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Joaquim Chissano, um "lusófono" ao serviço da paz em África

Cerca de dois anos após ter cessado as funções de chefe de Estado, o ex-Presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, continua activamente envolvido com a política, mas agora como promotor e facilitador da resolução de conflitos no continente africano.

Fernando Jorge Pereira , em Nairobi

É neste qualidade que conduziu na semana passada, durante quatro dias, uma missão da África Fórum, com a finalidade de contribuir para o apaziguamento da situação no Quénia, um dos mais apetecíveis destinos turísticos mundiais, actualmente mergulhado em turbulência, resultante da contestação dos resultados das eleições presidenciais de 27 de Dezembro último.

A África Fórum, organização criada por iniciativa de Chissano, que a preside, está sedeada na África do Sul e agrupa antigos chefes de Estado e de Governo africanos.

A crise queniana é mais um dos conflitos que Chissano está empenhado em ajudar a solucionar. E fiel ao seu temperamento discreto, não procura colocar-se em bicos dos pés na questão queniana, onde considera ter um papel secundário, já que a função de mediador foi atribuída à União Africana.

"O objectivo da nossa missão é avaliar a situação e oferecer os nossos bons ofícios sobre as modalidades e mecanismos de resolução da crise", declarou ao EXPRESSO em Nairobi, a capital queniana.

A este propósito, afirmou que a instabilidade no Quénia não começou com as recentes eleições, mas "foi aproveitado para exteriorizar problemas mais antigos". Por isso, defende que uma das lições a tirar do caso queniano, onde já se sabia que havia diferendos de natureza étnico-tribais, é a necessidade de "evitar que questões negativas permaneçam sem resolver e se acumulem, uma vez que podem rebentar com violência a todo o instante".

Chissano já tem um apreciável currículo nesta matéria. Além de ser um dos principais protagonistas dos Acordos de Paz no seu país, no início dos anos 90, oficialmente, é desde 2007, o enviado especial do secretário-geral das Nações Unidas para a zona do norte do Uganda, afectada pela guerrilha do Exército da Resistência Nacional do Senhor (RNA, na sigla inglesa).

O RNA é um movimento de base tribal, e está indexado por recrutar crianças para as suas fileiras e por ter como uma das suas referências uma mulher, Alice Lakuena, que os seus seguidores atribuem poderes sobrenaturais, nomeadamente o de tornar os seus guerrilheiros invulneráveis às balas.

Sobre este conflito, que opõe, há mais de dez anos o RNA ao regime do Presidente Yoweri Museveni do Uganda, revelou que está em vigor, até final de Janeiro, um acordo de cessação de hostilidades. Contudo, indicou que desde o assassínio, em finais de 2007 e ainda por esclarecer, do nº2 do RNA, Vicent Otti, "o processo de paz não está claro, já que a morte de Otti dividiu o movimento".

Antes deste problema do Norte do Uganda, em 2005 Chissano encarregou-se também de acalmar a tensão política na Guiné-Bissau, ao rubro após as candidaturas às presidenciais desse ano dos ex-Presidente Nino Vieira e Kumba Iala, que regressavam à política activa, depois de ambos terem sido afastados por golpes de Estado.

A sua intervenção na Guiné correspondeu a um pedido do seu amigo Kofi Annan, na altura secretário-geral da ONU, com quem poderá cruzar-se agora no Quénia, já que o antigo líder da organização mundial e Prémio Nobel da Paz foi indigitado pela União Africana para mediar o conflito queniano.

Apesar de ter deixado Nairobi, Chissano continua a acompanhar o processo, através de outros responsáveis da África Fórum, nomeadamente o ex-Presidente tanzaniano, Benjamin Nkapa, que inclusive irá assessorar Annan.

Por coincidência, o outro assesor de Annan, aguardado no Quénia na terça-feira, é  compatriota de Joaquim Chissano. Trata-se de Graça Machel-Mandela, ex-ministra da Educação de Moçambique, viúva do antigo líder moçambicano Samora Machel, e actual esposa do sul-africana Nelson Mandela.

  • Mais de uma centena de mortos é o resultado da onda de violência deflagrada no Quénia após a reeleição do Presidente Mwai Kibaki, o candidato do Partido da Unidade Nacional (PNU). A disputa foi marcada por acusações de fraude e manipulação.

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