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Expresso

50 Anos do Tratado de Roma

O sonho lúcido

A propósito do 50.º aniversário dos Tratados de Roma, o Presidente da Comissão Europeia fala do seu "sonho" para a Europa, da finalidade europeia, do novo humanismo e do contributo europeu para a nova era da globalização. 

Tendo por fundo um quadro de Luís Noronha da Costa de 1976, o presidente da Comissão Europeia recebeu o Expresso na sala de espera que antecede o seu gabinete. Os momentos iniciais da conversa relacionam-se com uma carta, provavelmente de uma estudante, que recebeu da China e a propósito da qual (quase) aceitou uma provocação inicial.

Gostávamos que tentasse imaginar que era editor de um caderno cultural chinês a quem é pedido que disserte sobre «A Ascensão e Queda da Cultura Europeia». Suponha que dentro de 50 anos se consumou a queda... 
Não acho que a China pense que há declínio da cultura europeia. A China é dos países fora da Europa que mais respeita a ideia da União Europeia, sempre viu a Europa como uma espécie de contrapoder em relação aos Estados Unidos e à União Soviética, como um factor equilibrador. E a posição estratégica da China sempre foi de apoio à ideia de uma Europa unida. A elite chinesa conhece a Europa bem melhor do que os europeus conhecem a China. Aliás, nas gerações mais novas há muitos que falam inglês, que é uma língua europeia, e nós, na Europa, não temos muitos que falem qualquer das línguas chinesas. Os chineses não estão a ver a Europa em termos de declínio, de forma nenhuma; pelo contrário, eles mostram a sua admiração pelo modo como a Europa tem vindo a alargar-se. Para eles, o alargamento da Europa é sinal de vitalidade. Agora, como vejo a evolução da cultura europeia daqui a 50 anos? Vejo bem, e não mal. E tenho dados sobre isso. Ainda recentemente estive com o Wim Wenders, em Berlim, e ele disse-me que, agora, na Alemanha, se vêem muito mais filmes em alemão do que há 10 ou 20 anos. A cultura europeia vai na direcção contrária do que por vezes se diz ser a irremediável uniformização. Veja a pujança do cinema espanhol, por exemplo.Ao contrário do que se pensa, a globalização não vai necessariamente significar uniformização; vai significar simplesmente uma maior divulgação do inglês, que é uma língua europeia. Ainda bem que a língua de comunicação universal, hoje em dia, é uma língua europeia. Podia não ser. Em teoria, poderia ser uma língua chinesa, asiática, uma língua de outras culturas.

Em termos da globalização e tendo em conta a sua evolução futura, o inglês será uma língua universal? 
Nasceu na Europa, foi para os Estados Unidos, mas é uma língua  europeia.

Mas não será uma língua universal nos tempos mais próximos. Poderá ser o chinês, será o mandarim... 
Não acredito nisso. O chinês vai ter uma grande expansão, mas o inglês vai ainda progredir mais. As novas gerações, neste momento, em todo o mundo falam inglês. A Europa não vai perder pontos culturalmente; pelo contrário, a globalização vai trazer mais elementos de diversificação. O facto de mais culturas estarem em contacto com mais culturas é positivo. Para já, o nível geral médio de habilitação dos jovens tende a aumentar. Daqui a 50 anos, em princípio, salvo qualquer catástrofe que ninguém espera, vai haver menos analfabetos do que há hoje assim como agora já há muito menos do que há 50 anos. O nível cultural médio da Europa subiu imenso.

O nível cultural subiu, mas é a cultura, digamos, do Beckham a fintar Shakespeare ou do Mourinho a sentar-se na cadeira do Pessoa no Café Nicola que predomina. 
Há duas coisas. Há uma cultura popular, mas há também um progresso em formas mais elevadas de cultura. De acordo com os dados estatísticos que possuo, a frequência de concertos de música clássica, o consumo de livros, etc., são muito maiores hoje em dia. O que se está a passar é que a massificação trouxe consigo, muitas vezes, a banalização, o mau gosto, mas há também um certo desconforto das elites culturais quando o constatam. A abertura da concorrência levou por vezes a um abaixamento, por razões de mercado. Essa a razão pela qual o grande liberal do século XX, Popper, era tão crítico no que diz respeito à televisão. Efectivamente, nem sempre maior concorrência significa melhor qualidade. Este ponto é importante: nem sempre. Dito isto, qual é a alternativa? Vamos defender o controlo da informação? Acho que ninguém o pode defender. Temos de lutar por padrões mais elevados, num plano geral de globalização ou de mundialização. Em termos culturais, esse é que é o grande desafio, e temos de vencer esse bocadinho de desconforto que surge quando a massificação nos traz, por vezes, a trivialização e o mau gosto. A verdade é que estamos melhor hoje do que há 20 anos. Não tínhamos o «Big Brother» mas havia menos gente capaz de aceder a bens culturais. Mesmo em Portugal isso acontecia, não tenho a menor dúvida.

