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Expresso

Cannes 2008

Clint Eastwood candidato à Palma de Ouro

"Aquele Querido Mês de Agosto", de Miguel Gomes, única representação portuguesa, passa hoje na Quinzena dos Realizadores.

Francisco Ferreira, enviado a Cannes

Clint Eastwood e Angelina Jolie durante a rodagem de "The Exchange"

Clint Eastwood e Angelina Jolie durante a rodagem de "The Exchange"

Depois de dois filmes de guerra sublimes, As Bandeiras dos Nossos Pais e Cartas de Iwo Jima, Clint Eastwood, 78 anos, lançou-se para um drama de época passado em Los Angeles, no final dos anos 20, na alvorada da Depressão. Angelina Jolie, bela de fazer secar o Tejo (ou o Mediterrâneo, que está aqui mais à mão), veste a pele da emancipada Christine Collins, mãe (solteira) de um miúdo de nove anos. As bases do melodrama estão lançadas quando o miúdo desaparece de casa. A América está a ferver, a imagem pública da polícia de Los Angeles está de rastos e o desaparecimento ganha contornos que fazem lembrar o "caso Maddie".

"It's not my son"

Diego Maradona foi filmado por Kusturica

Diego Maradona foi filmado por Kusturica

Parece história para fazer chorar as pedrinhas da calçada, mas isto é só o início. É que, cinco meses depois, Christine recebe das mãos da polícia um "falso filho", uma criança com a mesma idade do desaparecido e que lhe chama "mãe". Estupefacta, ela diz o que qualquer mãe diria: que aquela criança não é sua. A polícia, que quer abafar o caso, fá-la passar por doida e interna-a num asilo psiquiátrico. Não contamos mais do que estes primeiros quinze minutos de um filme de duas horas e vinte. O melodrama cedo desaparece, transforma-se em reflexão política sobre os abusos do poder, a corrupção e a violência de uma América dos anos 20 que ecoa na América de hoje: um país em crise. Jolie está magnífica, é o papel da sua vida. Clint tem a balança da justiça no seu lado e um olhar de genorisidade sobre o mundo capaz de olhar a tragédia nos olhos e a terrível história infanticida que se segue. The Exchange (o filme chamava-se "Changeling" mas a Universal mudou-lhe o título na última hora) é o grande filme que faltava a Cannes. É de um classicismo puro. No próximo sábado, talvez se transforme na Palma de Ouro que ainda falta a Clint.

Rei Maradona

Depois de Mike Tyson, no documentário Tyson, de James Toback, chegou outro astro do desporto a Cannes: o grande Maradona, estrela do documentário Maradona by Kusturica. É um folclore pegado, como já se esperava do cineasta de Sarajevo, em torno da iconografia do homem que inventou "a mão de Deus" (no jogo Argentina-Inglaterra do Mundial de 1986). É um filme "pop", com uma lenda viva.

"Gomorra", de Matteo Garrone

"Gomorra", de Matteo Garrone

Mafia italiana

Recuperámos entretanto um filme surpreendente sobre a mafia italiana e os seus tentáculos, numa altura em que Nápoles, cheia de lixo, volta a estar nas bocas do mundo, para horror de Berlusconi. Gomorra, cidade bíblica e pecadora que rima com a Camorra napolitana, adapta um livro do jornalista Roberto Saviano (ameaçado de morte pelo "polvo") e foi realizado por Matteo Garrone. O filme tem tudo o que se espera de um panfleto e êxito garantido: vai agitar o muito insosso cinema italiano actual.

"Aquele Querido Mês de Agosto", de Miguel Gomes

"Aquele Querido Mês de Agosto", de Miguel Gomes

Hoje à tarde passa o monumento que Steven Soderbergh erigiu a Che Guevara. Chama-se Che (o papel do revolucionário é de Benicio del Toro) e dura apenas quatro horas e vinte e oito minutos (!). Na Quinzena dos Realizadores, hoje é o dia de Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes. Reacções ao filme na próxima crónica.