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O EXPRESSO junto da comunidade portuguesa em Great Yarmouth

"Não tenho dinheiro para regressar a Portugal!"

As dificuldades da comunidade portuguesa em Inglaterra vão aumentando, à medida que o tempo começa a passar.

Nas últimas duas semanas, Paulo Calisto tem passado os dias em casa, na companhia da televisão portuguesa. Despedido desde Janeiro de 2007, por invalidez, este emigrante português de 43 anos, esgotou a indemnização de 700 libras que recebeu quando foi despedido.

"Deram-me mil libras, mas com os descontos só recebi 700, que me serviram para pagar as contas e ir comendo até agora. Como não tenho dinheiro nenhum para gastar, prefiro ficar em casa".

Sem dinheiro e sem perspectivas de emprego, Paulo Calisto não tem sequer a possibilidade de regressar a Portugal. "Não tenho dinheiro para regressar a Portugal!"

Em Portugal está a mãe, o pai e os quatro filhos, com quem esteve um mês sem falar, porque não tinha dinheiro para fazer a chamada telefónica. "Custou-me um bocado, mas tive de pedir cinco libras emprestadas para comprar um cartão telefónico e ligar à minha mãe."

Apesar de já ter pedido um subsídio ao centro de emprego de Great Yarmouth, e uma ajuda para pagar a renda da casa ao Council (o equivalente à Câmara Municipal), ainda não recebeu nenhum dinheiro.

Os problemas para Paulo Calisto na Bernard Matthews começaram quando, no início do ano passado, lhe apareceu um caroço na mão direita. Acabou por lhe ser diagnosticada uma tendinite e teve de ser operado, ficando sem força na mão para dobrar os dedos.

A empresa decidiu despedi-lo, por considerar que já não estava apto para trabalhar e, desde então, não conseguiu mais encontrar trabalho.

Doente, sem dinheiro e sem saber falar inglês, é-lhe ainda mais difícil arranjar trabalho. E nem sequer consegue chegar às autoridades portuguesas em Inglaterra [há a embaixada em Londres, um consulado em Manchester], "é muito longe e além de não ter dinheiro para lá ir, também não falo inglês que me permita lá chegar".

Paulo Calisto tem tentado combater a incapacidade de aprender, "quando vim para cá ainda comecei a ir a um colégio, mas como estava no turno da noite não conseguia ir a horas".

Mas a idade e a pouca escolaridade são os entraves: "Acho que já não é com esta idade que vou aprender inglês, só se for para a escola e começar como os miúdos".

Salvos pela tradutora

Uma das pessoas a quem Paulo Calisto tem recorrido para pedir ajuda é Raquel Gouveia. A jovem de 27 anos, funcionária da Bernard Matthews em "lay-off" é uma das poucas emigrantes em Inglaterra que domina a língua inglesa. Assim, serve de intérprete à comunidade portuguesa, seja a traduzir entrevistas no centro de emprego, ou a ajudar a preencher papéis para os serviços sociais.

"A Raquel aqui é a tradutora dos pobres", diz Tânia Coutinho, outra emigrante portuguesa dispensada.

Quando Paulo Calisto foi operado à mão, foi Raquel que o acompanhou em todo o processo. "Ela foi comigo até à sala de operações e,quando acordei, já lá estava ao meu lado, para me traduzir o que o médico dizia."

"Aqui já sou conhecida, no edifício do Tax [o equivalente ao IRS], no centro de emprego", diz a jovem.

Há cinco anos em Inglaterra, trocou a faculdade de jornalismo em Lisboa e o trabalho numa empresa de comunicações, pela oportunidade de ganhar mais dinheiro. Agora em "lay-off", encontra-se na mesma situação de muitos portugueses, não tem dinheiro para a renda e ainda não recebeu ajuda do centro de emprego.

Apesar das dificuldades, não tenciona regressar a Portugal. "Ainda não sei se vou para França, mas da maneira que as coisas estão lá [em Portugal] não penso em voltar."

Apesar do desespero em que mergulharam, quase todos temem um  regresso com a mala de cartão, mais vazia do que quando partiram.