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Pela Europa com 500 euros

Pela Europa com 500 euros

Os couchsurfers deram-nos todas as dicas para visitar as cidades por onde passámos

Entre boleias, voos de "low-cost" e dormidas em sofás emprestados, visitámos Paris, Amesterdão, Budapeste e Frankurt. Bem esticadinho, o dinheiro chegou. E, no final, até permitiu um "mimo".

Pouco depois das 16h pisamos Paris. Tocamos à campainha de uma francesa, que não nos conhece, mas que nos vai oferecer algo pouco comum: um sofá para pernoitar. O único contacto foi há um mês, via Net, no sítio do Couchsurfing, uma comunidade mundial que dá hospitalidade grátis a viajantes.

Começa uma experiência nova: somos os primeiros hóspedes de Aline e ela é a primeira a abrir-nos a porta de casa. Ultrapassada a timidez inicial, a conversa flui e surgem as gargalhadas. Sorte das sortes: comunicamos em português. Aline, 25 anos, é filha de emigrantes lisboetas. Oferece-se para nos mostrar a cidade.

Encontros em Paris

A primeira paragem é no Louvre, em noite de entrada gratuita. À nossa espera estão mais de dez "couchsurfers". Os encontros são habituais e as idades variam, tal como os estilos e as profissões. De franceses a norte-americanos, o leque de nacionalidades faz-nos sentir cidadãos do mundo. Facilmente se percebe que fazer "couchsurfing" é muito mais do que poupar. A partilha cultural é a base. Portugal, com mais de 3.150 membros, está no nono lugar do Top 10 desta comunidade.

Os três dias em Paris são alucinantes. Aline é incansável e garante-nos que não há maneira melhor para conhecer a cidade do que andar a pé. A nós junta-se quase sempre o bem-disposto Stéphane, um francês do Norte, informático, e que trabalha na capital. Dos jardins da Torre Eiffel às margens pouco iluminadas do rio Sena percorremos Paris de lés-a-lés, muito para além dos pontos turísticos. Calcorreamos ruelas e entramos em restaurantes pitorescos com crepes de fazer crescer água na boca. Apreendemos os sons e os cheiros, tudo na perspectiva de quem lá vive.

As longas horas de conversa desenrolam-se à noite, à volta de uma bebida na movimentada zona de Saint-Michel. Foi lá que conhecemos melhor Antoine, um dos "couchsurfers" mais activos de Paris. Aos 27 anos, leva o "couchsurfing" a sério. Entrou nisto "porque estava farto de 'chats' e queria conhecer pessoas". Com trejeitos de estrela da TV, gaba-se de já ter oferecido sofá a mais de 80 pessoas e que, por isso, até já deu uma entrevista à televisão francesa.

À boleia com Daniel

No dia seguinte - o quarto da viagem - não é preciso estender o polegar para entrarmos no velhinho Citroën BX de Daniel, um engenheiro alimentar holandês que nos leva até Amesterdão. A viagem, que nos custa 25 euros, foi combinada há mais de um mês numa espécie de "agência de boleias 'online'", a Hitchhikers.

A segurança é o primeiro tema de conversa."Eu não conheço as pessoas a quem dou boleia, mas elas também não me conhecem a mim. Estamos em pé de igualdade", explica. Nos últimos dois anos, altura em que começou a namorar com uma parisiense e a fazer este percurso todos os fins-de-semana, passaram pelo seu carro pessoas dos mais diversos países, sobretudo estudantes. O sistema é simples: qualquer pessoa pode deixar no "site" da Net informação sobre qual o dia, a hora e o percurso que pretende fazer, bem como os seus contactos. "É tudo uma questão de dinheiro. Fica mais barato para todos."

Partilhar a sanita com 50 pessoas

Na capital holandesa optamos por um quarto num albergue para jovens. Os hóspedes, quase todos estrangeiros, sobem e descem as escadas apertadas com ar de quem não se preocupa com o cheiro a bolor dos microquartos ou com o facto de a casa de banho ser partilhada.

A confusão começa ao pequeno-almoço: num minirefeitório, as pessoas amontoam-se em busca de uma fatia de pão e um copo de leite. Nos bolsos escondem indiscretamente uns quantos pães-de-leite, que servirão de alimento no resto do dia. É que conhecer Amesterdão dá cabo da carteira.

Optamos por visitar três museus e gozar o resto do tempo nas ruas. Seguindo o exemplo dos holandeses, elegemos a bicicleta como transporte.

Joris, o advogado cozinheiro

Na segunda noite na cidade tocamos à campainha de Joris, um advogado de 28 anos, com aspecto radical, que oferece o seu sofá desde 2005. Não vai ter tempo para visitas connosco, mas dá-nos alojamento por duas noites. A desarrumação revela a descontracção com que recebe. Papéis e garrafas vazias "decoram" o chão, e na cozinha amontoa-se uma pilha gigante de loiça suja.

Enquanto cozinha uma tarte de legumes, petisco que faz questão de oferecer, Joris dá-nos a chave de casa. "Começo a trabalhar muito cedo. Fiquem à vontade." Este voto de confiança é dado a todos os seus hóspedes e garante que nunca se deu mal. "Antes de recebermos alguém podemos ver referências deixadas por outros no site", explica o advogado, enquanto bebe uma cerveja sentado em cima de uma pilha de folhas abandonadas no sofá.

