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O olhar do Expresso em Pequim

Três biliões de livros juntos

Pode ser difícil de imaginar mas é verdade. Em Pequim, a livraria Xi Dan Shuidian tem à disposição do cliente três biliões de livros. É talvez a maior loja do sector do mundo e vive num frenesim inacreditável.

São quatro pisos carregados de livros de cima a baixo. Todas as áreas de interesse têm o seu lugar. As portas abrem às nove da manhã e encerram às nove da noite todos os dias da semana. São 12 horas seguidas de frenesim total dentro daquela que é considerada a maior livraria do mundo.

De facto, entrar na Xi Dan Shuidian é como entrar no metro à hora de ponta. Os encontrões são uma constante e é impossível caberem mais pessoas nas escadas rolantes que conduzem aos diferentes pisos. Lê-se no chão, de cócoras, em pé, encostado às estantes, de qualquer maneira e a maioria dos clientes (velhos, novos, de meia-idade, crianças com os pais) empurra um carrinho de supermercado cheio até ao cimo de livros de toda a espécie e feitio. Vendem-se aos milhares todos os dias. Basta olhar para as filas gigantescas nas caixas, em cada secção, para perceber isso com facilidade.

Há gente a comprar de tudo e se pensarmos que a população de Pequim corresponde a mais de 14 milhões de habitantes, não parece estranho a frequência da loja, ainda por cima quando se sabe que as 50 universidades públicas da capital chinesa são as mais procuradas pelos jovens de todo país, entrando nelas, por ano, mais de 50 mil novos alunos.

Os livros chineses não são caros, a maioria não ultrapassa os 50 yuans (menos de cinco euros) e muitos podem custar apenas 60 cêntimos («best sellers», clássicos chineses, livros escolares e infantis). Só os livros estrangeiros são mais caros (mínimo 13 euros até um máximo de 40-50 euros), mas também têm muito pouca procura. De resto, a única secção onde se pode circular à-vontade é na dos livros estrangeiros. Está praticamente vazia. Para além dos livros serem caros para um chinês de classe média, que não ganha mais do que 200-300 euros (e já tem um bom salário), poucos são os que têm capacidade para ler um livro em inglês, muito menos em francês ou espanhol. Livros portugueses não existem, talvez alguma tradução impossível de decifrar quando não se conhece o significado de um único carácter chinês. Já os japoneses e russos têm alguma saída.

De resto, o que é caro e muitos jovens ambicionam comprar são os dicionários. Não é possível encontrar um dicionário de inglês por menos de 30 euros! Enquanto a autobiografia de David Beckham está disponível por oito euros, o mesmo preço dos Harry Potters acabados de chegar a Pequim.

Também com pouca clientela está a secção dedicada ao «merchandising» dos Jogos Olímpicos do próximo ano. Só os estrangeiros procuram levar para casa informação ou, pelo menos, a mascote de 'Pequim 2008 – One World One Dream'.

Os livros escolares são os mais procurados, sobretudo pelos estudantes universitários, que até testes de todas as áreas têm à disposição para treinar em casa antes dos exames, além de livros sobre todas as áreas, com grande destaque para a matemática, a física, a química, a medicina, a mecânica, para as línguas, ou para os livros dedicados à investigação nas mais diversas áreas de estudo.

No entanto, encontra-se o mesmo número de pessoas nas secções de filosofia, ciências sociais, política, direito, estratégia militar, economia, gestão, finanças, história, geografia, cultura, turismo, literatura chinesa e estrangeira (traduções), pintura, caligrafia, fotografia, publicidade, artesanato, música, dança, teatro, agricultura, biologia, ambiente, ciências populares, saúde, arquitectura, desporto, vida, relaxamento, ciência e tecnologia...

Os departamentos mais engraçados, porém, são outros. Educação familiar, testes para adultos e livros sobre normas chinesas são pequenas curiosidades no meio da gigantesca livraria.

À saída, depois de pagar os livros, a confusão da entrada repete-se embora a um nível ainda mais elevado. É preciso mesmo a ajuda da polícia para que as pessoas consigam sair sem se derrubarem umas às outras na correria da vida diária de Pequim.