Siga-nos

Perfil

Expresso

O olhar do Expresso em Pequim

Comunismo capitalista

A China continua a dizer-se um país comunista, mas a ideologia reinante é o capitalismo puro e duro. Dinheiro, dinheiro, dinheiro. Consumo e corrupção, ao mesmo tempo que as desigualdades sociais são cada vez maiores.

Chegar à China e pensar que se está a entrar num regime comunista é neste momento um engano. Os interesses do Governo são dominados por um único objectivo: fazer dinheiro. E o mesmo vale para as empresas nacionais. O negócio é a alma de todos os negócios, contando que a maneira mais fácil de chegar lá é através da exploração laboral, da pressão lobista e do incumprimento das mais básicas regras comerciais.

A grandiosidade do regime continua patente na Praça Tian’anmem e em todos os edifícios estatais que a rodeiam. As bandeiras vermelhas são o símbolo mais visível dessa vontade de manter as aparências. E, de facto, o Partido Comunista continua a ser a maneira mais simples para se alcançarem as metas do lucro em proveito próprio. Ser membro do partido é ter as portas abertas para ganhar dinheiro sem prestar contas. E pode mesmo dizer-se que os seus membros são actualmente os maiores capitalistas da China.

No entanto, toda essa ganância desenfreada está a transformar o país num território sem identidade. O património está a desaparecer a uma velocidade alucinante e por ele não há qualquer respeito. Para dar apenas um exemplo, a Cidade Proibida, um dos mais emblemáticos locais da velha Pequim, está já escondida entre prédios gigantescos e precisa de obras de reconstrução imediatas que ninguém está interessado em fazer. O valor da recuperação de uma marca única da China ancestral ultrapassa os 100 milhões de euros e é muito mais importante gastá-los nas monumentais obras e infra-estruturas necessárias para que seja possível realizar no próximo ano os Jogos Olímpicos de Pequim. Mas a abertura de uma loja da famosa cadeia americana 'Star Bucks' foi autorizada e é possível tomar 'cappucinos' e comer 'mufins' de todas as qualidades lá dentro!

Mesmo assim, a classe intelectual luta pela preservação do património, só que, mais uma vez, é o dinheiro que vence. E mesmo ao lado dos mais antigos templos, «buldozers» constroem em meses prédios e prédios ao bom estilo parisiense de La Defense.

O mesmo se passa em relação ao ambiente. A poluição é um monstro imparável. Podem falar ambientalistas, manifestar-se estudantes, escrever intelectuais, jornalistas, quem quiser, as mais de 50 fábricas ainda a funcionar no centro de Pequim não parecem ter dia marcado para fechar. O fumo sai das chaminés antigas como se de um incêndio se tratasse. Há mesmo dias em que é preciso acender os faróis dos carros às três da tarde para ver o caminho entre o fumo. Só mesmo a pressão dos comités olímpicos internacionais pode fazer com que as promessas governamentais avancem perante a ameaça de verem o fracasso cair sobre os Jogos.

No entanto, nas ruas ninguém tem noção do que está a acontecer. Enquanto os mais velhos abrem os olhos de espanto para a nova geração num corrupio fanático pelo consumismo e se atordoam por perceber que eles já nem sabem escrever à mão os mais belos caracteres do mundo, porque se habituaram a escrevê-los no computador, os jovens não têm tempo para olhar para os seus avós e preferem frequentar as discotecas à maneira ocidental mesmo sem saberem como se divertir ou dançar. Para eles, fundamental é comprar um telemóvel novo de seis em seis meses, e toda a roupa possível e imaginária, sobretudo se não parecer oriental.

Só a geração universitária tem consciência da «catástrofe». A arte reflecte-a todos os dias. Dar o passo atrás ou à frente, no entanto, não parece fácil para ninguém. Sobretudo quando se sabe que, enquanto cada vez mais e mais ocidentais tomam conta das mais poderosas empresas chinesas, dando emprego a milhares de pessoas, que no mesmo espaço físico ganham ordenados tão díspares quanto 50 euros ou seis mil euros!

Quem tem a vida facilitada, numa abertura inimaginável há cinco anos, são as mulheres. Advogadas, gestoras, directoras de arte, cientistas e até líderes do poder local nas pequenas cidades do interior, elas têm o caminho completamente aberto para o sucesso. Deixaram de poder ser mães há muito tempo e toda a sua ambição é canalizada para o trabalho. Desenfreadamente. Ganham milhares. E querem mais.

De resto, como todos os chineses que, de repente, e sem qualquer período de transição, se viram num outro mundo onde é possível progredir, apesar de tudo. Nem todos sabem como. Mas os mais atentos já perceberam que se estudarem a sério, trabalharem bem e não falharem, chegam lá.

Nessa perspectiva, o futuro pode mesmo pertencer à China. Com ou sem regras. Isso ainda é difícil de prever.