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Expresso

Cannes 2008

No reino dos vertebrados

Ao segundo dia, começam a surgir filmes importantes: esta competição de Cannes 2008 promete.

Francisco Ferreira, enviado a Cannes

Após a cegueira inicial, Cannes começa a mostrar porque é o maior festival de cinema do mundo e os coelhos começam a sair da cartola. Podemos começar pela representação turca da Competição, Three Monkeys, o novo filme de Nuri Bilge Ceylan. O cineasta é conhecido em Portugal: Paulo Branco distribuiu as longas metragens anteriores, Uzak e Climas, que também competiu em Cannes (no ano passado). Há um sentido de burlesco em Ceylan que, embora não seja evidente, organiza todo o seu trabalho cinematográfico. Um objecto ou um som inesperado transformam-se muitas vezes em elementos decisivos do filme, definem o espaço à sua volta, inventam situações de comédia onde ela, aparentemente, não pode existir.

O filme aborda a destruição progressiva de uma família, pai, mãe e filho adolescente, pela mentira. Eyüp, motorista de um político em vésperas de eleições, aceita fingir que é culpado de um crime que não cometeu quando o seu patrão atropela alguém na estrada e foge. Eyüp entrega-se à polícia e cumpre um ano de cadeia por um crime que não cometeu. Em troca, o político promete-lhe uma avultada soma em dinheiro. O plano funciona, a mentira é benéfica para os dois homens, só que a mulher de Eyüp deixa-se seduzir pelo político enquanto o marido cumpre a pena. Quando descobre a traição da mãe, o filho adolescente fica aterrorizado.

Three Monkeys, tal como já se esperava de Ceylan, é um drama pesado, dostoievskiano, obcecado pelas manifestações da psyche humana e com um dilema moral para resolver. Filme com uma angústia terrível repartida no final pelas três personagens, os "três macacos" da fábula, como Ceylan lhes chamou.

Martina Gusman em "Leonera", de Pablo Trapero

Martina Gusman em "Leonera", de Pablo Trapero

Argentina

Pablo Trapero é nome que não dirá muito porque nenhum filme seu foi distribuído em Portugal. Tal como Lucrecia Martel, ele faz parte da nova vaga de cineastas que reactivou o cinema argentino no início dos anos 90. Este ano há cinco filmes argentinos em Cannes, número que impressiona: dois na Competição (o outro é de Lucrecia Martel, precisamente), dois na Quinzena (destacamos o novo de Lisandro Alonso: Liverpool) e um na Semana da Crítica. O primeiro a passar foi Leonera, de Trapero, a concurso pela Palma de Ouro. Foi rodado durante a gravidez de Martina Gusman, actriz e companheira de Trapero. A actriz interpreta uma mulher de 26 anos, condenada por assassínio, que dá à luz numa cadeia especial de Buenos Aires e ali vai viver com o seu filho até este cumprir 4 anos de idade. No inferno da prisão, o filme documenta sem dramatizar, sem cair no melodrama (não sabemos se a personagem é culpada do seu crime e, às tantas, nem isso interessa): esta é a história de uma mãe coragem.

Jerzy Skolimowski, ontem, na abertura da Quinzena dos Realizadores

Jerzy Skolimowski, ontem, na abertura da Quinzena dos Realizadores

Sublime Skolimowski

Jerzy Skolimowski, nome fulcral da nova vaga de cinema polaco dos anos 60 e autor desse extraordinário Moonlighting (1982), com Jeremy Irons, já não filmava desde Ferdydurke, de 1991, adaptação falhada da novela de Gombrowicz. A espera foi longa, 17 anos, mas como o próprio Skolimowski referiu ontem na abertura da Quinzena dos Realizadores, "I'm back!". E que regresso. A sala aplaudiu-o de pé dez minutos no final da projecção de Four Nights with Anna, produzido pelo português Paulo Branco.

A estranha personagem de León, um empregado de um hospital numa zona remota da Polónia que em tempos foi kolkhoze soviético, foi a testemunha impotente da violação de Anna, enfermeira no mesmo hospital. Léon desenvolveu desde aí uma fixação por Anna, ou melhor, uma obsessão que recorda Peeping Tom ou o Psico, de Hitchcock. Ele espia Anna em segredo, até decidir, durante quatro noites, entrar em casa da enfermeira sem que esta se dê conta. Mas Léon é um anti-herói inofensivo. O filme é a tragédia de um homem ridículo e comovente, apaixonado por uma mulher que o ignora. Essa mulher, no fundo, é um fantasma da sua loucura. O filme foi inspirado num "fait-divers" que Skolimowski descobriu numa notícia de jornal. E o resultado é magnífico. Esperemos pela estreia portuguesa.