Siga-nos

Perfil

Expresso

Cannes 2008

Cannes anuncia prémios esta noite

O júri do 61º Festival de Cannes, presidido por Sean Penn

Exibido no último dia, "Entre les Murs", de Laurent Cantet, é o "intruso" inesperado.

Francisco Ferreira, enviado a Cannes

Candidatos à Palma de Ouro: Clint Eastwood, Laurent Cantet, Ari Folman

Candidatos à Palma de Ouro: Clint Eastwood, Laurent Cantet, Ari Folman

As últimas 48 horas de Cannes, passadas entre entrevistas e as últimas projecções do festival, foram uma decepção: bem tentámos encontrar filmes singulares, mas quase nada se encontrou. Cannes não guardou o seu melhor para o fim. Um destes últimos filmes, contudo, destaca-se, nem tanto pelo seu valor cinematográfico, que é relativo, mas pela abordagem frontal ao seu tema. É quase certo que Entre les Murs, nova longa metragem de Laurent Cantet, estará no palmarés (chegará à Palma de Ouro?) que o festival anunciará neste final de tarde de domingo (19h30 em Cannes, menos uma em Lisboa). Falamos de Entre les Murs um pouco mais abaixo.

Clint Eastwood, que aqui defendemos sem deixar dúvidas a ninguém, já foi "chamado" pelo Festival, ouve-se dizer nos bastidores mais informados... A sua presença nos prémios de hoje parece ser uma certeza. Mas que prémio dará Cannes ao quase octagenário cineasta, já "mestre"? A Palma de Ouro a The Exchange, a acontecer, será a primeira para Clint. E será mais do que justa, calando as vozes tolas dos festivaleiros que não viram neste filme mais do que um exercício de clássico conservadorismo (quando, no fundo, The Exchange é um dos manifestos políticos sobre a América mais subversivos e revolucionários dos últimos anos). Enfim, para Clint, tudo o que for abaixo da Palma saberá a pouco e o resto é conversa. Terá o júri de Cannes, que é presidido pelo eastwoodiano Sean Penn, a coragem (e o desplante) de lhe atribuir, por exemplo, um Grande Prémio do Júri (o segundo galardão mais importante do festival)? Ou o de Melhor Realização? Humm... Isto são só prognósticos, mas...

Atenção a Waltz with Bashir, de Ari Folman, uma animação israelita de que gostamos muito sobre os traumas dos soldados do país. Este "documentário de animação" (assim se apresentou ao mundo), baseado em trabalho de pesquisa e entrevistas, evoca (sem misericórdia) os massacres de Sabra e Shatila perpetrados contra civis no Líbano, nos anos 80, pelo exército de Tel-Aviv. Se acabar com a Palma no bolso vai ser a grande surpesa deste Cannes 2008. Vamos acreditar que não: a César o que é de César, a Clint o que é de Clint. Também Gomorra, mergulho de cabeça na vida da Camorra napolitana pelo italiano Mateo Garrone, poderá surpreender.

Nos prémios de interpretação, fala-se do papel de Martina Gusman no filme argentino Leonera, de Pablo Trapero, história de uma mãe coragem que dá à luz e acompanha o crescimento do seu filho numa prisão de Buenos Aires. Na categoria masculina, é provável que Benicio del Toro, pela sua metamorfose em Che Guevara (em Che, de Steven Soderbergh), seja distinguido. De resto, não vemos para estes escalões muito mais no horizonte. Há Angelina Jolie em The Exchange, hipótese remota, assim como o par Joaquin Phoenix e Gwyneth Paltrow em Two Lovers, de James Gray. Há, claro, o trabalho de Louis Garrel e de Laura Smet no magnífico La Frontière de l'Aube, de Philippe Garrel, demasiado exigente para estas coisas de prémios. Nas últimas horas, estalou a controvérsia (nos jornais e na "Croisette") entre os que defenderam este filme com unhas e dentes e aqueles que, talvez vitimados por cegueira degenerativa e carapaça pós-moderna, se limitiram a balbuciar e a repetir os mesmos adjectivos: "é pretensioso", "é autosatisfeito", etc. Vozes que não chegam ao céu nem ao cinema luminoso de Garrel. Mas Cannes 2008, em geral, não foi um festival de actores. Os actores foram outros: Myke Tyson e Maradona, filmados em documentários afectivos por James Toback e Emir Kusturica (respectivamente).

