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Expresso

Férias pagas

19 de Julho Torremolinos-Málaga-Torremolinos

Olá Cândida O Hotel Flamingo de Torremolinos, o três estrelas em que estamos hospedados, fica muito longe da praia mas está cada vez mais perto do nosso coração.

O café expresso, que ao pequeno-almoço tiramos de uma máquina arcaica, é tão cremoso, quente e saboroso que nos faz esquecer a ausência de sabonete na casa de banho - substituído por um dispensador de «jábon de liquido de manos» convenientemente agarrado à parede.

E o fantástico ambiente que se vive ao fim da tarde, com os hóspedes instalados em mobiliário de plástico, à volta de uma piscina cheia de cloro e que é uma ilha no meio de prédios altos, compensa amplamente a banda sonora de descarga e posterior reabastecimento de depósito dos autoclismos que ouvimos regularmente quando estamos no quarto.

O Flamingo surpreende logo à chegada com o letreiro promissor (mas ligeiramente enganador) que exibe na fachada: Três estrelas/Hotel Flamingo/Parking. O parque de estacionamento não é no hotel, nem privativo, nem gratuito. Fica do outro lado da avenida Isabel Manoja, na cave de um centro comercial decadente, e custa-nos sete euros/dia - os hóspedes do Flamingo beneficiam de um desconto de 50% sobre o preço de tabela.

Depois, um toque de classe na decoração da parede atrás do estreito balcão da recepção. Três relógios redondos dão-nos a hora de Nova Iorque, Madrid e Tóquio, uma informação relevante no caso (improvável) de algum dos hóspedes, que engarrafam o trânsito nos três elevadores que servem os onze andares do hotel, estar interessado em saber se o Nikkei fechou em linha com o Ibex e o Dow Jones. O Flamingo e os seus residentes provisórios são uma mina repleta de pedacinhos de ouro, de matéria prima suculenta que está aí, à frente de toda a gente, a pedir para ser explorada por mão e olhar talentosos que lhes assegurem um lugar naquele punhado de hotéis míticos, como o novaiorquino Chelsea Hotel.

Por falar em elevadores. O tempo melhorou, o Sol voltou e nós fomos à praia, ao final da manhã. Para vencer o desnível entre a parte alta da cidade e o mar, há um elevador que nos poupa o fôlego contra o pagamento de 50 cêntimos por viagem.

A praia da Rocha parece pequena ao pé da de Torremolinos. Para facilitar a vida dos banhistas que querem combinar encontrar-se na praia com amigos, as diferentes zonas da mesma praia têm nomes diferentes. Nós estivemos na Playa de la Caracola, logo ali à saída do elevador e junto à torre de um nadador salvador pouco protocolar, com «rastas» na cabeça e uma T-Shirt cor de laranja - no Baywatch e nas nossas praias eles usam o vermelho, não é?

Na praia estava quase tanta gente como nas ruas de Lisboa no 1.º de Maio de 1974, mas como estava de ananases, a banhoca soube bem.

Ainda meios molhados, arrancamos para Málaga (fica a 12 quilómetros) onde passamos uma bela tarde, começada com uma descoberta espectacular, o El Pimpi, uma «bodega» espaçosa, bonita, fresca e sossegada (Calle Granada 68, perto do Museu Picasso e da catedral), onde realizamos a primeira prestação do almoço.

«A mim me duele el corazon cuando me piden eso…», respondeu o empregado, fazendo uma careta, quando lhe encomendamos um prato de aperitivos frios, com «calabacin, tomate natural e anchoas» (€4) para acompanhar «una copa de blanco de la casa e una caña». Não insistimos, por várias razões e mais uma (sendo que esta é que ainda não sei ao certo o que é «calabacin») e aceitamos a sugestão alternativa que eles nos fez: meia-dose de tostas Pimpi, Contra o pagamento de €5,5 cada um de nós comeu três diferentes e saborosas tostas - «salmorejo com jámon, crema de aceituna negra y anchoas, bacalao ahumado y naranja».