A táctica funciona. Pelo seu apartamento já passaram mais de cem viajantes, na grande maioria mulheres. "Parece que sou um tipo de confiança." Embora este não seja um "site" de encontros amorosos, Joris conhece a tentação. "É muito fácil acontecer quando damos a conhecer a nossa intimidade."

No entanto, assegura que embora "já tenha tido vontade" nunca se envolveu com nenhuma, excepto a sua actual namorada, uma "couchsurfer" que vive no outro lado do oceano, no Canadá. O "couchsurfing" tem destas coisas.

Zsolt e Lilla, o casal da Transilvânia

Existem 1.001 opções para voar a baixo custo na Europa. Com a companhia Wizzair, chegamos a Budapeste por apenas 19,90 euros. Tal como no voo da Ryanair, que nos levou a Paris por apenas 39 euros, não há nada a apontar a estas companhias.

Quando chegamos a casa de Zsolt e Lilla, um jovem casal da Transilvânia, a mesa enche-se de sandes de picles, mortadela e queijo, barradas com margarina."Comam mais um bocado",ouvimos ao fim de três pães bem aviados.

O apartamento, impecavelmente arrumado, fica no centro da cidade. Lilla, que está a tirar o mestrado em Relações Internacionais, mostra-nos tudo na cidade, de edifícios majestosos a miradouros com vistas de fazer perder o fôlego.

Depois de Paris e Amesterdão, os preços em Budapeste são uma lufada de ar fresco. Nos supermercados encontram-se "souvenirs" óptimos e baratos, como doces e vinhos típicos. O único problema é que muito poucos falam sequer inglês, mas a linguagem gestual safa a coisa.

À noite, Zsolt, publicitário, junta-se a Lilla e a nós com um entusiasmo contagiante. São um casal engraçado, sempre a discordar, entre gargalhadas. Nunca pensaram que o "couchsurfing" pudesse ser perigoso. "Seja em que parte do mundo for, somos todos simplesmente pessoas." É impossível não gostar deles. Trocamos receitas de petiscos típicos de cada país - e a comida caseira ajuda a equilibrar o orçamento, que já vai em menos de metade. Em pijama e descalços, a noite prolonga-se sempre até de madrugada, com a sensação de estarmos em casa.

Guardamos para o fim uma extravagância: passamos duas horas em saunas e banhos que chegam aos 38 graus. Tudo isto num cenário imperial, com colunas e grandes. Restabelecidos das dores nas costas, preparamo-nos para mais uma boleia, desta vez até à Alemanha. A despedida é feita entre abraços e promessas de uma viagem deles a Portugal.

Boleia com o Steven Seagal

Com o telemóvel a tocar Shakira, Viktor, um húngaro dos seus 30 anos, organiza os tripulantes. Na carrinha Ford Transit juntam-se húngaros e alemães, para uma viagem de mais de dez horas até Frankfurt. Embora o sistema não seja comum em Portugal, por aqui as boleias organizadas funcionam na perfeição. Desta vez foi tudo combinado através do sítio "Ride4cents" e a ajuda de custos ficou em 40 euros, menos de metade do preço de uma viagem de comboio.

A "qualidade de serviço" é o lema do húngaro. O trajecto é definido por GPS e um DVD portátil insiste em passar filmes do Steven Seagal dobrados em húngaro. A cada paragem impõe-nos tempos um pouco estranhos para ir à casa de banho: "Treze minutos e depois arranco", diz, no seu inglês macarrónico. Os viajantes olham uns para os outros e riem baixinho.

Já passa das dez da noite quando chegamos a Frankfurt. A fome deu lugar ao cansaço. Queremos uma cama. Com apenas 113 euros no bolso temos ainda pela frente mais três noites em sofás e uma num aeroporto.

Laurence, uma francesa em Frankfurt

Com passo ligeiro, Laurence, a nossa última anfitriã, leva-nos até sua casa. É dia de semana e, uma vez mais, a chave fica connosco. "Usem a água que quiserem, porque está incluída na renda. No frigorífico há iogurtes e leite."A francesa, que trabalha como tradutora em Frankfurt, não terá tempo para nós, mas fornece-nos mapas, nomes de museus, linhas de metro e contactos para algum imprevisto.

Os sacos-camas voltam a abrir-se em cima de mais um sofá. Das mochilas sai o pijama, o mesmo desde há dez dias. O cansaço chegou para ficar e as manhãs em Frankfurt são sempre passadas a dormir. A cidade é cara e o orçamento está a dar as últimas. Esquecemos os transportes e andamos três dias a pé na capital económica europeia, onde comemos salsichas quase todos os dias.

Laurence leva-nos a passear à noite. Nos bares conversamos sobre o "couchsurfing". Tal como a maioria dos outros membros, foi através de amigos que descobriu este grupo. "Um 'couchsurfer' não é um hotel", explica-nos a francesa, que também faz parte do Hospitality Club, uma comunidade semelhante. "Actualmente sofre-se muito de solidão. Esta é uma forma divertida de viajar e conhecer gente em todo o mundo".

Os voos de baixo custo têm duas grandes desvantagens: geralmente partem de terminais secundários e a horas pouco acessíveis. Por isso, a última noite da viagem é passada no aeroporto de Frankfurt-Hahn. Quatro voos da Ryanair estão previstos para as seis da manhã e os viajantes amontoam-se nos corredores. Em cadeiras, ou mesmo no chão sujo, quase toda a gente adormece. O cenário consegue ser deprimente, mas as recordações dos últimos 15 dias são boas de mais.