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O olhar do Expresso em Pequim

O que resta da velha Pequim

Em pleno centro da cidade, ao lado das grandes avenidas, ainda vivem os mais pobres. Os bairros em que habitam chamam-se Hutongs, mas estão em vias de extinção.

Uma das mais importantes avenidas de Pequim chama-se Dongsi Beidajie. Larga, comprida, vive intensamente do comércio ao mais alto nível e da grandiosidade dos mais famosos hotéis de luxo. Há lojas para bolsas recheadas todas «made in» China. O atendimento é hiper-personalizado em todos os ramos do negócio. A atravessá-la, um trânsito brutal, mistura peões com autocarros, bicicletas com automóveis, motos e motoretas. Mesmo ao lado, e ao longo de toda a avenida, cruzam-se os Hutongs, bairros antigos de Pequim, tranquilos, compostos por uma única rua estreita, que mais não é do que uma viela à boa maneira portuguesa. Ainda lá vivem as gentes mais pobres da cidade e sobrevivem as mais carismáticas profissões, desde o sapateiro ao alfaiate, ou ao vendedor ambulante de legumes e vegetais.

Velhos e novos tratam-se por tu e continuam a sorrir ao dizer bom dia ou boa noite, mas no olhar carregam a incerteza de quanto tempo poderão viver nas suas casas. O projecto de remodelação de Pequim, traçado propositadamente para receber os Jogos Olímpicos no próximo ano, não contempla a sobrevivência deste tipo de bairros. Muitos deles já foram destruídos e os seus habitantes estão a ser realojados nos subúrbios da grande cidade. Para o crime não há pena, nem alternativa. É preciso aceitá-lo em silêncio e de lágrimas nos olhos.

De manhã, a azáfama é grande nos Hutongs, mas é ao fim do dia que a vida ganha ali o seu ritmo mais tradicional. O regresso a casa é calmo e a conversa é posta em dia nas "tascas" mais castiças, onde a comida cheira alto e o paladar sabe a relíquias. Enquanto se espera pelo prato escolhido há sempre tempo para deixar os sapatos a arranjar ou para tirar as medidas para uma roupa nova. Pode encomendar-se fruta e comprar legumes frescos para o pequeno-almoço do dia seguinte.

Um estrangeiro por aquelas bandas quase parece um marciano. Dá nas vistas desde que entra até que sai. Mas não é mal recebido. Os mais velhos olham-no com desconfiança e baixam os olhos com uma timidez própria. Depois esboçam um sorriso e a comunicação fica-se por aqui na impossibilidade de um entendimento quer verbal, quer gestual. São os homens de meia-idade os primeiros a entrar em contacto com o desconhecido. Fazem-no com uma simplicidade carregada de inocência. Apresentam-se, falam sem parar e enchem-no de perguntas sem sequer imaginar que ele não está a compreender uma única palavra. E não o deixam arredar pé. Chegam mesmo a ir a casa buscar uma cadeira para que ele se sente na rua estreita e se sinta confortável. Só quando chegam os jovens, alguns, não todos, a conversa se põe em dia. O inglês já faz parte da sua formação, apesar de ser rudimentar, e servem de intérpretes, ao mesmo tempo que se encantam a ouvir falar do "outro mundo". Europa para eles significa o céu.