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Expresso

Festival de Veneza 2007

Festa de Veneza

Rohmer, Loach, Woody Allen e Brian De Palma são alguns dos nomes cimeiros do festival.

Começa na quarta-feira, comemora com pompa e circunstância 75 anos de existência – e promete um conjunto de filmes de primeiríssima água. Resistindo à fortíssima concorrência de Cannes e ao dinheiro derramado a rodos sobre o novel Festival de Roma, Marco Müller, na última edição que dirige da Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica, parece ganhar a parada. Lembremos que o Festival de Veneza foi o primeiro a qualificar o cinema como "arte", ao fazer dele uma das vertentes da prestigiadíssima Biennale, no já longínquo ano de 1932. Era então uma "Esposizione", tutelada pelo conde Volpi (de quem foi dito ser "o último doge de Veneza", tal a influência que teve na cidade) e decorria ao abrigo do luxuosíssimo e arabizante Hotel Excelsior, na que era uma das mais requintadas estâncias de veraneio do velho continente, o Lido. O evento, claro, tinha as suas preocupações turísticas (a crise de 1929 abalara profundamente a actividade) e foi, dizem as crónicas, um sucesso. Setenta e cinco anos volvidos, o Excelsior ainda lá está, no seu charme de velho mastodonte um tanto fora de moda, mas que não deixa os créditos por mãos alheias e ainda alberga boa parte do burburinho mediático em que o festival se tornou. Bem longe vão os tempos em que só à noite havia projecções, já que era a praia o que mais atraía os visitantes. Agora, as projecções começam logo de manhãzinha, decorrem em meia dúzia de diferentes salas, os filmes exibidos contam-se por muitas dezenas e os espectadores, jornalistas e convidados por muitos milhares.

Este ano, artistas que não precisam de provar que o são, vindos dos quatro cantos do mundo, vão ter as suas mais recentes obras presentes, seja na Selecção Oficial, seja nas secções adjuntas. Em ano de comemorações, são os grandes nomes que dominam a selecção, não parecendo haver lugar para revelações jovens. Veneza vai reunir filmes de cineastas como Eric Rohmer, Woody Allen, Claude Chabrol, Brian De Palma, Takeshi Kitano, Youssef Chahine, Ken Loach, Peter Greenaway, Paul Haggis, Wes Anderson, Nikita Mikhalkov ou Ang Lee – sem esquecer Manoel de Oliveira que, com o seu Cristóvão Colombo – O Enigma, vai revelar a sua versão pessoal sobre o descobridor da América num filme em que ele próprio aparece como intérprete. Não vai ser o único representante português na Sereníssima: João Canijo, com Mal Nascida, está também no festival, prosseguindo a sua peculiaríssima revisitação dos mitos gregos em adaptações muito marcadas na realidade portuguesa do presente. A larga maioria dos filmes presentes farão ali a sua estreia mundial que os pergaminhos de um festival de classe A vivem disso mesmo.

Mas há lugar para a memória, já que nenhuma arte pode dela prescindir. Para além de alguns acontecimentos muito particulares, como a exibição do restauro de Intolerância, de Griffith (finalmente disponível na versão que foi exibida em 1917), e de A Idade da Terra, de Glauber Rocha, há várias homenagens e toda uma secção retrospectiva (sob a designação de "História Secreta do Cinema Italiano") este ano dedicada ao "western-spaghetti" que, assim, passa das salas populares de bairro para o aparato de género culturalmente reconhecido. Se um dia tivessem dito a Sergio Sollima ou a Tonino Valerii que os seus filmes iam passar no Festival de Veneza, eles deviam achar que o interlocutor tinha abusado do chianti. Mas as rodas do tempo são assim mesmo e as fitas lá estarão, com um padrinho muito adequado: Quentin Tarantino. E não vão faltar outras curiosidades, como a passagem do restauro de Por um Punhado de Dólares, de Sergio Leone, ou o "final cut" que, este ano, Ridley Scott deu ao seu Blade Runner.

Pela passadeira do Palácio do Cinema desfilarão as vedetas, evidentemente. São esperados Michael Caine, Jude Law, Brad Pitt, Michelle Yeoh, Scarlett Johansson, George Clooney, Charlize Theron, Ewan McGregor, Anjelica Huston, Richard Gere, Juliette Binoche – pelo que o "star power" de que o grande público e as televisões tanto gostam está garantido. O velho Palácio, de resto, terá o seu exterior redecorado pelo mítico cenógrafo Dante Ferretti e incluirá a enorme bola de aço idealizada para o Ensaio de Orquestra, de Fellini, deste modo se simbolizando a próxima destruição da estrutura quando o novo Palácio (velha aspiração da Biennale finalmente em marcha) for edificado.

Dois Leões de Ouro especiais vão ser atribuídos. Um, comemorativo dos 75 anos da Mostra para o realizador italiano Bernardo Bertolucci, o outro, à carreira, irá para as mãos de Tim Burton. E haverá, evidentemente, prémios entre os 22 filmes a concurso, atribuídos por um júri que, este ano, será presidido Zhang Yimou e inteiramente composto por realizadores: Catherine Breillat, Jane Campion, Emanuele Crialese, Alejandro González Iñárritu, Ferzan Ozpetek e Paul Verhoeven. Refira-se, por fim, que o crítico do "Expresso" Francisco Ferreira integrará o Júri da "Semana da Crítica", uma secção dedicada a primeiras obras. Como habitualmente, o "Expresso" fará a cobertura do evento, quer na sua edição semanal quer no "Expresso on-line".