O El Pimpi devia ser classificado como monumento nacional pelo IPPAR espanhol. Estou mesmo em crer que quem vier a Málaga e não for ao «El Pimpi» - apesar de conhecer a sua existência - devia ser imediatamente condenado a sete anos de mau sexo.

Fizemos a digestão das tostas no Museu Picasso (Calle San Agustin, 8). O acervo, constituído por cerca de 200 obras do pintor - telas, desenhos, esculturas e cerâmicas -, emprestadas ou doadas pela sua nora Christine Ruiz-Picasso, é menos exuberante do que o do Museu Picasso do Marais (Paris), mas tem a vantagem de representar as mais importantes etapas do artista malaguenho. O retrato do seu filho Paulo com um gorro branco (1923) foi a pintura que mais me comoveu.

Junto à catedral, que fica a dois passos do museu, constatamos o bom humor e sentido prático dos malaguenhos ao ler a entrada «Catedral de Málaga» do guia Anaya. O humor manifesta-se na alcunha que deram - La Manquita - a uma igreja que tem uma torre completa e outra por acabar. O sentido prático revelou-se no final do século XIX, quando as autoridades municipais colocaram a população local perante um dilema, ou se abria a Calle Larios (que une a Plaza de la Constituicion ao porto e é a mais emblemática da cidade) ou se completava a torre inacabada da catedral…

A segunda prestação do almoço foi tomada na Plaza de la Merced numa esplanada junto à casa de Picasso. O sítio é digno de registo. O que comemos não.

Regressamos a Torremolinos, onde após um fim de tarde na piscina do hotel, a devorar de um fôlego as primeiras 128 páginas de «Apenas um Olhar» de Harlan Coben (o escritor de «thrillers» policiais que está na moda), partimos para um jantar, que, tal como o almoço, foi em dois andamentos e nos reconciliou com Torremolinos e as suas vibrações.

Começamos, às dez da noite, na Marisqueira La Chacha, na Avenida Palma de Mallorca, um pouco antes do cruzamento com a Calle San Miguel. O formato é engraçado e original. Há dois balcões. Um maior, à frente, em que estão expostos mariscos de todas a espécie, com belíssimo aspecto, em que se encomenda e paga o que se quer comer - que é grelhado numa «plancha», à vista de toda a gente. No balcão mais pequeno, lá atrás, são vendidas as bebidas. Não há cadeiras, apenas algumas mesas. E a sala está cheia até à rua. Não é barato (dois carabineiros custaram €21), mas é bom - e quem me conhece sabe que o marisco não me apaixona.

Depois, descemos a Calle San Miguel, que fervilha de gente e de lojas que invadem a rua com as suas mercadorias, até à Calle Cuesta del Tajo, uma zona que preserva o ambiente que fez de Torremolinos o motor da explosão turística da Costa del Sol. Na Bodegas Quitapenas (Cuesta del Tajo, 3), comemos umas magníficas tortilhas de bacalhau, polvo frito e gambas pill pill (o Rui ficou freguês do molho!), regadas a cerveja. Foi de mais e demais. Soube-nos pela vida.

Beijos e até amanhã

 

P. S. 1. Em Málaga aprofundamos os nossos conhecimentos sobre as inovações andaluzes no particular dos semáforos. Primeiro, há semáforos que também informam os peões sobre quantos segundos faltam para acabar o vermelho. Segundo, a temporização de cada semáforo depende obviamente (para quem programa os semáforos da avenida da Liberdade isso não será tão óbvio assim…) da largura da rua.

P. S. 2. Há problemas de língua que um dicionário não resolve. Uma vez no Recife sofri muito para comprar pensos rápidos. «Ah, já tou percebêendo… O qui cê procurá é bandeidi». No Brasil o produto é conhecido pelo nome da marca (Band Aid), tal como nós chamamos Gillette a todas as lâminas de barbear - mesmo às da Wilkinson. Aqui em Espanha, sabes como é que chamam aos pensos rápidos? Tiritas! Mais nada.