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Expresso

Cannes 2008

"La Frontière de l'Aube" é o mais belo filme de Cannes

Miguel Gomes triunfa na "Quinzena". Soderbergh idealiza o seu "Che".

Francisco Ferreira, enviado a Cannes

O francês Philippe Garrel é um herdeiro directo da "Nouvelle Vague" e da geração que, nos anos 60, por Godard e Truffaut, inaugurou o cinema moderno. Em Cannes, apresentou o seu 28º filme, uma história de amor que tem a força das origens. Philippe filmou novamente o seu filho Louis (que hoje é uma estrela no hexágono), ao lado da loira Laura Smet, como se o cinema moderno tivesse nascido ontem à tarde e ainda fosse uma primeira vez. O amor é vampírico. François (Garrel) é fotógrafo, Laura (Smet) é actriz. Apaixonam-se loucamente. Só que Laura não está reconciliada com o mundo e cedo se adivinha o seu destino: entre uma dose de comprimidos e uma garrafa de gin. Mais tarde, depois do suicídio de Laura, François tenta refazer a vida, encontra outra mulher, uma frágil Eva que, apesar de tudo, é um amor positivo. Mas o espírito de Laura não o abandona. Em frente ao espelho, ele procura o grande amor da sua vida como Orfeu procurava nas trevas Euridice. La Frontière de l'Aube é um filme habitado pela morte e por fantasmas. Nada tem que ver com os restantes desta Competição. A direcção de actores é sublime e a fotografia, a preto e branco, de William Lubtchansky, é um desses milagres do cinema tão raros quanto inexplicáveis. Não há mil maneiras de dizê-lo: a beleza, aqui, está em estado puro.

Miguel Gomes

Miguel Gomes

Miguel Gomes

Na Quinzena dos Realizadores houve quinze minutos de aplausos no final da projecção de Aquele Querido Mês de Agosto, segunda longa-metragem de Miguel Gomes. Quinze minutos que não foram presenciados pelos restantes colegas da imprensa portuguesa (um mistério...), já que a primeira projecção de Che, de Steven Soderbergh (que recuperámos na sessão seguinte), passava à mesma hora. Foi um acolhimento raro para um filme português, no mais exigente dos festivais: só Oliveira e Pedro Costa o conseguiram nos últimos tempos. Aquele Querido Mês de Agosto parte de uma pesquisa documental, um gesto de cinema generoso e livre, capaz de transformar o pitoresco da província portuguesa numa experiência quase surrealista. Foi filmado na região de Arganil, chamada de "berço de Portugal". O documentário é depois contaminado pelo esboço de um melodrama formado por pai, filha e primo desta, todos eles elementos de uma banda de música ligeira (a vulgar "pimba"), num Verão de turistas e emigrantes. O que vem do documentário e o vem da ficção não deixam de alimentar-se numa interacção que inaugura um estilo. O resultado é magnífico e a imprensa internacional rendeu-se à originalidade do filme: ouvimos ecos positivos um pouco de todo o lado e é mais do que certo que este Agosto... tem agora à sua frente uma carreira garantida pelos festivais internacionais. O "Libération" deu-lhe honras de abertura nas suas páginas de cinema e deu mesmo ao filme luso uma chamada à primeira página da sua edição de ontem. O "Le Monde" chamou-lhe "momento de felicidade". Felicidade que também me deixou feliz.

«La Mujer sin Cabeza», de Lucrecia Martel

«La Mujer sin Cabeza», de Lucrecia Martel

Entretanto, passaram outros filmes na Competição, como o novo da argentina Lucrecia Martel, provavelmente o seu pior. La Mujer sin Cabeza é um filme maníaco, em permanente vigia das suas personagens, observadas por uma câmara de psicanalista pelo buraco da fechadura. Não nos agrada o olhar sobre a heroína desta história, uma mulher que atropela qualquer coisa na estrada (uma pessoa, um cão?...), foge, e depois se entrega aos seus complexos de culpa. Não vi ainda o húngaro Delta, que mais tarde recuperarei nas ultimas exibições de Cannes.

Che Guevara segundo Soderbergh

Benicio del Toro em «Che», de Steven Soderbergh

Benicio del Toro em «Che», de Steven Soderbergh

O tema do revolucionário é um mito pop que continua a vender jornais e capas de revista: sem querer chocar ninguém, a imagem de Che Guevara parece-me um dos ícones mais capitalistas do século XX e estou disposto a defender a tese. A duração do monumento que Soderbergh lhe dedicou, no mínimo, desperta curiosidade. Quatro horas e meia de filme divididas em duas partes que terão estreias em sala separadas: The Argentine e Guerilla. A primeira parte aborda a colaboração de Guevara com Fidel e o ataque à Cuba de Baptista. A segunda traz-nos o Guevara em guerrilha na Bolívia, onde seria capturado e fuzilado. É o filme de Soderbergh mais arriscado e insólito. Começa onde terminavam os tempos de juventude de Che em Diários de Che Guevara, de Walter Salles.

Após muitas voltas na cadeira, o filme não convenceu. E, se não convenceu, é porque o projecto, que como sempre em Soderbergh aparenta ser marginal ao "mainstream", é perverso: apesar de ser falado maioritariamente em castelhano e ter em Benicio del Toro (actor e produtor) a sua única vedeta, apesar de ser formalmente oposto à maioria do cinema americano actual, não estará já formatado e pensado para vender a sua "originalidade", o seu "bê-á-bá" marxista, a Hollywood e ao espectador com um balde de pipocas na mão? Soderbergh é um bom cineasta, prova-o em momentos capitais (a solução de "mise-en-scène" encontrada para filmar a morte do herói, por exemplo), escapa ao didactismo, à voz "off", a certas facilidades. Fez, porém, um filme tão polifónico que nada se fica a saber sobre o homem, tão-pouco sobre a História: este Che de Soderbergh é uma espécie de "Cristo rojo". Cristo e seus "derivados", passo a expressão, continuam a vender (e ao capitalismo voltamos). Devotos procuram-se.