Siga-nos

Perfil

Expresso

Férias pagas

23 de Julho Albufeira-Albufeira

Não há segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão. (Trocadilho de António Guterres) Olá Cândida Como hoje é domingo, resolvemos não pegar no carro - uma aceitável carrinha Ford Focus a diesel alugada na Budget, que veio parar às nossas mãos praticamente nova, com apenas 230 km. Passamos o santo dia no hotel, dando-lhe tempo e espaço para ele nos conquistar e apagar a primeira impressão, não completamente favorável, que nos deixou a resmungar que o cinco estrelas dos espanhóis (o Gran Hotel Elba Estepona & Thalasso Spa) é melhor que o nosso (o Grande Real Santa Eulália Resort & Hotel Spa).

Esta almofada de 24 horas, antes de inventariar por escrito os prós e os contras, foi essencial para evitar que o azedume inicial turvasse a nossa avaliação - e para permitir balançar as queixas com as respectivas atenuantes.

Posto isto, aí vai o nosso rol de dez queixas (e respectivas atenuantes) dos serviços do Grande Real Santa Eulália Resort & Hotel Spa, que para facilitar a vida a nós, a ti e a um eventual e incauto leitor que tropece neste postal, passamos a designar pelas iniciais GRSER&HS.

Queixa 1: Recepção entupida
Quando ontem chegamos para fazer o «check in» havia quase tanta gente à volta do balcão da recepção como na estação de metro do Marquês na hora de ponta.
Atenuante: Chegamos ao GRSER&HS por volta das 12h30, a hora de ponta de «check out»

Queixa 2: Mandaram-nos dar uma volta
Quando acabamos de fazer o «check in» os quartos ainda não estavam prontos, pelo que nos mandaram dar uma volta.
Atenuante: A hora recomendada para o «check in» é as 14h00 e nós precipitamo-nos, fomos um bocado bimbos e já tínhamos toda a papelada tratada por volta das 13h00

Queixa 3: Descriminação
O Nuno Botelho tinha no quarto dele um belo presente de boas vindas, composto por um pequeno pacote de doces regionais algarvios e duas garrafinhas de licor - uma das quais desapareceu misteriosamente durante a nossa curta mas intensa estadia. No meu quarto não havia presente de boas vindas.
Atenuante: Não há!

Queixa 4: Piscinas pequenas
As piscinas circulares (duas para adultos e uma para crianças) situadas na falésia são bonitas mas a sua dimensão é claramente desajustada à marabunta de gente que as cerca  e lota as «deck chairs».
Atenuante: Na zona das vivendas há mais duas piscinas, também circulares, que mesmo ao fim de semana são muito pouco povoadas.

Queixa 5:  Espumante barato
O espumante do «bufett» do pequeno almoço é o Lancers (cotado a 3.99 euros a garrafa no supermercado Apolónia, de Almancil). Um hotel português de cinco estrelas como o GRSAR&HS não é obrigado a disponibilizar champanhe francês mas ficava-lhe bem que optasse por um espumante nacional topo de gama, como o Vértice ou o Murganheira.
Atenuante: Um hóspede que se disponha a emborcar espumante ao pequeno almoço não merece melhor do que Lancers.

Queixa 6: Esferográfica avariada
A esferográfica colocada junto ao bloco de notas, na mesinha de cabeceira do meu quarto, tinha a mola avariada.
Atenuante: Até já parece que estou a querer arranjar pretextos para criticar o GRSAR&HS. Para que raio me interessa o estado de saúde da esferográfica com o emblema do hotel se trouxe comigo três canetas Muji – uma preta, uma azul e uma vermelha?

Queixa 7: Televisão deficiente
A recepção da TVI é má, o que incomodou quando vi o FC Porto-Groningen. O menu de canais é pobre, não incluindo os Fox e o AXN, o que me impediu de seguir as minhas séries preferidas – Anatomia de Grey, Dr. House e CSI, entre outras.
Atenuante: Uma pessoa se hospeda num hotel algarvio de cinco estrelas, que custa os olhos da cara, para se fechar no quarto a ver televisão – e muito menos a TVI. Os canais do grupo (Sic e Sic Notícias) estavam a dar com a imagem muito nítida!

