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Expresso

Diário de uma repórter do EXPRESSO no Afeganistão

Prisioneira de guerra

A noite traz para cima da mesa a animação, sempre na esperança de que não toquem os alarmes. Música, cartas, xadrez, histórias, saudade.

CABUL parece uma cidade calma. O trânsito é intenso mas nas ruas o movimento da população é feito à velocidade da temperatura quente. Descansa-se à sombra de cada árvore e caminha-se lentamente, embora, muitas vezes em massa. Do anonimato saltam só as crianças ávidas de atenção e curiosidade. Para elas uma máquina fotográfica vale mais que mil chocolates. Afáveis, disputam o olhar da objectiva. Contudo, toda esta tranquilidade é aparente. As medidas de segurança impostas pela ISAF agravam-se a cada dia e torna-se mais difícil acedermos ao quotidiano da capital afegã. O perigo sempre iminente arrasta-nos impiedosamente para o perímetro do maior campo militar de Cabul, o Camp Warehouse, onde estamos instalados.

Aí, o caminho está livre vedado pelos muros que o envolvem. As ruas tornam-se monótonas, apesar das constantes movimentações militares das várias forças. O dia despe-nos de força. Sentimos toda a impotência de construir uma imagem clara do que se passa do outro lado da frente de batalha. Autênticos prisioneiros de guerra, resta-nos o contacto informal com a rotina de quem trabalha  no campo. É obrigatório adaptarmo-nos a esse ritmo.

Acordamos para esse micro-universo às seis da manhã, hora a que grande parte dos militares já trabalham em treino obrigatório, correndo à volta de Warehouse, antes dos ginásios das várias forças internacionais abrirem as portas para pelo menos duas horas intensas de esforço físico.

Ainda pela «fresca», caminhamos até ao refeitório português para tomar a primeira refeição do dia a partir das 7h30. Segue-se uma olhadela pela Internet à procura das notícias do mundo e às nove chega a hora da bica no «nosso» bar. O trabalho contínua até ao meio-dia, ora no gabinete improvisado no «quartel general dos Comandos», ora na rua, num contacto vital com os «companheiros de guerra». Cada força revela a sua bíblia de regras. Quebra-se o slogan «Todos diferentes, todos iguais». Os franceses, que desde há uma semana receberam o comando do campo das mãos dos alemães, desvendam segredos de organização militar pela boca do Fernandes, um filho de emigrantes portugueses deslumbrado com as tropas nacionais, com a sua actuação no terreno e sobretudo com a sua capacidade de relacionamento fraterno. O sangue português, que a cada cinco minutos diz correr-lhe pelas veias, apura-lhe o vocabulário há muito esquecido nas ruas de Touluse e empurra-o para junto da «família».

Antes de almoço, temos encontro marcado com os comandos novamente no bar, de onde seguimos em excursão para a cantina. Mais uma bica e regresso ao trabalho. Nessa altura, o mais forçado é o dos afegãos que trabalham no campo. Abrem valas atrás de valas para melhorar as infra-estruturas de Warehouse, sobretudo a nível do saneamento básico.

Se não houver patrulhamentos, os portugueses aproveitam o final do dia para descomprimir. Os jogos de futebol abrem-lhes o apetite para o jantar, às oito, como na terra Natal. Depois, chega a melhor hora do dia. A noite traz para cima da mesa a animação, sempre na esperança de que não toquem os alarmes. Música, cartas, xadrez, histórias, saudade.