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Diário de uma repórter do EXPRESSO no Afeganistão

30 horas no deserto

A ordem de partida é dada e os carros enchem-se. Calha-nos a viatura «VIP», um Hummv equipado com um sistema que impossibilita que a detonação de explosivos por controlo remoto seja activada.

A PARTIDA estava marcada para as dez da noite de quarta-feira. Mas meia hora antes era preciso estar pronto perto da primeira tenda do campo, aonde as viaturas iriam ter. Numa pequena mochila acomodámos o essencial: barras energéticas, protectores solares, água termal, chapéu, medicamentos básicos (apesar de nos acompanhar a enfermeira Fernanda Certal com todo o tipo de material médico), blocos de notas e caneta. Não dava para mais. Carregar o colete à prova de bala (18 quilos) e o capacete (mais dois), não permitia mais aventuras no equipamento.

Os 46 homens da Unidade de Comandos que integravam a Operação Turtle, 30 horas de patrulhamento no deserto a Sul do Afeganistão, começaram a chegar sem pressas e sem tensão. Alguns minutos depois alinharam-se as 11 viaturas. A ordem de partida é dada e os carros enchem-se. Calha-nos a viatura «VIP», um Hummv equipado com um sistema que impossibilita que a detonação de explosivos por controlo remoto seja activada, e que por isso é o único carro completamente fechado e onde o pó entra 500 vezes menos do que nos outros com torres abertas montadas no tecto. Acompanha-nos o comandante da força Tenente-Coronel Gonçalves Soares, a Certal e o Ernesto.

Temos ordem para sair do campo e a coluna militar avança. Moral em alta, noção do perigo, consciência da responsabilidade. Nada impede que se converse animadamente, sempre com atenção às indicações transmitidas via rádio entre as viaturas.

A Lua só aparece duas horas depois, quando enfrentamos a primeira dificuldade – o atravessamento do leito seco de um rio profundo e «atolado» em pedras. Com paciência, o obstáculo ultrapassa-se.

Com a certeza de que alguém nos está a ver, avançamos de noite sem interrupções. Parar significaria dar tempo aos talibãs, que reclamam constantemente o território que atravessamos como deles, para perceberem o caminho que seguiríamos e prepararem-se para atacar.

A coluna militar segue toda a noite por caminhos inóspitos, onde se desconhece a anterior passagem de forças internacionais. À volta, perdem-se de vista plantações de ópio, a principal fonte de riqueza do Afeganistão, e vislumbram-se pequenos agrupamentos de casas, com os burros a pastar ao lado, prontos para carregar as papoilas.

Caminhamos sempre expostos entre as montanhas afegãs. Já ao raiar do dia, por volta das quatro e meia, cinco da manhã, já depois de termos passado Bakua, onde no sábado anterior (8 de Julho) faleceu um soldado espanhol, vítima de um detonamento, ligamos pela primeira vez o detector de explosivos para atravessar áreas classificadas. Percorremos grandes zonas habitacionais. Os homens na rua estancam à nossa passagem. Turbantes negros na cabeça, olhar hostil. As poucas mulheres correm para dentro das habitações argilosas. Só as crianças, de bicicleta, travam de repente e abrem os olhos a denotar receio.

Às nove da manhã fazemos a primeira paragem. O local é completamente deserto. Não se vê vivalma. Temos autorização para tirar o colete e o capacete durante duas horas com os termómetros já a marcarem 45 graus. A temperatura máxima que vamos alcançar é de 54 graus. As garrafas de água começam a rodar, algumas com concentrados de sais.

Voltamos a formar coluna para parar pouco depois durante quase quatro horas de sol, vento, areia e pó. Almoçamos, descansamos, desesperamos. Voltamos a andar. Às seis da tarde estamos prontos para sete horas seguidas de patrulhamento. Deslumbram-nos, quase uma hora depois, o pôr-do-sol no deserto por detrás das montanhas… A última preparação para o momento mais perigoso da missão. Durante quatro horas, em plena noite, atravessamos o Vale dos Talibãs, refúgio dos guerrilheiros empurrados para ali pelas forças americanas que ainda combatem no território. Somos a primeira coluna militar a percorrer o vale. Sem serem necessários avisos, faz-se silêncio nos carros. A tensão sente-se por todo lado, acompanhada de uma concentração total, ainda reforçada com o anúncio de que centenas de talibãs deverão estar concentrados no local a preparar um ataque a uma zona próxima. A viatura da Força Aérea que acompanha a coluna dos Comandos esclarece que os aviões da base mais próxima estão de sobreaviso para qualquer ataque e que levarão no máximo 30 minutos a chegar.

Durante os 70 quilómetros que dura o vale, as tropas actuam metodicamente. Fazem várias operações no terreno à medida que avançam. Em pleno vale, o quinto furo de todo o patrulhamento aumenta a tensão. Mais de meia hora parados à vista do inimigo.

Só à uma da manhã abandonamos a «casa» dos talibãs. Continuamos em área classificada, mas a conversa já rola. Três horas mais tarde chegamos ao campo. As manobras dos comandos militares no vale terão mostrado claramente aos guerrilheiros que a coluna era mais forte em termos «efectivos», o que significa que detinha material bélico superior, garantindo uma vitória em caso de confronto. Missão cumprida.