A "aula" de Laurent Cantet

“Entre les Murs”, de Laurent Cantet

“Entre les Murs”, de Laurent Cantet

François Bégaudeau, professor, escritor, jornalista e também crítico de cinema ocasional dos "Cahiers du Cinéma", escreveu um livro chamado Entre les Murs sobre a sua experiência de professor do ensino secundário numa escola problemática dos arredores de Paris. Foi este livro que o realizador Laurent Cantet (com Robin Campillo) decidiu adaptar para cinema. Bégaudeau, por seu lado, aceitou tornar-se actor e deu corpo a um professor chamado François... para dissipar as dúvidas. Digamos que o livro é o documentário, o filme a ficção e que entre ambos não se vê fronteiras.

Cantet escolheu uma turma de um liceu parisiense para este projecto pedagógico, defendendo a autenticidade e a expontaneidade, filmando numa verdadeira escola. A câmara não parece nunca estar ali, não provoca a menor inibição, nem nos alunos, nem em Bégaudeau, a trabalhar em improvisação constante, tal e qual como numa aula normal. O professor, dia após dia, é confrontado com as opiniões dos seus alunos de 13 e 14 anos, ao longo de um ano escolar. Há mesmo um aluno que chega a perguntar-lhe se ele é "gay", entre outros episódios... Se este projecto é sedutor, não deixa de ser cinematograficamente limitado. Entre les Murs é sobretudo um filme de montagem que sugere ter dezenas e dezenas de horas de material por trás. Cantet guardou os momentos mais preciosos, quer pela piada que têm, quer pela reflexão sobre a sociedade e o mundo que nasce daqueles diálogos. O seu gesto de cineasta é democrático e generoso, convida a partilha e Entre les Murs acabou por caiu no goto de Cannes, recebendo forte aplauso na sua sessão oficial. Os prémios desta noite podem recompensar o seu esforço.

Outros filmes, mais pesadelos

“My Magic”, de Eric Khoo

“My Magic”, de Eric Khoo

Nem sei por onde começar. O canadiano Atom Egoyan, que tem queda para bruxo das maleitas da globalização e gosta de acidentes familiares, filmou em Adoration um argumento que se emaranha na sua própria confusão após um início muito sugestivo. Um adolescente coloca na Net uma história de terrorismo que faz parte de um projecto escolar (ou seja, é uma história falsa), mas a história é levada a sério e tende a tornar-se verdadeira, à medida que o rapaz vai descobrindo segredos íntimos sobre a sua própria família.

Synecdoche, New York, primeiro filme do argumentista Charlie Kaufman (trabalha habitualmente com Spike Jonze e Michel Gondry), é outro filme de simulacros, menos metafórico que Egoyan, mas muito mais egocêntrico. Farto da banalidade do seu mundo artístico, um encenador de teatro (Philip Seymour Hoffman) leva à cena num gigantesco armazém de Nova Iorque a peça épica (e inacabada) da sua própria vida. Kaufman é um "maníaco", adora inventar personagens que são sempre seus alter-egos. Este Synecdoche, New York é um cúmulo de narcisismo assumido.

“The Palermo Shooting”, de Wim Wenders

“The Palermo Shooting”, de Wim Wenders

Esperávamos muito mais de My Magic, filme da Singapura assinado por Eric Khoo. É outra variação melodramática, desta vez sobre a paternidade e chega a ser comovente. Infelizmente, não resiste a transformar o seu protagonista num animal de circo. O herói do filme, um alcoólico que outrora foi mágico, está na decadência total. O seu filho menor, brilhante aluno, tenta levá-lo à razão. Ou seja, os papeis estão invertidos: a criança é a personagem responsável, não o pai, que passa o dia a beber. No entanto, este decide voltar à sua velha profissão para ajudar o filho nos estudos e começa aí o seu penoso martírio. É que o nosso herói, um tal de Francis Bosco, actor amador, é um especialista a comer copos e lâmpadas, a espetar agulhas no corpo e a engolir lâminas, entre outros mimos. Ainda ontem o vimos a dar mais espectáculo masoquista para quem passava na "Croisette".

Il Divo, do italiano Paolo Sorrentino, drama inspirado na vida do político Giullio Andreotti, é uma insuportável cópia felliniana entregue ao grotesco, um filme muito penoso de ver. Resta Wim Wenders e a história de um fotógrafo em crise existencial em The Palermo Shooting, talvez o seu filme mais vaidoso e inútil. Pobre Wenders: por mais dedicatórias que faça (a última foi oferecida "a Ingmar e a Michelangelo", ou seja, aos recentemente falecidos Bergman e Antonioni: pode-se ser mais pretensioso do que isto?), por mais amigos que convide (Patti Smith, Lou Reed...), parece estar condenado a girar sobre o seu próprio vazio. Quem o viu e quem o vê.