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Diário de uma repórter do EXPRESSO no Afeganistão

Cabul é um paraíso

Só Nidah, um menino de quatro anos, parece descontraído. Puro engano. Ao ver a máquina fotográfica, os olhos abrem-se num receio e o espanto apodera-se-lhe do rosto. Vai passar. Daí a minutos passeamos de mão dada pelo campo.

O DIA acorda às 4h15. Entra pela janela e traz uma brisa fresca. Ainda é cedo para me levantar, mas o vento que corre convida ao reconhecimento do campo. Nossa Senhora de Fátima sozinha na capela, mesmo no centro do campo militar. Caminhamos à-vontade pelas ruas de Amarante ou da Figueira da Foz. Lá pelas 5h já os militares começam a aparecer para fazer exercício ao ar livre. Mas não há muito tempo para os ver correr na terra batida.

Mochila pronta, as viaturas militares portuguesas estão preparadas para arrancar para o aeroporto: destino zona Sul do Afeganistão. O C-130 da Força Aérea holandesa levanta voo às 7h30. Deixamos Campwarehouse às 6h45. Um imprevisto obriga-nos a fazer um desvio pelos arredores de Cabul, a estrada mais directa está em alerta e não vale a pena correr riscos. O pior que nos acontece é perder o pequeno-almoço e embarcar de estômago vazio, mesmo sabendo que a viagem só vai terminar à uma e meia da tarde.

No avião vão militares de todas as nacionalidades, mas só os comandos fazem a viagem até ao sul. Os outros ficam pelo caminho e benzem-se quando lhes dizemos para onde seguimos.

O barulho do C-130 é como uma canção de embalar e adormecemos até à primeira escala. Tudo calmo. Só quando chega a nossa vez é que tudo se precipita. O avião aterra no deserto e em cinco minutos temos que vestir o colete, colocar o capacete e retirar a bagagem. Pé no chão. Inacreditável: o Sol queima e o corpo parece que vai arder. O avião nem desliga os motores e levanta de novo voo. É aqui o teatro de guerra.

Chegam as viaturas da nossa nova base anfitriã. Minutos depois entramos no campo dominado pelos americanos. Estão 55 graus! A luminosidade fere os olhos. O Sol, esse, não se vê, misturado com a poeira produz um nevoeiro prata.

A hora de almoço já passou, mas aquecem-nos uns hambúrgueres gigantes, coxas de frango e uma carne completamente seca que não distinguimos. A conversa prolonga-se no refeitório até à hora do briefing para conhecer o programa que nos espera.

Na limpeza do refeitório trabalham os afegãos. Falam inglês e metemos conversa. Com o dinheiro que dali recebem sustentam toda a família, mas já têm medo de ficar no Afeganistão depois das tropas internacionais saírem, por temerem represálias. Sabem que se restarem talibãs, estes não hesitarão em sacrificá-los, como no passado.

Só Nidah, um menino de quatro anos, parece descontraído. Puro engano. Ao ver a máquina fotográfica, os olhos abrem-se num receio e o espanto apodera-se-lhe do rosto. Vai passar. Daí a minutos passeamos de mão dada pelo campo.