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O olhar do Expresso em Pequim

Esqueça os restaurantes chineses!

Já todos provámos porco doce, pato à Pequim, shaumin de gambas ou galinha com amêndoas, pensando que comíamos comida chinesa. Nada mais errado. Os chineses nem sabem o que isso é. É melhor falarmos-lhe de espetadas de baratas, de coração ou estômago de galinha, de bichos da seda ou de gordura frita com açucar. Isto, sobretudo, se comermos na rua ao lado de toda a gente.

Comer é um dos «hobbies» preferidos do povo chinês. Pequenos e magros, só não comem quando não podem. Desde as 7h até às 23h, comem verdadeiras refeições de manhã cedo, duas horas depois, antes de almoço, ao almoço, duas vezes à tarde, ao jantar... Mas aquilo que comem não tem nada a ver com o que os "nossos" chineses nos dão a provar.

O pequeno-almoço, mesmo que tomado à pressa, é um banquete. Começa-se por beber leite de soja («doujiang») com massa frita («youtiao»), logo a seguir, passa-se para os bolos de arroz prensados e super pegajosos, mas saborosos, os célebres «nuomigao». Depois ainda há tempo para mais arroz, desta vez solto e acompanhado de verduras, ovo de pato cru e amendoins («baizhou, xianlai, xiandan e meicai bao»). Por fim chega a omoleta com soja e especiarias finas.

Durante o resto do dia, petisca-se em grandes quantidades de tudo um pouco. A massa chinesa, compacta ou como esparguete, é a base da alimentação, tal como o arroz, raramente solto como arroz «xau-xau» que acompanha tudo o que comemos num restaurante chinês-português. Há massa nas sopas de tofu, ou de estômago de vaca com soja, e o arroz desfeito e prensado parece um bolo, apesar de ser recheado com tudo e mais alguma coisa, desde as mais variadas carnes, a folhas de árvore, que podem ser doces ou picantes, ou mesmo frutos.

Mas as grandes especialidades são as espetadas: barata, bichos-da-seda, escorpiões, corações de galinha, lulas fritas, patas de polvo, intestinos de vaca... As melhores são as espetadas de carne de peixe, vá-se lá saber que peixe, fritas com massa em óleo vegetal.

Os crepes são chineses mas feitos à francesa e levam vegetais de toda a espécie. Suaves no paladar, a não ser que queiramos pôr-lhes molhos picantes, não são fritos. Impossíveis de provar são as omoletas: duas tiras de ovos frito a escorrer gordura, recheadas de carnes desconhecidas. Da mesma forma, a gordura frita com açúcar, muito apreciada, mal consegue ser digerida. No entanto, há petiscos extraordinários: panquecas com vegetais, milho frito, pão de milho ou de sésamo, tofu, ou a massa tradicional, compacta e feita com farinha, água e carne.

No fim, quando chegam as sobremesas, o melhor é optar pelo célebre tomate gratinado com açúcar. Para os mais esquisitos, há a maçã de açúcar.
Tudo isto é comido na rua, aos encontrões, de boca cheia e pauzinhos nas mãos. Custa pouco, muito pouco. O máximo que se paga por estes pratos não ultrapassa os dois euros, o que já é uma fortuna, porque a maiorias das especialidades não custa mais do que 40 cêntimos. Há mesmo espetadas a dez e cinco cêntimos!

Entre o povo, operários, empregados de lojas, taxistas, paquetes, vendedores ambulantes, e rapariguinhas do «shopping», no mercado da comida, mesmo ao lado da Wangfujing Da Jie, a mais importante avenida comercial de Pequim, até o último descendente do último imperador, Ai Xin Jue Luo, um velhote de 70 anos, chamado Gao Tie Sheng, aprecia a sua sopa de estômago de vaca com soja, enquanto afirma e reafirma que a sua nacionalidade é mandarim e que o sangue da família real lhe corre nas veias, apesar de ter sido «boxeur» de profissão.