armados e a super armada americana que vemos desembarcar na praia, numa das sequências mais brilhantes do cinema contemporâneo.

Para os japoneses, as ordens deste confronto de David e Golias são claras: cada soldado nipónico deve abater pelo menos dez inimigos antes de cair. Tenazes, escondidos como ratos nas grutas da ilha, eles vão resistir até ao fim e concentrar naquele desafio, naquela espera terrível, a complexidade do que é ser humano, adiando por 40 dias a vitória americana.

Vinte mil soldados japoneses (praticamente todos os que defendiam a ilha) e sete mil marines morreriam neste gigantesco cemitério. Diz-se e com razão que Clint é o último dos clássicos. É também verdade que o «filme de guerra», o mais difícil dos géneros, encontra aqui a nobreza e a perspectiva trágica do melhor cinema do passado. Cartas de Iwo Jima, contudo, é um gesto moderno da cabeça aos pés, pelo modo como integra na acção e na construção de cada plano o nec plus ultra das novas tecnologias. Notável.

Em The Good Shepherd/O Bom Pastor (estreia portuguesa no próximo dia 22), De Niro sublinha também a maior preocupação deste Festival, inesperadamente, recheado de filmes de época. Berlim 2007 ainda nem vai a meio mas já é clara a sua linha de programação.

The Good German (ainda que o caso de Soderbergh seja especial), Die Fälscher, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias ou La Mome são filmes que falam do passado, bem como os novos de Rivette e de Ozon, a exibir lá mais para a frente. O «bom pastor» de Robert de Niro é Edward Wilson (Matt Damon), um agente da CIA.

O filme arranca no início dos anos 60, pouco tempo depois do golpe de Fídel Castro em Cuba, numa altura em que Edward se debate com uma crise profissional profunda. Daí se regressa aos anos 30 da adolescência de Edward, aluno brilhante, e se acompanha a sua integração, em 1939, numa célula experimental dos serviços secretos americanos que depois daria origem à Central Intelligence Agency (a CIA).

O patriota Edward, traumatizado pelo suicídio do pai, é afinal um joguete nas mãos do poder, um arrivista disposto a tudo para proteger a carreira, mesmo que isso implique a destruição da sua vida familiar e privada. Edward é o anti-herói obediente e passivo que nunca soube escolher, nem mesmo o seu casamento (casa por conveniência com uma mulher que não ama, Clover/Angelina Jolie, porque ela engravida). É o homem feito para agradar.

Demasiado longo, o «thriller» político de De Niro segue o seu argumento em piloto automático sem rasgos de cinema superiores. É um filme de actores, estimável, profissional, mas fica-se por aí. Um mal menor: não se pode pedir ao De Niro realizador que assine filmes ao nível das obras-primas que interpretou para Cimino ou Scorsese.

Nota de simpatia para o primeiro trabalho chinês exibido a concurso, Tuya’s Marriage, terceira longa-metragem de Wang Quan’na. Berlim passou no «Fórum» de 2002 e no «Panorama» de 2004 os seus filmes anteriores. É uma história sobre a condição feminina, muito mais próxima do estilo da escola iraniana que do recente cinema chinês. Acompanhamos as peripécias de Tuya, uma camponesa do noroeste da Mongólia. Com o consentimento do marido, um deficiente motor, Tuya, que tem dois filhos, divorcia-se. Procura depois novo companheiro que lhe possa dar melhor vida e logo se anuncia uma fila de pretendentes. Só que a promessa da subida de classe social acaba por arrastar Tuya para um dilema moral. Ela defende-se com brio. Este hino à maternidade, cem por cento honesto, apresenta uma realização convencional sem desafios de cinema a assinalar. Sempre permeável a um sentido metafórico, o filme não consegue ir mais além.