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Expresso

Diário de uma repórter do EXPRESSO no Afeganistão

À espera do grande dia

Nada é revelado em concreto sobre o patrulhamento que nos espera. Os pormenores do patrulhamento são estudados ao mais alto nível e divulgados minutos antes da partida.

AS JANELAS pintadas de preto não nos deixam acordar antes das onze da manhã.

Vamos à pressa tomar um banho e corremos para o refeitório que já serve refeições. No ar já se descobrem momentos de ansiedade, apesar de ainda faltar bastante tempo para o grande patrulhamento da missão: 30 horas através do deserto. Objectivo: aumentar os níveis de segurança na zona e desarticular a capacidade de acção dos talibãs, tentando inibi-los. A degradação da segurança na área é uma realidade acentuada nos últimos tempos e a ISAF (International Security and Assistance Force), pertencente à NATO, pediu o destacamento das forças portuguesas para o local, uma vez que está destinada aos Comandos a missão de garantir a segurança como força de reacção rápida. De resto, verdade seja dita, os portugueses não recusam qualquer acção no terreno por mais riscos que ela implique.

Nada é revelado em concreto sobre o patrulhamento que nos espera. Os pormenores do patrulhamento são estudados ao mais alto nível e divulgados minutos antes da partida. Nem as outras forças internacionais estacionadas no campo sabem o que vamos fazer, nem sequer a que horas partimos ou quando regressamos.

Depois do almoço, um briefing com o comandante Gonçalves Soares e o major Ruivo, põe-me ao corrente da situação. O risco é elevado. O percurso inclui a primeira passagem de uma coluna militar pelo Vale dos Talibãs, refúgio dos guerrilheiros do Islão e temos que estar preparados para tudo. Pode haver ataques armados, mas o mais provável e aquilo a que temos que estar mais atentos é à possibilidade de ultrapassarmos zonas onde estejam colocados no solo engenhos explosivos preparados para serem detonados à nossa passagem.

São-nos descritos os comportamentos básicos a adoptar. Os carros blindados são a nossa protecção máxima. As paragens são calculadas minuciosamente. Não há indicação de quando ocorrerão. Na cabeça, a noção de que o risco se eleva aos 99% é clara. As acções de combate promovidas pela Coligação liderada pelos americanos, numa vertente claramente ofensiva, estão a empurrar os talibãs para a nossa zona de actuação.

Medidas práticas: comer de três em três horas, pelo menos, beber água a uma média de um litro de duas em duas horas.

Até à partida pede-se descanso. É o que fazemos recolhidos na sala de televisão, ou mais intimamente, na biblioteca que nos serve de quarto, sempre e só à conta de iluminação artificial. Optamos pelas duas coisas intervaladas, mas escolhemos preferencialmente a companhia. É «proibido» estarmos sozinhos.