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Expresso

Férias pagas

18 de Julho Estepona-Ronda-Torremolinos

Olá Cândida Por evidente falta de sensibilidade, nunca gostei muito de poesia. O espírito de poupança judaico-cristão que tenho tatuado em mim impede-me de compreender porque é que os poetas desperdiçam tanto papel e não usam as linhas todas até ao fim. Mas há excepções. Aprecio particularmente um poema em que Álvaro Feijó nos fala do desencanto - do desagradável momento em que se quebra a paixão. Ele colocara a mulher por que estava apaixonado num altar tão elevado que, quando a surpreendeu a satisfazer prosaicamente as suas necessidades fisiológicas de carácter sólido não aguentou o choque de constatar que ela era humana e a paixão desabou ali, naquele momento sórdido e terreno.

Hoje, tivemos a mesma sensação de desencanto com a Costa do Sol, que acordou tão feia, cinzenta e chuvosa, como uma manhã do Porto no final do Outono. Uma merda! Os planos desenhados na véspera começaram a ir pela água abaixo. Desisti de sepultar o pequeno-almoço com um prato de peixes fumados empurrado por uma «flute» de Codorniu. E reduzimos ao mínimo a exploração das praias da região de Estepona.

Fomos à Playa del Cristo - a melhor de Estepona, no ranking de Maria, recepcionista do Gran Hotel Elba -, onde dei um mergulho à chuva que apenas confirmou o desencanto. A areia e a água do mar estavam tão cinzentas e turvas como o céu. Pequenos sinais confirmavam o perfil de um dia mau. O Rui foi mordido na orelha por uma abelha suicida e eu cortei-me a fazer a barba num sinal - o pior sítio da cara para nos cortarmos pois demora muito até parar de sangrar.

Ao final da manhã, trocámos o litoral pelo interior. Destino: Ronda, a cidade onde foi inventada a tourada. Se Rilke e Orson Welles se apaixonaram por Ronda, não havia razão para nós não gostarmos. O raciocínio revelou-se correcto. Se Paris vale bem uma missa, Ronda vale muito bem os 49 quilómetros de estrada de montanha, sinuosa, que fizemos para chegar lá.

Logo à chegada, uma olhadela à Ponte Nueva, que une as duas partes da cidade separadas por uma fantástica garganta (mete medo olhar para baixo), chegou para percebermos que Ronda não seria mais um desencanto. Es preciosa! (palavra a ser lida com a entoação espanhola). Apesar da chuva, almoçámos ao ar livre - tapas variadas, una copa de rosado e una caña - no La Farola (Plaza Cármen Abela 10) pois os guarda sóis, quando são bons, também são úteis como guarda chuvas.

Mas Ronda foi apenas um parêntesis de felicidade no dia mau que regressou ao fim do dia, com os infernais engarrafamentos na A7 que sofremos na viagem até Torremolinos, a etapa seguinte do nosso périplo.

É a segunda vez que estou em Torremolinos. A primeira foi há 34 anos quando estava a fazer o Inter Rail e apanhei tanta chuva a 15 de Agosto de 1972 em Copenhague, que decidi meter-me no comboio e ir apanhar sol para o sul de Espanha - só parei em Torremolinos, o primeiro nome de praia que me veio à cabeça quando pensei no assunto.

Em 1972, Torremolinos saudou a minha chegada com um sol quente. Desta vez recebeu-me com chuva. O Hotel Flamingo, três estrelas (com parking do outro lado da rua), onde estamos hospedados, deveria ser excelente da primeira vez que eu cá estive. O quarto, no nono piso, tem uma varanda pequena com vista para a cidade. Olhando lá para fora não me sinto em férias num hotel da Costa del Sol, mas sim num dia de trabalho e a residir em Santo António de Cavaleiros. Vá lá que o chuveiro não tem segredos para mim – tem apenas as duas torneiras, a vermelha para a água quente, a azul para a fria, mais nada.

Não poupemos nas palavras. À primeira vista, Torremolinos tem muito mau aspecto. Gente feia, muita confusão, prédios a mais, engarrafamentos, arrumadores (mais um produto português de exportação?), «junkies» a chutarem para a veia, paelhas de plástico deficientemente aquecidas no micro-ondas, travestis mal conseguidos. É horrível.

A única coisa interessante que descobrimos até agora foi os semáforos. Quando está verde para os peões, a lâmpada do vermelho é usada para uma contagem decrescente (começa nos 29) que nos avisa de quantos segundos dispomos para atravessar a rua em segurança.

Acabei de ler o «Brick Lane» (Sete Mares e Treze Rios, na tradução portuguesa editada pela Dom Quixote), da Mónica Ali. Recomendo-te vivamente a sua leitura, que deve ser antecedida de uma visita ao East End, a zona de Londres onde o romance se passa e a que a mexer mais neste momento.

Num determinado passo do livro (pág. 334), o dr Azad discorre sobre o amor. «O que eu não sabia - eu era um jovem rapaz - é que há dois tipos de amor. O tipo que começa por ser grande e se vai gastando lentamente, que parece que nunca se vai gastar e depois um dia se acaba. E o tipo que primeiro não se nota, mas que vai juntando um bocadinho a si mesmo cada dia, como uma ostra faz uma pérola, grão a grão, uma jóia feita de areia».

Depois do ódio à primeira vista, será que conseguiremos ganhar por Torremolinos o segundo tipo de amor de que nos fala o bom do dr Azad?

Amanhã volto a dar notícias. Um beijo para ti e um grande abraço para o comendador Marques de Correia, que espero já tenha conseguido meter o bisneto na ordem.