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Expresso

Diário de um repórter do EXPRESSO em São Tomé

A Tia Chinga xinga mesmo

«Falta liceu, não temos Universidade, a estrada é só buraco. E hospital? Nem falar.» Eis o xingo de Tia Chinga.

NO BOTECO da Tia Chinga, na cidade de São Tomé, o conceito de «pronto-a-comer» ganha outra dimensão. Seja a que hora for, pode-se chegar e, desde que acompanhado por alguém conhecido da casa, perguntar o que se come.

Mesmo que nada esteja feito, a são-tomense de riso bem aberto improvisa qualquer coisa. Há sempre um peixe fresco para assar ou grelhar no carvão, uma banana verde para cozer, uma fruta-pão para descascar.

É com enorme simpatia que recebe a equipa do EXPRESSO, apesar de serem apenas 11h. Num ápice põe a mesa, prepara as panelas amolgadas, enquanto dá uma escapadela a casa, que fica no piso de cima, para, apressadamente, ir buscar algo que guarda com muito carinho. Trata-se de uma reportagem intitulada «Calulu de micotó», cujas páginas são, obviamente, familiares, ou não fossem elas referentes a uma edição do EXPRESSO datada de 1998. «Um colega seu estive aqui para escrever. Guardo este jornal tão bem que por vezes até me esqueço onde está», confessa a anafada são-tomense, ao mesmo tempo que solta mais uma das suas sonoras gargalhadas.

Aproveita para perguntar como estão as coisas em Portugal, país onde a filha vive e sobrevive, exercendo enfermagem numa clínica privada. A boa disposição só se vai embora quando chega a hora de falar de política, a propósito das eleições presidenciais que se realizam no próximo domingo, 30 de Julho.

Os candidatos são o Presidente Fradique de Menezes e Patrice Trovoada, filho do antigo chefe de Estado Miguel Trovoada e que concorre com o apoio do MLSTP, o partido do Coração da Tia Chinga.

A paixão é tal que rapidamente improvisa ali mesmo um pequeno comício para as poucas ou três almas que ali estão sentadas. Em menos de dois améns, dispara: «Falta de tudo. Falta liceu, não temos Universidade, a estrada é só buraco. E hospital? Nem falar. Em cinco anos, o que é que o Fradique fez? Nada».

Embalada, não poupa sequer a embaixada de Portugal. «Tenho um pedido de visto feito há um tempo e não me deixam ir a Lisboa. Não quero ficar lá. Só quero ver a minha filha, mais nada». Sem papas na língua, a Tia Chinga xinga mesmo.