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Expresso

Diário de uma repórter do EXPRESSO no Afeganistão

Regresso a Cabul

É sábado à noite e a animação num campo militar com forças de 14 países descontrai da pressão diária. Depois da bica no bar português, seguimos para a festa no Sunshine, o clube dos alemães.

O AVIÃO, novamente um C-130, mas desta vez das forças italianas, está marcado para o meio-dia. Abandonamos o campo de Farah uma hora antes para esturrarmos literalmente ao Sol na pista de terra batida do aeroporto que só fica a cinco minutos das instalações militares. Meia hora de atraso parece uma eternidade. No entanto, embarque calmo, ar condicionado ligado, avião vazio. A viagem apresenta-se agradável. Ainda por cima, dentro do C-130 dão-nos liberdade para tirar colete e capacete.

Primeira escala: Herat. Tudo estragado. É preciso aguardar na base (já de asfalto) três horas. Lounge improvisado numa tenda gigante, cadeirinhas de madeira, água, fruta e sandes de fiambre. A primeira hora e meia passa-se bem. E a notícia de que a viagem pode continuar dali a 30 minutos anima os passageiros. Sorriso nos lábios, voltamos a entrar no avião, já bem mais ocupado. Cintos apertados. Cintos desapertados. Apertados outra vez. O quarto motor do C-130 não arranca e a tripulação não quer arriscar a voar só com três. Saímos em direcção ao lounge mas já não o encontramos. Bancos corridos, nada de comida, água quente.

O olhar não se desvia da pista. Observamos esperançadamente que a equipa de mecânicos resolva o problema o mais depressa possível. Mas cada minuto engorda no tempo. Nada parece resultar. Surge no ar, não sabemos bem vindo de onde, a hipótese de permanecermos uma noite em Herat. Há operacionais dos comandos portugueses a trabalhar no campo militar que se avista do aeroporto e até nos vêm cumprimentar. Têm lugar para ficarmos se for caso disso e até sabemos que lá há massagens dadas por profissionais a oito dólares. Nem assim aliviamos. O Camp Warehouse, em Cabul, é mesmo o destino que preferimos.

De repente, a equipa italiana do C-130 começa animadamente a fazer sinais para embarcarmos. O quarto motor já funciona. Dez minutos depois já estamos no ar. Cabul só depois da segunda escala, onde o avião é invadido por tropas de todas as nacionalidades. Não há um lugar vago. Pernas e pés ficam imobilizados. Só a cabeça gira. Sou a única mulher dentro de um avião apinhado de militares armados até aos dentes. Sensação estranha. Muito pouco cómoda. Diluída pouco a pouco com a facilidade que todos têm em adormecer. Afinal, o tempo lá acelera.

Cabul recebe-nos ao crepúsculo. Quando chegamos a Warehouse já estão à nossa espera para jantar e brindam-nos com camarão e salada de polvo. É sábado à noite e a animação num campo militar com forças de 14 países descontrai da pressão diária. Depois da bica no bar português, seguimos para a festa no Sunshine, o clube dos alemães. Gente a mais empurra-nos de volta à esplanada dos portugueses, de resto, o bar mais frequentado da grande cidade de campanha da capital afegã.

Corre uma brisa no ar animada pelos ritmos das músicas que se cruzam à vontade dos empregados do bar. A noite arrasta-se calma, mas tão viva. Mesmo assim, entre este universo cosmopolita, a memória teima em trazer o deserto para o presente. Em silêncio, o pequeno e agreste campo de Farah conquista-nos o coração. Definitivamente.