Siga-nos

Perfil

Expresso

Diário de uma repórter do EXPRESSO no Afeganistão

A caminho de Cabul

O EXPRESSO conta desde hoje com uma jornalista em viagem pelo Afeganistão. Alexandra Carita já está em Cabul. Acompanhe as crónicas de uma repórter no país das burqas.

Lisboa, aeroporto, 05h30

A EXPECTATIVA é grande. Pela frente está um dia e meio de viagem e a vontade é a de chegar lá daqui a cinco minutos. Há que ter paciência. O primeiro destino é Frankfurt. No avião a imaginação solta-se e as imagens multiplicam-se. O deserto, a aridez e o calor misturam-se com os carros blindados, os camuflados, as burqas.

É impossível pensar no perigo, o risco é necessário e sobe a adrenalina. De repente, dois aviões cortam ao meio as Torres Gémeas, em Nova Iorque. O 11 de Setembro de 2001 percorre o pensamento. A data marca definitivamente o Afeganistão no centro do mundo. O nome de Ussama Bin Laden é quase um cliché. A ele fica reduzida toda a história do povo afegão, a ele fica associado todo o tipo de fundamentalismo islâmico, tudo o que diz respeito a terrorismo. Puro engano. Os talibãs que lhe deram abrigo só entraram no Afeganistão em 1996. Que povo foi arrastado em nome dos islão? Ninguém o conhece. Está diluído no sangue dos americanos que vimos saltar para a morte há cinco anos. As imagens repetem-se.

Frankfurt, aeroporto, 11h10

A multidão passa apressada sem que se repare nela. Só as bandeiras alemãs pintadas nos rostos das hospedeiras em honra de um terceiro lugar no Mundial de Futebol chamam a atenção. Nada demais. O tempo aí passa a correr. Mas ainda há muito em que pensar. Sete horas até Nova Deli, na Índia, torna a ansiedade uma realidade. Só o futuro aparece em imagens difusas. Em revista, passa-se a invasão soviética do Afeganistão, a retirada da velha potência mundial em 1992. Segue-se a guerra civil. Os senhores da guerra a controlarem o ópio e o tráfico de armas. Voltamos aos talibãs. E, pela primeira vez, surge o mistério da missão que nos espera em Farat, no Sul do Afeganistão, integrados na Unidade de Comandos estacionada em Cabul. Estamos quase lá.

Nova Deli, aeroporto, 00h35

Faltam nove longas horas para aterrarmos num país destruído por três décadas de guerra sangrenta. Sorte das sortes, para Cabul, no mesmo voo e à espera das mesmas nove horas está Ahmadullah, um médico afegão de 35 anos, que regressa dos Estados Unidos depois de um ano de pós-graduação. O cartão de visita para o Afeganistão guardamo-lo na cabeça logo ali na Índia. A dor de um povo que não encontra o seu país levam-nos no avião seguinte.

Cabul, aeroporto, 10h10

Cabeça coberta, mangas compridas e calças até aos pés, atravessamos um pequeno «deserto asfaltado» até encontrarmos as autoridades locais. O passaporte fica retido. Só os comandos portugueses o poderão resgatar mais tarde. Seis carros blindados e 20 minutos depois entramos Campwharehouse.