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Expresso

Festival de Cinema de Berlim

As representações asiáticas em Berlim desiludiram

Lost in Beijing, terceira longa-metragem da chinesa Li Yu, não corresponde às expectativas lançadas pela sua excelente estreia, Fish and Elephant, revelado aqui em Berlim na secção «Fórum», em 2001.

Esperava-se um trabalho cinematográfico mais exigente deste drama de denúncia da condição feminina. Ping Guo (assim se chama Lost in Beijing na sua língua original), como tantas outras raparigas da sua idade, trabalha como massagista num centro de beleza para homens e por eles procurado para fins sexuais. É casada com um funcionário de limpezas e consegue sobreviver, apesar de tudo, na selva de Pequim.

Ela é a típica heroína que vem da província para enfrentar a vida da grande cidade, personagem habitual da nova cinematografia chinesa. Violada pelo patrão sob o olhar do marido (ele limpa os vidros do edifício e assiste ao crime do outro lado da janela), Ping Guo, incompreendida por todos, quase perde emprego e casamento.

O filme sublinha a vitimização da personagem – é este o seu maior problema – ainda que encontre um ritmo ligeiro para o drama quando Ping Guo engravida, sem ter a certeza se o pai da criança é o marido ou patrão. Mas ambos desejam um filho (a mulher do último é estéril).

A gravidez de Ping Guo e sucessiva luta pela posse da criança, com algumas peripécias e testes DNA à mistura, não passa de uma historieta de cordel mas é acompanhada pelo filme tim-tim por tim-tim (ou seja, é mal acompanhada). Os movimentos de câmara, constantes e injustificados, simulam um tom de reportagem documental.

Fish and Elephant, história da relação de duas mulheres, uma lésbica e outra hetero, era um filme formalista, radical, inventivo. Traduzia a complexidade e angústia da juventude chinesa com grandes ideias de cinema. Lost in Beijing, infelizmente, é apenas um gesto de denúncia filmado de qualquer maneira. É provável que Li Yu se tenha deixado enganar pelas boas intenções. Talvez tenha julgado que chegou o momento de entrar num sistema comercial para o grande público do seu país. Nada contra: o problema é que Lost in Beijing aposta tudo no seu tema-choque e faz dele uma verdade universal sem se lembrar do cinema.

Uma produção franco-coreana, realizada por outro realizador chinês, Zhang Lu, levou-nos de novo à fronteira entre China e Mongólia depois de Tuya’sMarriage, exibido nos primeiros dias do Festival. O novo filme de Zhang Lu, o autor de Grain in Ear (esteve presente no «IndieLisboa» do ano passado), chama-se Hyazgar e segue de perto o quotidiano de Hungai, um dos poucos camponeses que ainda resiste naquela terra de privações.

A mulher e filha de Hungai acabam por partir, ele bebe para esquecer o desespero, mas um dia alguém lhe bate à porta: é Choi Song-hee, uma refugiada da Coreia do Norte, acompanhada do seu filho menor e à procura de guarida. A boa ideia é que Hungai e Choi Song-hee falam línguas diferentes, facto que estimula o processo de aprendizagem das personagens e a amizade que depois se estabelece.

Hyazgar é um filme tão limitado quanto a realidade que observa. Sem interferir, mantém-se neutro e escapa-se com cautela das implicações políticas que sugere. Acaba por perder-se na contemplação.