Siga-nos

Perfil

Expresso

Férias pagas

17 de Julho Estepona-Gibraltar-Estepona

Olá Cândida Ir a Gibraltar e não ver os macacos é pior que ir a Roma e não ver o Papa. (Provérbio ibérico*) Como não queríamos passar pela vergonha de, no regresso a casa, quando estivéssemos a contar que fomos a Gibraltar, sermos interrompidos por um vivaço que nos perguntasse pelos macacos e nós tivéssemos de baixar os olhos, reconhecer que somos parvos e responder «Os macacos? Só os vimos em bonecos e fotografias…», perdemos um pouco a cabeça e investimos 27 euros na compra de dois bilhetes de ida e volta no teleférico até ao topo do Rochedo, onde reside a colónia local de cem macacos.

Antes de tudo, um conselho: Se vieres a Gibraltar na época alta não faças como nós que, para entrar de carro, esperamos quase uma hora numa fila, à chegada, e mais uns bons 20 minutos, à saída. A melhor opção é estacionar em La Línea e atravessar a pé a fronteira. Mal se entra em território britânico há uma paragem de autocarro, um «double decker» vermelho dos antigos, que faz uma ligação ao centro da cidade - a Maine Street.

No Verão, Gibraltar é invadida pelos turistas que veraneiam na Costa del Sol. Os bifes, que são às camionetas, devem achar uma graça monumental a fazer uma visita de inspecção à sua colónia no Continente europeu. As espanholas vão às compras, ao Marks & Spencer ou à Mothercare, enquanto os maridos destrocam as notas nas lojas que vendem bebidas e tabaco «duty free». E depois há gente como nós, que vai lá para ver os macacos.

Os engarrafamentos à entrada e saída são justificados por este movimento, aliado a um simulacro de fronteira. Temos de passar a dez à hora, a olhar nos olhos dos guardas fronteiriços espanhóis e ingleses, que tanto nos podem mandar parar - e pedir os documentos -, como não. E à saída, de vez em quando, os azeitonas (alusão à cor da farda.) da «guardia» revistam um carro para ver se o ocupante está a fazer contrabando de tabaco e bebidas.

A nós mandaram-nos parar sempre e todos. Não sei se por causa da matrícula, do nosso mau aspecto natural, ou se por eu estar a usar uma t-shirt iraniana que comprei em Frankfurt quando lá fui ver o Portugal-Irão.

Voltando aos macacos. Atravessaram o Estreito com os exércitos árabes, por volta de 711 e por cá ficaram, geração após geração, resistindo aos reis católicos, aos ingleses, aos cercos e à comida que os turistas lhes dão.

São uma espécie rara (apenas existente aqui, na Argélia e Marrocos), de nome técnico Macaca Sylvanus, que se caracteriza (espero que nesta altura já seja claro para ti que nos documentamos a sério sobre esta matéria) por não terem o rabo coberto por uma cauda.

Ao todo são cem, recenseados pelo Governo local, que os trata com mil cuidados. Cada um tem nome próprio e o boletim de vacinas em dia. É mantido um registo detalhado dos nascimentos e óbitos desta colónia, que vive a uns 400 metros de altitude, algures entre a estação de montanha do teleférico e um local adequadamente intitulado Apes'Den. Constituírem uma poderosa atracção turística é apenas uma das explicações para o facto de os macacos serem tratados como bebés pelo Governo. De acordo com uma lenda local, Gibraltar deixará de ser britânica no dia em que morrer o último dos seus macacos sem cauda…

A libra esterlina é a moeda oficial e os gibraltinos levam isso muito a sério. Todos os vendedores de magnetos de frigorífico, canecas com a bandeira inglesa e uma fotografia do Rochedo (Rock é a alcunha de Gibraltar), t-shirts manhosas, volumes de Marlboro, «pints» de Bass e cheeseburgers, são cambistas - além de comerciantes.

Como se sabe, a cotação oficial é uma libra igual a 1,5 euros. Mas eles praticam ao balcão taxas de câmbio que lhes são muito mais favoráveis, da ordem 1 libra=1,8 euros. No teleférico, cujo preço em libras já era uma roubalheira (8 libras por pessoa o «round trip»), a conversão ao câmbio oficial daria 12 euros - ora eles levaram-nos 13,5 euros. Valha-nos que a vista lá de cima, sobre o resto do Rochedo e a baía da Algeciras (o melhor porto de Espanha) é de cortar a respiração!

