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Expresso

Festival de Cinema de Berlim

Jennifer Lopez desastrosa

«Bordertown» é o maior desperdício deste Festival.

O facto verídico é brutal, inexplicável e merecia tratamento sério: na cidade mexicana de Juaréz, próxima da fronteira com os EUA, centenas de raparigas têm sido violadas e assassinadas nos últimos anos perante a passividade das autoridades dos dois países. Elas são as «maquilhadoras», trabalham em fábricas de produtos baratos para o mercado dos EUA e continuam a ser vítimas de crimes obscuros, sem que a justiça se avizinhe.

No filme de Gregory Nava, Bordertown, Martin Sheen, por si só um actor com caução política (são famosas as suas afirmações contra Bush) edita um jornal de Chicago e vai enviar a jornalista Jennifer Lopez para o terreno. O desastre é total: oportunista, o filme limita-se a contar os factos sem tomar posição, e não admira, pois está mais concentrado na pieguice da personagem de Lopez do que em qualquer outra coisa. O assunto passa completamente ao lado.

Mais interessante, mas igualmente ilustrativo, é o regresso do cineasta Jiri Menzel, um histórico do cinema checoslovaco dos anos 60, à alta roda dos festivais. Baseado num romance checo burlesco de Bohumil Hrabal, I Served the King of England, mais um filme de época, conta a ascensão e queda de Jan, um rapaz ambicioso e oportunista de Praga, simples empregado de mesa nos anos 30. A Alemanha de Hitler invade depois o país, Jan liga-se aos SS e, em tempo recorde, chega à alta sociedade. Enquanto o filme vai passando pelos episódios da história do país, as peripécias da personagem convidam ao sorriso amarelo e a anedota geral jamais se transforma em farsa.

Bem mais inteligente é Hallam Foe, um filme escocês de David Mackenzie, autor de Young Adam. A personagem do título, um rapaz que acabou de sair da adolescência, está convencido de que a madrasta casou com o pai para dar o golpe do baú e ficar com o palacete da família. Mais: ele pensa que foi ela a responsável pela morte da mãe, que na verdade se suicidou. Ao mesmo tempo, a madrasta excita-o sexualmente e o rapaz faz-lhe a vida num inferno. Hallam é uma personagem de romance infantil, vive num mundo de rituais, isola-se na sua cabana no topo de uma árvore e passa o tempo a pregar partidas e a espiar a vida dos outros. Parte para Edimburgo e apaixona-se pela directora do «staff» de um hotel, sósia da mãe desaparecida. Filme de aventuras sobre um adolescente à procura do seu lugar no mundo, Hallam Foe é sincero e despretensioso. Merece simpatia.