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Expresso

O olhar do Expresso em Pequim

O adeus ao ano velho

No dia mais frio deste Inverno terminaram os festejos da passagem do ano chinês. Pequim saiu ontem (domingo) à rua para passear em Tian'anmen, durante o dia, e deitar os últimos foguetes coloridos até à meia-noite.

A descida para Pequim anunciava a temperatura. Lá em baixo tudo branco, – 7.º ao meio-dia. Na pista do aeroporto, os limpa-neve trabalhavam a bom ritmo, enquanto nós esperávamos vez para passar a alfândega. A viajar com visto de jornalista, foram precisos mais de 20 minutos para que o agente alfandegário fizesse o relatório completo da nossa entrada no computador de serviço e o enviasse para os serviços centrais governamentais. Mesmo assim, e talvez por ser dia de festa, ontem era a última oportunidade para o povo chinês fechar a festa da passagem do ano e entrar com o pé direito num 2007 sob o signo do porco, não conhecemos o nosso "guia turístico", vulgo observador de actividades estrangeiras no território.

Malas no hotel e em 10 minutos estávamos em plena praça Tian'anmen. Um ou dois turistas, nada mais, e chineses em filas e de máquinas digitais na mão celebravam o dia. A neve tinha parado de cair mas o vento fazia lembrar no mínimo a Sibéria. Tiramos a máquina fotográfica da mochila e começam as dificuldades, polícia, guarda imperial e agentes do exército levantam a mão em sinal de proibição cada vez que a objectiva se vira para eles, que são às dezenas. Da mesma forma, os chineses baixam a cara e dizem que não querem ser fotografados com sinalefas estranhas. Ninguém fala inglês.

O percurso continua pela porta Quianmen, a maior e mais larga porta de Pequim, a qual adoptou o bonito nome de Porta Nacional, apesar de ter sido construída há 600 anos e estar classificada como «Relíquia Cultural» desde 1988. O público, no entanto, só pôde começar a atravessá-la em 1991. Alguns passos à frente, entramos pela Ponte de Ouro, datada de 1420 (dinastia Ming), que dá acesso às cinco pontes que se ligam às cinco portas da maior praça do mundo. Lá dentro, o ex-libris é o Tai Miao, um templo imperial ancestral, mas é para a Cidade Proibida, que a nossa atenção se vira, cinco minutos depois. Mistura-se a decadência e a festa, o luxo e a pobreza mais cruel. Há cerveja por todo o lado e as crianças agarram-se aos chupa-chupas e rebuçados.

Chega a hora de jantar. O Xi He Ya Ju é o restaurante escolhido. Tradicional na decoração e na comida. Oferece um pouco de todos os géneros da comida chinesa, embora a sua especialidade sejam os pratos da cozinha Sichuan, mais apurada no paladar, mais picante e mais exótica nos ingredientes utilizados. O mais leve que chega à mesa é uma sopa de bambu, o resto e a começar pelo saqué, vai desde os camarões doces, aos espargos mais condimentados, passando pelo pato cozido, as amêndoas e cajus com carne de porco e alho francês, os cogumelos fumados, as algas mais frescas, os fritos de toda a espécie, que não deixam adivinhar o que vem lá dentro... A refeição termina com um chá preto puro, suave no paladar, mas mais excitante do que o café.

A noite ainda mal começou. Às 21h30 é hora de conhecer o mais novo trabalho de Phillipe Stark, o LAN, um bar no último andar das Twin Towers de Pequim. Há de tudo como na farmácia no que diz respeito a bebidas. Estão lá os grandes champanhes franceses, os melhores vinhos internacionais, todos os «cokctails» dos quatro cantos do mundo, os conhaques, os uísques, as cervejas, os sumos de fruta, os chás, os cafés, os gins, os vodkas... entrelaçados entre as mais variadas salas decoradas numa mistura carismática entre o luxo asiático feito de candelabros de cristal e o mais moderno do «kitsh» com candeeiros de plástico, de onde caem as mais variadas peças coloridas.

Na rua, o fogo de artifício continua e intensifica-se à medida que se aproxima a meia-noite, a hora exacta em que a tradição manda comer os doces mais tradicionais do país. No Dellagio, o apetite abre-se para os gelados. Feitos ancestralmente, tal e qual como os grandes imperadores os saboreavam, chegam à mesa verdadeiras pirâmides de gelo decoradas com feijão encarnado ou com lentilhas. Para beber, um raro batido de manga com mandioca e a terminar uma taça de chocolate de soja quente.

Para fazer a digestão, escolhemos o Coco-Banana, um dos clubes de dança mais «in» de Pequim. Os carros à porta são o espelho da classe que vamos encontrar lá dentro. O parque não deve ter nenhuma viatura tão rasca como um BMW Z3.

As cortinas de pele branca abrem-se para um espaço amplo, com luzes do chão ao tecto, «néons», bolas de espelhos, plasmas gigantes a passar peças únicas de «vídeojamming», sofás confortáveis com mesas quase térreas, e mesas altas rodeadas de bancos, ocupam a sala, onde falta a pista de dança. Os chineses, claramente, não sabem divertir-se. Bebem cerveja, «coktails» estranhos servidos em jarros de água e comem pratos e pratos de fruta extremamente elaborados na decoração, mas dançar, não dançam. Abanam a cabeça sentados, os braços às vezes, e só alguns atrevidos se levantam entre as mesas para se movimentarem em pé numa dança bastante discreta.

As verdadeiras atracções do clube nocturno são as aparições fugazes de uma bailarina ocidental, que dança em biquini de fio dental, dentro de um aquário a mesma música que o DJ faz tocar até às quatro da manhã. Depois há as bolas de sabão, os fumos coloridos e as casas de banho, onde o design é imagem de marca, deitada por terra quando se abre a porta de cada compartimento: não há sanitas, só latrinas, asseadas é verdade, mas com papel higiénico limitado e entregue pessoalmente pela empregada de serviço, que ainda tem tempo para vender chupa-chupas, rebuçados e pastilhas elásticas, enquanto põe à disposição de cada cliente a mais variada gama de escovas de cabelo.