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Expresso

Férias pagas

16 de Julho Porto-Sevilha-Estepona

Rui Duarte Silva e Jorge Fiel estão a dar um novo sentido à expressão «férias pagas». Iniciaram ontem um périplo de nove dias pelo Sul de Espanha e Portugal, com o objectivo de apurar de que lado do Guadiana é melhor e mais barato fazer férias de praia -  pelo que se vão hospedar em dois hotéis bons (cinco estrelas) e outros dois menos bons. O resultado final deste inquérito será publicado na revista ÚNICA, em Agosto, ou seja, já só deverá influenciar a decisão das férias dos nossos leitores em 2007. Agradecidos a Cândida Pinto, a directora adjunta responsável pela ÚNICA e que esteve entre as pessoas que os enviaram para esta aventura, Rui e Jorge escrevem-lhe diariamente postais ilustrados para a pôr ao corrente do que se passa.

Olá Cândida,

Escrevo-te da varanda do quarto 415 do Gran Hotel Elba Estepona. Só tenho duas coisas à frente - o teclado e o Mediterrâneo. A banda sonora é o mar a enrolar numa areia que deve estar limpíssima mas tem um ar bem mais sujo do que a das nossas praias.

Estamos cansados. Fizemos mil quilómetros - a falar de kite surf (o Rui é uma aficcionado) e a ouvir a RFM, Stones, Red Hot e Massive Attack - para experimentar duas vezes a noção de oásis.

A primeira foi a meio da tarde, no forno sevilhano, quando, após umas poucas centenas de metros feitos a pé e ao sol, nos sentámos à sombra, na ampla sala climatizada do Robles da calle Placentines, e encomendamos logo duas «cañas» (€1,54 cada, que raio de preço!) enquanto estudávamos a lista. Decidimo-nos pela bandeja serrana, um prato que atendendo ao preço (€20,25) se revelou sóbrio em quantidade mas excelente em qualidade. O «bellota», representado por quatro lâminas praticamente transparentes, podia não ser o melhor do Mundo, como estava anunciado na lista, mas andava lá por perto. O manchego era realmente bom e quanto aos enchidos estou certo que eles satisfariam o exigente paladar do Quitério.

Quatro horas depois, voltamos a viver a sensação de oásis quando, após dez horas de viagem, desaguamos em Estepona e entramos nos nossos quartos, que têm a dimensão e configuração adequadas para se jogar às escondidas. Confirmei o que já desconfiava. A qualidade de um hotel pode medir-se pelo tempo que eu demoro a conseguir tirar partido de todas as valências do chuveiro e da banheira. Nestas duas noites, acho que não vou conseguir tornar-me familiar dos seis botões do chuveiro. Por isso, nem sequer vou tentar iniciar-me nos mistérios da banheira. Esquecendo a casa de banho, que tem quatro divisões e é maior que a sala do meu apartamento em Lisboa, o top «three» do quarto é ocupado, ex-aequo, pela varanda (de que já te falei), pela ventoinha do tecto (com comando à distância, três velocidades, e que também faz de candeeiro, um luxo!) e a cama, que tem um colchão duro, como eu gosto e que me dá à escolha estender-me de lado ou ao comprido.

Do meu ponto de vista, os hotéis bons só têm o inconveniente de terem empregados obstinados que a todo o custo se querem apoderar das nossas malas. Embirro com isso. Prefiro ser eu a transportá-las, mas nem sempre consigo. Hoje, falhei. Resisti à primeira, à chegada, mas enquanto estava a acabar o «check in» apanharam-me desprevenido e ficaram-me com a Samsonite. Não gosto, porque tenho de estar à espera que ma entreguem e depois fico meio enrascado sem saber o que fazer enquanto o «boy» se passeia pelo quarto a explicar como funcionam as luzes e a recomendar-me para não ligar o ar condicionado com a porta da varanda aberta. E nunca sei que gorjeta hei-de dar. Hoje dei dois euros. Um pareceu-me de menos - é o que se dá para enxotar um arrumador. Uma nota parecia-me demais. O que é que achas? Dois euros será o adequado?

O hotel fica a uns dois quilómetros do porto de Estepona, onde está a animação, os restaurantes e as lojas. Vamos lá amanhã. Hoje, como estamos cansados, optamos por jantar no hotel, que oferece três restaurantes temáticos, todos eles com uma esplanada virada para o mar.

Jantamos depois de um reconhecimento da piscina - onde planeio passar o fim da tarde a ler as últimas 71 páginas do «Brick Lane», da Mónica Ali -, e de um passeio pelas imediações, com objectivo de descobrir um trajecto para o «jogging» matinal (o resultado não foi conclusivo). Escolhemos o restaurante do hotel que servia comida de fusão asiática. Partilhamos uma entrada mista de sushi e sashimi (12 unidades de atum, polvo, camarão e salmão) e um caril verde de frango. Muitos líquidos. Uma garrafa de litro e meio de água mineral com gás, duas cervejas, um copo de vinho tinto e uma sobremesa. (O jantar ficou por €69, assinei a conta e não deixei gorjeta). Tudo consumido numa noite calma, cálida (24 graus) e praticamente sem vento. O sussurro do mar era apenas cortado pelas birras de crianças da classe alta inglesa, que são tão incómodas como as das crianças portuguesas da classe média a que já estou habituado.

Em carteira para amanhã temos vários projectos, além dos incontornáveis praia, piscina e noite no porto de Estepona. Em cima da mesa está uma excursão a Gibraltar ou uma visita ao Museu Picasso em Málaga.