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Expresso

O olhar do Expresso em Pequim

Ao serviço da pátria

Há mais de 20 mil guias turísticos em Pequim. O trabalho não é fácil para eles. As regras que têm que cumprir são ditadas pelo Governo e quem não as cumprir corre o risco de não poder voltar a exercer a profissão. A máxima é ser patritótico.

O primeiro requisito para alguém se poder candidatar a guia turístico na China é saber uma língua. O inglês é a mais solicitada e o maior número de guias fala apenas inglês, no entanto, há ainda, entre os 20 mil guias com licença governamental para trabalhar em Pequim, alguns especializados noutras línguas: japonês, coreano, russo, alemão, francês e espanhol.

Depois de completarem os estudos universitários e já terem estudado a língua estrangeira, os guias iniciam então a sua formação. São mais três anos de estudo para obter o certificado. O curso tem no seu currículo sete disciplinas diferentes, inglês, obviamente, direito, turismo, cultura geral, cultura chinesa, história da China e boas maneiras. É obrigatório fazer exames a todas as disciplinas.

Com o certificado na mão e já a trabalhar, os guias não se vêem livres dos testes. São obrigados a fazer pelo menos um novo exame por ano, para que o seu nível de conhecimento se mantenha actual, e têm de frequentar cursos de formação adicional. Mas o Governo não fica satisfeito só com estas provas. Por isso, submete-os a uma espécie de "inspecção militar", onde todos são questionados sobre os interesses e perguntas mais frequentes dos turistas que acompanham. Dessa "inspecção" sai um relatório que depois será analisado mais pormenorizadamente pelas autoridades. Durante o inquérito, todos os guias são novamente avisados que têm que cumprir as regras impostas à profissão. Ser patriótico e trabalhar tendo em conta os interesses da China é a primeira máxima a que devem obedecer. Mas há muitas mais. Estão proibidos de falar sobre política e religião, não podem comentar absolutamente nada sobre a actuação e ideologia do Governo em frente a um estrangeiro, perguntar ao turista a sua idade, a sua profissão ou tentar saber algo sobre a sua vida privada é também proibido.

Cada vez que acompanham um turista que tenha qualquer tipo de preconceito negativo sobre o país, quer a nível político, quer no âmbito cultural ou social, o dever dos guias, ou a sua obrigação, melhor dizendo, é a de tentar alterar essa noção e transformar a opinião desse estrangeiro sobre a China, fazendo tudo o que estiver ao seu alcance para dar uma imagem positiva do país.

E não há guia que não cumpra todos estes regulamentos. "Temos medo de falar, por isso nunca transgredimos as regras", explica David, um dos melhores guias de Pequim. É que não é rara a vez que, depois de serem requisitados para um trabalho mais específico, sobretudo se for acompanhar um único estrangeiro, que não tenham que responder a um questionário sobre os interesses do cliente, que a agência para que trabalham lhes exige para ser enviado para um departamento governamental. Quem for apanhado em falso, pode ser "expulso" da profissão.

As agências para que trabalham assinam contratos directamente com determinados hotéis e os seus guias só trabalham para os seus hóspedes. Quanto mais caro for o hotel, melhor e mais conhecimentos tem que ser e ter o guia. Por outro lado, é muito mais bem pago do que os que trabalham para hotéis menos caros.

A maior parte dos turistas não lhes causa problemas. Estão sobretudo interessados em conhecer os locais mais famosos da China ancestral, querem ainda aprender a história das várias dinastias imperiais e só às vezes é que perguntam alguma coisa sobre os hábitos e costumes chineses. A Cidade Proibida, a Muralha da China, a Praça Tian'anmen, e os vários templos da cidade continuam a ser os pontos de maior interesse. Só de há cinco anos para cá se tem vindo a notar uma crescente vontade de perceber as diferenças sociais entre a China de há 20 anos e a China de hoje, ao mesmo tempo que a procura pelos grandes mercados de Pequim começou a tornar-se moda. Todos os turistas querem fazer compras nos mercados de Hong Qiao (todo o tipo de produtos, desde roupa, a relógios, isqueiros, máquinas fotográficas, computadores, CDs, DVDs, telemóveis...), e de Xiu Shiu (roupa e acessórios, sobretudo).

Os Jogos Olímpicos são o mais recente tema de interesse dos turistas.