Siga-nos

Perfil

Expresso

O EXPRESSO junto da comunidade portuguesa em Great Yarmouth

Sonhos destruídos no reino de sua majestade

A comunidade portuguesa em Inglaterra, dispensada do trabalho devido à gripe das aves, vive momentos difíceis.

Quando há quase cinco anos Susana da Fonseca deixou Lisboa em direcção a Great Yarmouth, Inglaterra, levava na bagagem a esperança de quase todos os emigrantes: "melhorar de vida". Na quarta-feira passada, essa esperança ruiu, quando a empresa em que trabalhava, a Bernard Mathwes, um gigante da indústria alimentar, lhe comunicou que estava dispensada. "Destruíram os meus sonhos!"

Agora, com 35 anos, prepara-se para começar tudo de novo em Portugal, doente com cancro no útero, parte com mágoa pela forma como foi tratada pela empresa. "Não tiveram sequer atenção ao meu problema de saúde."

Em Great Yarmouth deixa aquilo que construiu nos últimos anos, mas na memória leva, para sempre, a maneira como foi dispensada. "Todos os dias pensava quando seria a minha vez, estava muito stressada, com medo de ser chamada para 'lay-off'. Na terça-feira tive um ataque de ansiedade e fui levada para o hospital. No dia seguinte, ligaram-me a dizer que estava dispensada."

O caso de Susana é apenas um, entre tantos outros. Muitos portugueses que vivem em Great Yarmouth passam neste momento por dificuldades financeiras, devido à suspensão declarada pela fábrica inglesa, depois de ter sido detectado o vírus da gripe das aves, o que levou ao abate de 159 mil perus. De acordo com o sindicato, 70% dos trabalhadores dispensados são portugueses.

O «lay-off» está previsto na lei laboral inglesa e permite à entidade empregadora dispensar o funcionário, se não tiver necessidade de produção durante 20 dias, prazo que pode ser prolongado por mais três meses. Apesar de não deixarem de receber salário, os trabalhadores recebem, apenas nas primeiras duas semanas, uma pequena percentagem do ordenado.

Pagar as contas ou comer

Sérgio Moreira viu as 211 libras semanais que recebia serem reduzidas para 100, mas apenas nas duas primeiras semanas. E, apesar de já estar à procura de outro trabalho, teve de recorrer às economias para subsistir, já que não se prevê que a empresa volte a chamar os funcionários.

Pai de uma bebé de dois meses, nascida em Inglaterra, Sérgio soube pelo centro de emprego de Great Yarmouth, que uma vez que a mulher tem direito a subsídio de maternidade,  não pode contar com mais ajuda económica por parte do Estado.

Sérgio e a mulher, Mónica Conceição, ex-funcionária da Bernard Mathews, 23 anos, não têm agora possibilidade de enviar dinheiro para os outros três filhos em Portugal.

Ludovina Ladeira, 45 anos, há três em Great Yarmouth está em «lay-off» desde dia 20 de Fevereiro. Ex-funcionária da antiga Imelda, fábrica na zona de Almada que encerrou recentemente, não imaginava que seria possível ser dispensada,  ao fim de três anos de trabalho. "Dia 19, um quarto de hora antes de acabar o meu turno,  foi-me comunicado que estava dispensada", conta.

Resta-lhe não pagar as contas, recorrer a algumas economias e dividir a comida pelo almoço e pelo jantar. Sem qualquer esperança de que a empresa volte a readmitir os funcionários. "Era para ter vindo um grupo de Portugal a semana passada, mas acho que já não veio".

Os cidadãos portugueses são a maior força de trabalho da empresa, que os recruta em Portugal. Nas duas fábricas que a Bernard Mathews tem na região de Great Yarmouth, em West Witchingham e Holton, a maior parte dos funcionários, em especial os que desempenham as tarefas menos qualificadas, são portugueses. Tanto é que existe uma pequena comunidade portuguesa, com cafés e restaurantes que constituem o ponto de encontro entre trabalhadores dispensados e outros ainda no activo.

