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O olhar do Expresso em Pequim

China tenta abrir portas

A tradição comunista chinesa procura a tolerância e, sem ser transparente, tenta mostrar uma nova imagem ao mundo. Arte, moda e ascensão da classe feminina marcam melhores resultados económicos.

Dia longo em Beijing, o verdadeiro nome da cidade de Pequim. O Sol fez desaparecer a neve mas a temperatura desce para os 8º negativos. O início do 10.º Congresso Nacional do Povo Chinês chama pela primeira vez os jornalistas locais a comparecer à sua abertura oficial e convida personalidades tão díspares como a actriz Gong Li e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Li Zhaoxing, juntas na cerimónia de boas-vindas. Porém, as novidades chegam ao ponto de dar voz e permitir uma participação activa, cruzando opiniões, a variadíssimos membros dos círculos eleitorais de todo país, mesmo os líderes das etnias minoritárias, como a Ewenki da Mongólia, por exemplo, ou da etnia Iman, oriunda do Miquan no centro da província de Henan. Trajada a rigor, toda esta gente se apresenta no Grande Hall do Povo para expressar as suas ideias. Até os temas tratados reflectem uma abertura maior do governo central, nomeadamente através da discussão da vida política a nível nacional, a par da valorização do yuan, a moeda nacional, que tem vindo a mexer com a especulação à volta de uma cada vez maior evolução da economia do país.

Para este estado de coisas muito tem contribuído a independência feminina. Os dados são claros, as mulheres estão cada vez mais activas na vida social e económica do país, sendo as grandes protagonistas da mudança, lenta, mas positiva, da China comunista e conservadora. Concretizando, 62% dos quadros administrativos dos bancos chineses são ocupados por mulheres. Mas há mais. Mais de metade dos empregados da Motorola, por exemplo, são também mulheres. E os exemplos podem multiplicar-se: Hung Huang é a administradora-executiva do grupo China Interactive Media; Lindsey Mi é a administradora-geral da China Airlines e lidera o departamento de relações públicas da companhia; LiYan é a vice-presidente da Sony Ericsson; Qi Yan, também vice-presidente, chefia a empresa de Informação Digital e Tecnológica de Huaqui...

O exemplo destas mulheres é o objectivo de muitas outras, que, mesmo com salários mais baixos, contribuem igualmente para o alargamento massivo do consumo na China. A classe média feminina, entre as faixas etárias dos 20 aos 40 anos, gasta em média 360 euros por ano em produtos de beleza, enquanto a classe alta despende quase 500 euros em cosméticos, outros tantos em roupa, 200 euros em sapatos, o mesmo em relógios, 120 euros em malas e 700 euros em jóias.

O turismo é a sua segunda prioridade, sendo a Europa o seu destino preferido. Logo a seguir, vem um interesse acentuado na compra dos mais modernos produtos tecnológicos: computadores, telemóveis, câmaras e vídeos digitais e MP4. As casas e os carros topo de gama estão também na lista dos gastos das mulheres chinesas. E todas elas estão cada vez mais empenhadas em frequentar cursos alternativos. Querem estudar línguas estrangeiras, aprender a conduzir, e formação na área do investimento económico. O retrato da mulher urbana na China do século XXI termina com o novo vício da Internet, a maioria delas gasta mais de 26 horas por semana na web.

À imagem do consumo feminino, o governo chinês abriu já as portas aos produtos estrangeiros massificados, anunciando com pompa e circunstância que o povo terá por todo o território as grandes cadeias americanas de «fast food»: Mcdonalds, KFC, e Pizza Hut. Uma medida aplaudida com entusiasmo pela nova geração urbana. Mas que não corresponde em nada ao velho sistema de saúde nacional que não inclui toda a população, sobretudo a mais carenciada, mantendo-se também uma ausência quase total de um serviço de Segurança Social.

De qualquer forma, Pequim é Pequim. 14 milhões de habitantes põem a cidade em marcha desde as seis da manhã e os estrangeiros, em turismo, não deixam o ritmo abrandar até às quatro da madrugada. O Expresso visitou com calma e atenção o «red light district» de Pequim, situado junto ao lago Qian Hai – Hou Hai, uma das mais bonitas zonas da cidade. Ruas estreitas com vista para a pequena baía, como lhe chamam os chineses, muito pouco iluminadas, deixam ver as bailarinas chinesas em palcos não muito grandes. Cantoras trajadas à moda do anos 30 entoam velhos «hits» de jazz e, à porta fechada, tudo pode acontecer nos clubes privados como o Blue Lotus ou o, à boa maneira americana, Sex and the City.

Na outra margem, porém, o ambiente transforma-se. Bares tipicamente chineses servem chás e uísques com cachaça «on the rocks». O mais famoso e melhor frequentado chama-se Nuage. Imperdível.

É assim que, com tanta movimentação política à volta do Congresso Nacional, tem podido o Expresso caminhar livremente pela capital chinesa.