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Expresso

O olhar do Expresso em Pequim

Tropeçar na arte

A mais antiga das artes chineses pode ser encontrada em Pequim sem sequer a procurarmos. Casualmente, ao atravessar a mais famosa avenida comercial da cidade, o encontro com esse saber milenar chamado caligrafia acontece.

James, o nome estrangeiro que escolheu para si depois de se apaixonar pelos filmes da saga do agente secreto britânico James Bond, tem 24 anos e estuda calegrafia há seis na Universidade de Pequim. No seu curso, não há mais do que 400 alunos, quase ninguém se pensarmos no número de estudantes que frequenta a mais prestigiada universidade estatal. Está no centro da cidade, na avenida Wangfujing, uma zona completamente ocidentalizada de Pequim, e caminha com alguma calma para admirar o movimento. Mas o seu percurso está traçado. Tem que ir abrir as portas da exposição de Caligrafia que está associada ao Festival de Arte promovido pela universidade. É o último dos dez dias da mostra das obras de arte dos alunos de Pequim e pode ser que ainda consigam vender algumas peças para fazer dinheiro para continuarem a estudar.

Numa conversa de ocasião, explica que a exposição é imperdível. Meia hora é suficiente para olhar a perfeição, carregada de sabedoria e talento, com que se pode escrever em chinês usando técnicas milenares e apresentando, ao mesmo tempo, novos suportes para trabalhar essa arte.

O Governo chinês emprestou à universidade um espaço para que a exposição pudesse decorrer num local movimentado, mas não há qualquer indicação na rua que diga o que está a acontecer num velho prédio, com as paredes descascadas no interior, escadas e salas imundas, inundadas por um cheiro insuportável que percorre todo o espaço vindo da única casa-de-banho do edifício. Um estreito corredor sem qualquer tipo de iluminação, está coberto por suaves folhas de uma tela "preciosa", onde se inscrevem os mais belos caracteres do alfabeto chinês.

James, mostra, orgulhoso, o seu trabalho preferido: sob um fundo vermelho forte, desenhou a ouro um dos poucos caracteres chineses que tem sem variantes. Significa boa sorte. Pintado à mão, o quadro, como lhe chama, apresenta o caracter mais mais comum em tamanho grande, e, na vertical, seguem-lhe-se os outros 99 caracteres que podem ser utilizados para escrever a mesma coisa.

Numa pequena sala, com entrada por esse estreio e pequeno corredor, estão expostos mais alguns trabalhos seus. Quadros mais pequenos, onde desenhou apenas um caracter. A sensibilidade levou-o a escolher "os mais belos" significados que um caracter pode ter: amor, beijo, alegria, vida longa, sucesso... Mas é para as peças mais recentes que sorri quando as mostra. São quadrados de metal pintados com laca, uma novidade absoluta na arte de desenhar caligrafia, que apresentam, ao lado do caracter eleito pelo artista, um desenho artístico da sua autoria.

Ao ver a máquina fotográfica, James fica em pânico. É estritamente proíbido fotografar. O Governo não autoriza. Com todo o cuidado e depois de um diálogo longo, James fecha os olhos, as mãos tremem-lhe, enquanto a câmara dispara três vezes. Já está.

"Arma" escondida, este 007 chinês, volta a sorrir e multiplica-se em explicações. E enquanto observa atentamente a rapidez com que escrevo aquilo que diz, ri. "Adorava conseguir escrever tão depressa! Deve ser muito difícil e complicado!" É a minha vez de sorrir.

Existem cerca de 80 mil caracteres chineses, contando com todas as variantes, mas os dicionários comuns listam "apenas" 40 mil. A maioria da população não os consegue identificar. Para ser considerado alfabetizado, um chinês tem de conhecer dois mil caracteres, o mínimo para conseguir ler por alto um jornal. Se souber três mil caracteres já poderá ler as notícias por inteiro. A queixa é grande entre a população em relação à escrita. Toda a gente reclama da dificultade na aprendizagem do alfabeto e do tempo que se leva a aprendê-lo. E quase ninguém sabe precisar o número de caracteres existentes. A maioria fala de dez mil. Só mesmo um licenciado é capaz de ler um texto técnico, por exemplo.

O alfabeto chinês nasceu há cerca de 4500 anos e, diz a lenda, foi criado a partir de desenhos por um homem chamado Cang-Jié. Com o passar do tempo, porém, os caracteres foram-se simplificando. A Revolução Chinesa veio ajudar a essa simplificação, ao conceber um novo alfabeto bastante mais simples.

Ao contrário do nosso alfabeto, onde a cada letra corresponde um som sem que a ele esteja associado qualquer significado, no alfabeto chinês a cada caracter pertence um ou mais significados e nunca um som. Não se pode, por isso, pronunciar um caracter só por se olhar para ele, mas o seu significado é automaticamente entendido. Logo, apesar de utilizarem o mesmo alfabeto, ao qual está ligado um mesmo significado, cada dialecto pronuncia o caracter de maneira diferente. Ou seja, um único texto pode soar de variadíssimas maneiras.

Originalmente, os caracteres eram escritos na vertical, depois passaram a escrever-se na horizontal, mas da direita para a esquerda, actualmente, desenham-se "à ocidental", da esquerda para a direita.