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Expresso

Cannes 2008

Antes cego que tonto

Uma só palavra para "Blindness", que ontem inaugurou Cannes: medonho! De Israel chegou "Waltz with Bashir", animação de Ari Folman que evoca os anos 80 e a Guerra do Líbano: vai fazer correr muita tinta.

Francisco Ferreira, enviado a Cannes

O sol chegou a Cannes após uma entrada chuvosa mas as nuvens ficaram na sala, sobretudo depois do visionamento de Blindness, que é osso duro de roer. O filme de Meirelles adapta Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, e o resultado é desastroso. Saramago, por seu lado, não veio à "Croisette", por alegados motivos de doença, diz o boato. O prémio Nobel português fez bem em ficar em casa: é que o filme não sabe o que fazer com o livro. Pior: em vez de interpretá-lo, tenta copiá-lo. Materializa a "cegueira branca" da matéria literária numa fotografia leitosa ("swimming with milk", ouve-se às tantas...), numa mímica de actores a fingirem que são ceguinhos (com direito a piada de mau gosto sobre Stevie Wonder e I Just Call to Say I Love You), em efeitos especiais de mau videoclip, como se o próprio filme em si e o seu director de fotografia também tivessem sido atacados pela praga da história.

Esta conta-se rapidamente: uma grande metrópole contemporânea (sem nome) é atacada por uma epidemia que está a cegar os seus habitantes. A metrópole quer-se metáfora do mundo, a cegueira, metáfora dos homens. Há um oftalmologista (Mark Ruffalo), que também acaba por ficar cego, e a sua mulher (a ruiva Julianne Moore pintou o cabelo de louro), a única com direito a ser personagem que escapará à maleita. Quando os cegos são encarcerados em "quarentena militar" por um misterioso sistema de vigilância, a mulher do médico decide fingir que também cegou para acompanhar e proteger o marido.

Darwinismo a martelo

O que a mulher do oftalmologista vê é o modo como a civilização e o Homem, num caso aflitivo de luta pela sobrevivência, regressam rapidamente à animalidade e se barbarizam. O mal é mais profundo, contudo. É provável que ele já venha da prosa de Saramago e que uma adaptação fiel só possa tornar-se coisa grotesca. Aquilo que vejo em Blindness, muito mais neste filme sinistro do que no livro, é uma alegoria perigosa sobre os campos de concentração, a transferência demagógica de um passado concreto para um presente sem razão e, como dizia alguém, com coisas sérias não se brinca, até um cego vê. Na conferência de imprensa, Fernando Meirelles e os seus actores (Ruffalo este ausente) sublinharam o quão independente é este filme, como se isso só por si fosse uma dádiva. Mais não fizeram do que falar de sociologia e de um darwinismo regressivo, a martelo, sobre a involução humana. De cinema, zero.

Israel e os seus fantasmas

Alguns amigos da crítica americana diziam-me ontem à saída de Waltz With Bashir que Sean Penn gostará deste filme israelita, uma animação ao estilo europeu, também presente na Competição. O facto não é insignificante: Penn é o presidente do júri desta edição de Cannes. Por acaso, nesse júri, está também Marjane Satrapi, a iraniana que, no ano passado, arrecadou um Prémio do Júri por Persépolis. O que pensará a iraniana Marjane de um filme animado, israelita e militarista?

Sabra e Shatila

"Waltz with Bashir", um documentário de animação feito em Israel

"Waltz with Bashir", um documentário de animação feito em Israel

Waltz With Bashir conta a história de um um homem, quarentão e ex-militar na Guerra do Líbano dos anos 80, que não se recorda dos anos que passou no exército. A sua memória da Guerra no Líbano, simplesmente, evaporou-se num "flash". Vinte anos depois, decide procurar alguns companheiros de pelotão e tentar reconstruir essa experiência traumática, mas as imagens que lhe vêm à cabeça, ao contrário do que ele quer, são cada vez mais surrealistas. Esse homem é Ari Folman, o realizador do filme. Waltz With Bashir apresentou-se como um "documentário animado", baseado em pesquisa, entrevistas, e trabalho de campo, e acaba por focalizar-se numa tomada de consciência sobre os massacres dos civis palestinianos em Sabra e Shatila, em Beirute, um dos crimes mais hediondos que ainda paira sobre o Estado de Israel. Cannes já tem o seu filme polémico e cheira-me que a procissão ainda vai no adro.