Queixa 8: Vista para o parque de estacionamento
A varanda dos nossos quartos tinha uma pouco estimulante vista sobre o parque de estacionamento, bem pior que a do três estrelas Topázio onde estivemos antes.
Atenuante: É uma queixa de mitras. Sabíamos perfeitamente que para desfrutar de vista de mar e não «de serra» (a alcunha simpática usada pelo pessoal do GRSAR&HS para designar a vista sobre o parque de estacionamento) tínhamos de pagar uns cem euros suplementares, ou seja dinheiro que chegava para alugar toldos para toda a família na praia da Santa Eulália. Mais. Para quem gosta de carros, a vista do parque de estacionamento é boa, pois permite apreciar ao vivo as últimas novidades dos catálogos BMW e Mercedes.

Queixa 9: Gente a mais
O GRSAR&HS não é exactamente um pequeno hotel de charme. É um cinco estrelas rodeado por um aldeamento de grande dimensão, hiper-povoado. Há gente a mais, quase por todo o lado.
Atenuante: Primeiro, estamos a falar de um fim-de-semana de finais de Julho; se o GRSAR&HS não estava cheio agora quando é que conseguiria estar!? Segundo, devíamos estar satisfeitos porque a enchente é um bom sintoma. Revela-nos que há muita gente com dinheiro e que não se importa de o gastar, o que é bom para a economia, faz crescer o PIB e nós andamos muito necessitados disso, tanto mais que eu antes de morrer gostaria de ter a alegria de voltar a ver Portugal a convergir com os restantes países da UE.

Queixa 10: Ar condicionado «non stop»
Não consegui desligar o ar condicionado do quarto o que me deixou com o nariz a pingar e a precisar de andar em permanência acompanhado de um lenço de assoar .
Atenuante: Deve ter sido nabice minha não o conseguir desligar. O Nuno estudou o aparelho com calma durante algum tempo e parece que as suas várias tentativas para o desligar acabaram por ser coroadas de êxito.

Estes oito dias que levo em quatro hotéis diferentes sugerem-me uma última reflexão. Espero não te estar a maçar, Cândida, mas a verdade é que acabo de concluir que os hotéis são como as pessoas. Quanto mais nomes se tem melhor, mais longe se vai na vida.

Os mais espertos dos meus conterrâneos já perceberam isso. Não é por acaso que o Belmiro de Azevedo e o Américo Amorim passaram a incluir um terceiro nome nos seus documentos oficiais: Belmiro Mendes de Azevedo e Américo Ferreira do Amorim. Isso nivela-los por cima com a gente mais distinta do seu ramo de actividade, como o João Pereira Coutinho e o Miguel Pais do Amaral.

Com os hotéis passa-se exactamente a mesma coisa. Os dois três estrelas em que estivemos eram plebeus, respondiam por apenas um nome: Flamingo (Torremolinos) e  Topázio (Areias de S. João). Já os cinco estrelas foram baptizados com nomes complexos, extensos e aristocráticos, em clara sintonia com a quantidade mais de algarismos das contas que apresentam aos clientes.

Recapitulemos:
Gran Hotel Elba Estepona & Thalasso Spa
Grande Real Santa Eulália Resort & Hotel Spa
Repara que além de terem nomes grandes, estes hotéis não resistem a começar por nos dizer que são grandes, para o caso de nós não o percebermos pelos nossos próprios meios. Curioso também o tique do recurso ao «e comercial» (&). Já quanto ao spa, trata-se de uma coisa diferente. Spa é um toque suplementar de classe, equivalente ao «von» ou ao nosso «de» nos nomes.  Ruud von Nistelroy e Marcelo Rebelo de Sousa soam muito mais distinto de que Ruud Nistelroy ou Marcelo Rebelo Sousa.

Esta reflexão mergulhou-me num estado de alguma tristeza. Eu sou o Jorge Fiel, a pessoa que ocupava menos espaço na ficha técnica do Expresso (agora até nem ocupo espaço nenhum), pelo que tenho de me começar a habituar à ideia que não vou a lado nenhum nesta vida.

Um beijo

P.S. 1 - Passei a tarde na piscina, a devorar de um trago só o «Não Contes a Ninguém» do Harlan Coben, que é ainda melhor que o «Apenas um Olhar». Amanhã vou começar o «Desaparecido para Sempre».

P.S. 2 - O GRSER&HS teve uma grande malha. Estava na borda da piscina a refrescar-me quando passou um empregado com uma bandeja a oferecer ao pessoal umas espectaculares espetadinhas de pedacinhos de melão e ananás.