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Expresso

Diário de uma repórter do EXPRESSO no Afeganistão

Campo de concentração

Extraordinário é o moral das tropas portuguesas. Auto-estima em alta, confiança, atracção pelo desafio, e a maior vontade do mundo de ser perfeito em cada operação ou patrulhamento, naquele que é considerado neste momento o mais perigoso local do mundo.

AS TEMPERATURAS altas impedem-nos de estar na rua. O cenário também não é agradável. Serrilha no chão a escaldar, nem uma sombra. Toda à volta um muro alto coberto de arame farpado e, do lado de fora as montanhas que a poeira faz desaparecer em segundos assim que se levanta um pouco de vento. Às cinco e meia da tarde, a atmosfera está tão carregada que parecemos envoltos numa nuvem de fumo no meio de um incêndio sem chamas. Ninguém se atreve a passear. Mas o ginásio está cheio.

A consciência do perigo, dentro do campo, apesar de estar presente, esvai-se nas conversas entre os militares à espera da hora de jantar. As portas do refeitório abrem cedo. Antes das 18h começa o «lanche». A sala enche. Os americanos entram primeiro. Servem-se, os poucos que optam por não levar a refeição para a tenda, sentam-se, mas dez minutos depois estão prontos para sair. Restam os portugueses, que, à boa maneira nacional, aproveitam a refeição para conviver. A comida é sempre a mesma, os molhos, às centenas, também. Só a fruta é que vai variando. Mas até chegar ao café, o refeitório tomado de assalto pelos comandos, é uma festa à portuguesa, que se prolonga, logo a seguir, na sala de televisão.

Cada comando um computador. Menseger sempre a funcionar. Falam as mulheres, as namoradas, os filhos. Mas a ligação não é estável. Cai e torna a vir, volta a cair. Intervalos para jogar cartas, jogos de computador, ou até a televisão. O Robocop I, visto dezenas de vezes continua a não cansar, antes diverte.

Extraordinário é o moral das tropas portuguesas. Auto-estima em alta, confiança, atracção pelo desafio, e a maior vontade do mundo de ser perfeito em cada operação ou patrulhamento, naquele que é considerado neste momento o mais perigoso local do mundo.

As histórias rolam umas atrás das outras. Todos têm coisas para contar. A «aventura» no Afeganistão oferece momentos únicos de concentração e acção profissional, mas também enriquece o espírito com dados que só se podem adquirir no terreno. Os oásis, os camelos, as aranhas-camelo, que se alojam no estômago do animal do deserto e se multiplicam até o comer por completo, o contacto com os afegãos, nos mais recôndidos locais, que chegam a pensar que as tropas soviéticas dos anos oitenta ainda não abandonaram o território, as casas isoladas, cujos habitantes só sobrevivem porque têm um pequeno poço ao lado, alinham-se ao lado das exigências físicas mais extremas dentro dos blindados.

Na mesma sala, três militares ingleses não abrem a boca. Escolheram o local para dormir porque as suas tendas não têm ar condicionado, mas não é suposto que se alojem ali, por isso, aguentam pacientemente que o convívio entre os portugueses abrande lá pela meia-noite, depois de nova refeição no refeitório servida com os restos do jantar. As luzes apagam-se na sala da televisão, fala-se baixinho, mas as ligações a Portugal continuam.

Só lá fora é que se pode fumar, oportunidade para continuar a conversa.

Sentados nas escadas que dão acesso à sala ficamos até às duas da manhã a aproveitar a noite de lua cheia e a absorver informação a cada minuto, numa troca interactiva de conhecimentos. Vai-se um maço de tabaco inteiro e, quando só restam três heróis no computador, é hora de dizer até amanhã.

Com o campo todo às escuras, a lanterna guia-nos até aos nossos aposentos «reais» na biblioteca americana, dois ares condicionados ligados e um saco-cama para dormir a primeira noite longa.