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Diário de uma repórter do EXPRESSO no Afeganistão

O descanso do guerreiro

Às sete da manhã dizemos até amanhã uns aos outros, mas nós não dormimos. Temos que estar preparados às dez e meia para apanhar o avião para Cabul. Azar dos azares, não há luz nem água no campo.

O CAMPO em Farah recebe a coluna de comandos depois de mais de 30 horas de patrulhamento em silêncio. Nas tendas não se vislumbra um único movimento, apesar de o dia já ter acordado. Só  Major Ruivo está à nossa espera. Alerta, quer saber se correu tudo bem. Recolhe a informação e dá sinal para o descanso. Os soldados recolhem ordeiramente sem o grito da vitória. Há mais missões para cumprir e a noção da disciplina não lhes permite alívios. Só nós temos vontade de descomprimir e passar em revista o patrulhamento que acaba de terminar. Vamos para o quarto e revemos os acontecimentos passo a passo. Adormecemos depois. Mas o calor do dia que avança obriga-nos a levantar poucas horas mais tarde.

A atenção vira-se para o dia-a-dia do campo. Os americanos são os únicos que se vêem de manhã. Não fazem grande coisa. De volta das viaturas, a prepará-las para sair, uma vez que não se atrevem a sair de noite e os seus patrulhamentos não demoram mais de três horas. Na rua, à torrina do Sol, não conseguem sequer dizer bom dia ou olá. Mania da superioridade, dizem os nossos militares. Pode ser.

Hora de almoço, já os nossos portugueses estão prontos para os hamburguers com batatas fritas e todos os molhos possíveis e imagináveis. Já estão habituados até aos gelados e «brownies» fora de prazo. Comem que se fartam. Ainda vão ao ginásio, mas lá pelas quatro da tarde já dominam por completo a sala da televisão. Cartas na mesa, computadores arrumados porque os americanos, mais uma vez, resolvem cortar a diversão dos latinos, e conversa fiada. As histórias rolam. Não por muito tempo, porque uma hora e meia depois, o refeitório já está aberto para o jantar.

Está preparada outro patrulhamento. Em princípio, a hora de saída será às onze. Já se sabe quem vai, mas o destino fica no segredo dos deuses até o mais tarde possível. O objectivo é percorrer as aldeias mais próximas, onde se sabe que os talibãs costumam  ter contacto com a população para combinarem acções violentas.

Continuamos calmos. Voltamos para a sala da televisão a conversar com os que ficam. Ambiente animado. Entra o comandante Gonçalves Soares e diz-nos que há lugar na missão que parte dali a duas horas. Aceitamos o desafio. A correr preparar a mochila, vestir a «farda». Adrenalina em alta outra vez. Não há tempo para pensar em perigos, só no peso do colete. Adiante.

Partimos realmente às onze da noite, mas já não vamos em viatura VIP. À mesma num Hummv, só que com torre aberta. À entrada no deserto, é tanto o pó que temos a tentação de pôr uma máscara. Opção errada. O calor é tanto que a máscara asfixia em vez de aliviar.

Aldeias muradas, ruas estreitas, condutas de água, aquilo que mais impressiona os comandos, que não esquecem que foi ao atravessar uma situação semelhante que faleceu o sargento Roma Pereira, a única vítima portuguesa no Afeganistão. O silêncio toma conta das viaturas. Só no deserto a tensão desaparece. Regressa quase de manhã, quando o caminho indicado na carta desaparece e é substituído por uma plantação de ópio. Duas horas para encontrar um trilho que nos leve até casa.