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Expresso

Festival de Cinema de Berlim

E o Urso de Ouro foi para a China

«Tuya’s Marriage», de Wang Quan’an, venceu o 57º Festival de Berlim

Foi com surpresa que Paul Schrader, presidente do Júri de Berlim 2007, anunciou o Urso de Ouro para Tuya’s Marriage, terceiro filme de Wang Quan’an, um cineasta revelado aqui em Berlim há sete anos. No «jogo de totobola» da crítica internacional, ninguém o apontava como candidato. Como escrevemos numa destas crónicas, trata-se de um filme honesto da cabeça aos pés em nome da condição feminina na China.

Acompanha-se a aventura de uma camponesa das estepes da Mongólia que, com o consentimento do marido deficiente, procura novo companheiro que lhe possa dar a ela e à família uma vida mais digna. A actriz que interpreta Tuya, Yu Nan, tem um trabalho notável e se o Urso de Ouro valorizasse as boas intenções, o prémio não poderia ser mais justo. Infelizmente, no que toca a ideias de cinema, Tuya’s Marriage é um filme limitado, a sublinhar uma metáfora mil vezes abordada, sem poder comparar-se ao excelente filme de Jacques Rivette, Ne Touchez pas la Hache, para nós o mais valioso a concurso, ou mesmo às experiências de Soderbergh (The Good German) e François Ozon (Angel).

Já com maior satisfação vimos El Otro, do argentino Ariel Rotter, levar para casa o Urso de Prata do Grande Prémio do Júri. Rotter deixou no palco do Berlinale Palast um discurso emotivo sobre o cinema independente. Foi também pela participação em El Otro que Julio Chávez, sem surpresa, conquistou o Urso de Prata para Melhor Actor. Esperemos que esta história sobre um advogado de meia idade que aproveita uma curta viagem de trabalho para reflectir sobre a vida possa chegar às salas portuguesas.

Nova surpresa, desta vez positiva, foi a atribuição do Urso de Prata para Melhor Actriz ao fabuloso trabalho de Nina Hoss em Yella, filme alemão de Christian Petzold e um dos melhores a concurso. O prémio parecia estar garantido para Marianne Faithfull, pela sua interpretação em Irina Palm.

Joseph Cedar, por Beaufort, ficou com Urso de Prata de Melhor Realização e, francamente, não se percebe porquê: a «mise-en-scène» deste filme de guerra que acompanha a retirada das tropas israelitas de uma base militar no Líbano, em 2000, é em tudo convencional. De resto, Cedar nada disse sobre a forma como filmou (no agradecimento a um prémio de realização, afinal, poderia tê-lo feito), deixando apenas à plateia uma mensagem pacifista tão ingénua quanto o filme.

I’m a Cyborg but That’s OK, filme do coreano Park Chan-wook que aqui defendemos logo no arranque de Berlim, venceu o prestigiado Prémio Alfred Bauer pela a Melhor Inovação Artística. É quase sempre assim nos grandes festivais: os filmes mais ousados ficam-se por distinções secundárias. Destaque final para um Urso de Prata de Melhor Contribuição Artística para o elenco de O Bom Pastor, de Robert de Niro (estreia em Portugal para a semana) e um Urso de Prata para a Melhor Banda Sonora para o filme britânico Hallam Foe. O realizador David Mackenzie subiu ao palco acompanhado de dois elementos da banda «pop» Franz Ferdinand.

Como é hábito, o Expresso apresentará um balanço alargado do Festival na edição impressa do próximo sábado.

PALMARÉS BERLIM 2007

Urso de Ouro
«Tuya’s Marriage», de Wang Quan’an

Urso de Prata – Grande Prémio do Júri
«El Otro», de Ariel Rotter

Urso de Prata – Melhor Realização
Joseph Cedar, por «Beaufort»

Urso de Prata – Melhor Actriz
Nina Hoss por «Yella», de Christian Petzold

Urso de Prata – Melhor Actor
Julio Chávez por «El Otro», de Ariel Rotter

Urso de Prata – Melhor Contribuição Artística
Elenco de «O Bom Pastor», de Robert de Niro

Urso de Prata – Melhor Banda Sonora
«Hallam Foe», de David Mackenzie

Prémio Alfred Bauer – Melhor Inovação Artística
«I’m a Cyborg, but that’s OK», de Park Chan-wook

Melhor Primeira Obra
«Vanaja», de Rajnesh Domalpalli