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Diário de uma repórter do EXPRESSO no Afeganistão

A chegada a Cabul

AS MONTANHAS áridas, secas, castanhas, beje, amarelas, quase brancas e até negras apresentam-se como num grande ecrã de uma sala de cinema, através da pequena janela do avião. Os olhos não acreditam no que vêem. E há duas hipóteses: ou regressámos aos velhos filmes americanos do farwest, onde índios e cowboys disputavam territórios, ou então, é mesmo verdade, o quadro à nossa frente é a imagem exacta das terras afegãs que constantemente vemos nos noticiários televisivos, onde pequenas grutas que mal se destinguem podem esconder quase um exército.

À medida que o avião se aproxima do chão, as casas de argila seca sobressaem na paisagem pelo pormenor da destruição em que se encontram.

Não há muito tempo para reflectir e já o olhar abarca dezenas de helicópteros e aviões militares que dividem a mesma pista com os voos civis.

O vento levanta no ar uma poeira quase transparente, um nevoeiro quente, que escalda assim que pisamos terra.

Chegámos.

Calças compridas e camisolas com mangas não chegam para entrar no aeroporto de Cabul. As poucas mulheres ocidentais, nenhuma afegã, que viajam connosco apressam-se a cobrir a cabeça com grandes lenços. Imitamo-las com uma echarpe mais pequena mas mais presa ao rosto. Avançamos. O tenente Baptista já está à espera. As autoridades afegãs, porém, querem mostrar que estamos em casa delas. O passaporte fica e só poderá ser resgatado mais tarde, depois de ser apresentado um cartão, com direito a fotografia e tudo, emitido pela ISAF.

Assim seja!

Lá fora, os seis carros blindados da força dos Comandos instalada em Cabul esperam por nós com uma surpresa das grandes: um colete à prova de bala que só pesa 18 quilos e um capacete que pesa mais dois, ambos de um tamanho tão grande que mal nos podemos mexer. E é assim que vamos, imobilizados dentro do carro até ao Campwarehouse, campo militar onde se encontram as forças portuguesas, as italianas, alemãs e tantas outras.

Não há tempo para parar. O dia passa-se num reconhecimento à cidade e ao campo militar. O calor nunca acalma e o vento sente-se cada vez mais forte, trazendo o pó das montanhas para a cidade.

Só depois de jantar há alguns minutos para programar o dia seguinte. Vamos voar para uma das zonas do Afeganistão onde estão a surgir mais conflitos nas últimas semanas.

A motivação é muita e a confiança é de todos. Em conjunto, prepara-se o material a levar. Ao colete e capacete junta-se uma mochila militar com saco cama, mosquiteiros, cantil, e kit primeiros-socorros. Não queremos pensar no peso que tudo isso implica. Muito menos nos 60 graus que o deserto nos vai oferecer.

O que interessa é que o dia vai acordar às seis da manhã e espera-nos um C130.