Há claramente um ressentimento dos gibraltinos em relação aos espanhóis, o que até se compreende. Para não ir mais longe, entre 1969 e 1985 os espanhóis fecharam-lhes a fronteira. Durante esses 16 anos, os abastecimentos chegavam-lhes apenas pelo mar ou pelo ar. Devem ter sido tempos difíceis!

Apesar das taxas de câmbio, do risco de pegarmos num macaco e ficarmos com pulgas, e da maçada das formalidades fronteiriças, Gibraltar (30 mil habitantes, 100 macacos, 16 quilómetros quadrados), vale bem uma visita. Logo à entrada, é fantástico olharmos para o lado e constatarmos que estamos a passar no meio da pista do aeroporto. O outro lado desta moeda é que a estrada de acesso ao Rochedo tem de ser cortada sempre que um avião vai aterrar ou levantar voo.

Gibraltar, que fica a 40 quilómetros do nosso hotel em Estepona, ocupou-nos o dia. Saímos do hotel logo após o pequeno-almoço, e só voltamos ao fim da tarde, por volta das sete, ainda a tempo de uma bela banhoca na piscina - que fecha às 20h00.
O pequeno almoço no Gran Elba é farto e tem três grandes atracções. Um, o largo espectro horário em que é servido (7h30-11h00). Dois, a ampla e colorida variedade de sumos de fruta naturais: os tradicionais laranja, ananás e tomate, mas também maçã e cenoura. Três, tem figos e eu sou louco por figos - posso mesmo dizer que é o meu fruto preferido.

Numa das mesas do buffett, está um balde de gelo com algumas garrafas (uma das quais aberta) de cava - Codorniu, Reserva, bruto. Estou a ganhar coragem para amanhã sepultar o pequeno almoço com flute a acompanhar um prato de peixes fumados (espadarte, salmão e bacalhau). Espumante ao pequeno almoço?! Bem, às vezes é preciso ser-se extravagante! E amanhã é dia de «downgrade». Vamos trocar este paraíso de cinco estrelas, na calma Estepona, por um três estrelas, na agitada Torremolinos.

Hoje à noite, depois da piscina, fomos até ao centro de Estepona, que fica a nove quilómetros do hotel. Não foi preciso andar muito para compreender por que é que o Guia DK Eywitness da Costa del Sol a classifica como a melhor das dez cidades da região, à frente de Marbella e Mijas - Torremolinos está em 6º e Málaga em 7º.

Estepona é uma cidade calma, segura, com um «casco» velho impecável, casas bonitas, alma própria, e um enorme passeio marítimo junto à praia - que faz lembrar a Póvoa de Varzim, só que sem vento e com uma temperatura agradável. É movimentada, mas não ao ponto de ser impossível arranjar uma mesa na esplanada onde nos queremos sentar. É o tipo de terra em que sentimos que se pode passear à noite por todo o lado com a carteira no bolso de trás das calças. 

Por volta das dez da noite, sentamo-nos da esplanada da Casa Pablo, na espectacular Plaza Las Flores (o local público mais maravilhoso e acolhedor em que até agora estivemos!), para bebermos umas cervejas e picarmos uns calamares. No espaço de três minutos vieram ter connosco três diferentes e simpáticas empregadas, disponíveis para tomar conta do nosso pedido. E cinco minutos depois já estávamos a espremer o limão em cima dos calamares. Isto é que é serviço! Aos 13 euros que custaram as quatro «cañas» e os calamares, acrescentamos um de gorjeta.

Antes de regressar ao quarto, para escrever o postal, lavar os dentes, ver televisão e dormir (assim, por esta ordem), ainda fizemos uma última paragem no puerto de Estepona, um local com alguma movida em torno da marina onde se acoitam barcos de grandes mastros. Aboletamo-nos no Reinaldo, uma esplanada de esquina que promete um dia feliz (melhor que «happy hour» é «happy day», percebes o trocadilho?) na próxima 5ª feira à clientela (data em que comemora 25 anos). E para acabar, uma cerveja empurrada por uns pequenos chouriços picantes.

Beijos e até amanhã, dia em que vamos experimentar a praia del Cristo, que nos foi recomendada pela Maria, da recepção do hotel.

*Este provérbio foi inventado por nós hoje à noite, após o consumo de duas «cañas» de San Miguel bem fresquinhas