Lugares como o Café do Sérgio ou o Café Central são os pontos de encontro de muitos portugueses. "Alguns pedem só para se virem sentar e ver a televisão", diz Susana Alves, do Café Central. À medida que o tempo vai passando, o dinheiro vai chegando cada vez menos para as despesas, e os comerciantes começam a ressentir-se.

Sozinhos num país triste

Sem contar com qualquer tipo de ajuda das entidades portuguesas, os emigrantes em «lay-off» sentem-se sozinhos num país triste. Uma grande parte não sabe sequer falar a língua inglesa, e desconhecia o que era o «lay-off», apesar de vir escrito no contrato.

Linda Ladeira, intérprete na Bernard Mathews (traduz as indicações aos emigrantes que não falam a língua), ainda ao serviço, critica o desinteresse do governo português. "Não queremos que o nosso país ande connosco às costas, mas temos o direito de ter alguém, pelo menos intérpretes, para ajudar os portugueses a falar com as entidades inglesas".

As queixas estendem-se e o sentimento geral é de que não há ninguém que se interesse. "Do governo português já não esperamos nada", diz um emigrante que não quer ser identificado.

Nenhum dos portugueses foi contactado pela embaixada ou pelo consulado, a ajuda vem,  por vezes, de jornalistas que estão em contacto com a comunidade.

É o representante inglês do sindicato TCWU (Transport and General Workers Union), Miles Hubbard, que está em Londres a negociar com o governo britânico a atribuição de um subsídio aos portugueses. Das autoridades portuguesas, nada.

Potencial sem-abrigo

Entre a comunidade portuguesa há, também, desempregados da Bernard Mathews. José Agostinho é um deles. Com 20 anos, o jovem foi um dos voluntários que trabalhou na matança dos perus infectados com o H5N1. Depois houve uma suspeita que tivesse sido infectado com o vírus da gripe das aves. A suspeita suscitou o interesse dos media ingleses e portugueses.

E acabou por ser despedido, mesmo depois de garantias em contrário. Na quinta-feira a seguir a ter trabalhado com os perus infectados, teve um problema no dedo que o obrigou a ir à enfermaria, e, no mesmo dia, foi mandado embora. "O chefe disse-me que não queria que quando tivesse a idade dele precisasse de ser operado".

Sem dinheiro em Inglaterra recorreu ao centro de emprego para procurar trabalho, e subsídio de apoio, que ronda as 45 libras semanais. Porém, essa ajuda ainda não chegou, e ontem foi expulso da pensão onde vivia. "A senhoria tinha medo que desaparecesse sem pagar a renda que devia".

Contou com a solidariedade de uns amigos que lhe "emprestam" o chão de casa para dormir, e que com ele partilham a comida. "Temos comido só massa, ultimamente". Quando se deslocou, acompanhado pelo Expresso, ao apoio social do Council (o equivalente à Câmara Municipal), foi considerado um "potencial sem abrigo". Sem dinheiro para regressar a Portugal,  vai aprendendo inglês enquanto espera por ajuda económica e novo trabalho.

"Portugal nunca mais"

Apesar do desalento que se vive em Great Yarmouth,  há muitos portugueses que não pensam regressar a Portugal.

M. está dispensado pela Bernard Mathews e não quer revelar a identidade, apesar das dificuldades,  prefere ficar em Inglaterra. "Aqui há um mercado de trabalho que é favorável aos portugueses", afirma. E justifica, "fazemos o que os ingleses não querem fazer".

A opinião é partilhada pelo amigo S., ainda em funções na empresa, que é peremptório: "Portugal nunca mais".

João Teixeira enfrentou a emigração já depois dos 50 anos e foi o português, que apesar de estar em «lay-off», permanece optimista em relação ao futuro. Compreende a situação da empresa e prepara-se para procurar outro trabalho. "Inglaterra é um país muito grande".

Neste clima de desolação e tristeza, ainda se ouve uma voz de esperança.