É extraordinário o que se passa na Europa. Quando viajo tenho quase sempre uns momentos para ir ver um museu ou uma exposição. Quase me comovo com a reacção das pessoas. Vi uma exposição em Londres de pequenos desenhos de Leonardo da Vinci. A maneira como as pessoas, em filas imensas, esperavam às vezes mais de uma hora para chegar à exposição e estar ali um minuto diante duma peça do Leonardo, com uma devoção que antes só existia talvez nas igrejas! Agora, era para observar obras de arte. É notável! Há hoje uma comunidade cada vez mais vasta de pessoas que aprecia os bens culturais e que está a expandir-se. Há por toda a Europa um extraordinário dinamismo cultural. Como é que se explica que num continente tão pequeno, a península europeia do continente euro-asiático, haja uns que falam alemão, outros francês, outros inglês, outros espanhol e português, e que estas línguas sejam também grandes línguas de comunicação fora do continente europeu? Como é que se explica também que tenha sido capaz de gerar tantos grandes criadores, na música, na filosofia, nas artes plásticas, na literatura, tenha chegado onde chegou? Como se explica que hoje haja locais culturalmente tão dinâmicos como Berlim ou Londres, além, é claro, dos grandes lugares sagrados da arte que são, de facto, europeus? De Roma a Atenas, é aqui que encontramos os nomes mais fantásticos da nossa civilização.

Da nossa civilização europeia... 
Da civilização mundial, podemos dizê-lo sem chauvinismo. Dificilmente se encontra em todo o mundo um lugar com tanta riqueza cultural como Roma, onde floresceram a civilização etrusca, a romana, o Renascimento, o barroco. Houve grandes culturas e civilizações diferentes, mas não se encontra em lado algum tamanha riqueza e variedade por metro quadrado, pondo assim a questão. Sem sermos arrogantes, teremos de estar legitimamente orgulhosos do património cultural europeu, que é, de facto, notável.

A Europa é um laboratório da globalização

Isso faz lembrar a frase de William Blake sobre a  «santidade do pormenor diminuto», ou seja, dos pormenores europeus. Esses pormenores europeus são sagrados? A língua, nomeadamente? 
A palavra «sagrado» é complicada, quando aplicada a coisas. Mas sim, são bens inestimáveis. Quando nomeei o comissário para o multilinguismo, foi visto como uma solução de recurso, que encarava o multilinguismo como um ónus e não como um trunfo. Penso que deve ser como trunfo. Aliás, cito muitas vezes esta frase (de Umberto Ecco) «a língua da Europa é a tradução». Temos de investir na língua, porque, de certa forma, a Europa é já um laboratório de globalização. Nas comemorações dos 50 anos da União Europeia, incluímos o jogo de futebol no Old Trafford entre o Manchester United e uma selecção europeia. Quando eu era miúdo e fazia aquelas colecções de cromos, era só de jogadores portugueses. Agora, qualquer jovem europeu conhece os jogadores de outros clubes europeus; os seus horizontes são, pelo menos, horizontes europeus. Eu acho que isto é bom em si mesmo.

É a cultura da fama, de qualquer modo... 
Mas alargou horizontes; não estou a dizer só no futebol. Eu considero que alargar horizontes, vencer barreiras, passar fronteiras, vencer nacionalismos e chauvinismos é, em termos civilizacionais, um progresso, e a Europa é parte desse progresso. Portanto, hoje em dia, um jovem, mesmo numa ditadura, mesmo nos regimes totalitários que ainda há, tem acesso, graças à Internet, a mais informação do que nós tínhamos porventura em Portugal na ditadura temperada que era o marcelismo. Lembro-me perfeitamente, quando ganhei uns jogos florais e me deram o livro «A Mãe», de Gorki, foi uma coisa extraordinária, porque, na altura, qualquer livro considerado «revolucionário» era proibido em Portugal.

Digo sempre isto quando faço conferências para os jovens na Europa: mesmo o disco «Je t’Aime Moi Non Plus» não era permitido em Portugal! Isto era o Portugal, isto era a Europa de há trinta e poucos anos! O Wim Wenders contou-me uma coisa extraordinária.

Depois de ter feito o «Paris Texas», a Alemanha de Leste convidou-o a fazer lá um filme. Quando ele quis fazer «As Asas do Desejo», o secretário de Estado da Cultura da Alemanha Democrática pediu-lhe o «script», e ele disse que não fazia «script», que ia fazendo o argumento à medida que fosse realizando. «Está bem, mas então diga-me a ideia.» E ele disse: «Anjos. O tema são anjos, e eu gostava de pôr os anjos na Porta de Brandeburgo.» Parece que o tal secretário de Estado da Cultura desatou a rir duma maneira incontrolada, segundo me contou o Wim Wenders. «O quê, você quer fazer um filme com anjos, em Berlim Leste? Anjos, quer dizer, seres que passam os muros? É impossível.» E ele teve que filmar em Berlim ocidental. Isto foi em 1987, salvo erro, dois anos antes da queda do Muro. Ou seja, há 20 anos no centro mais evoluído da Europa, não era ainda possível fazer um filme com anjos. Por isso é que eu não consigo ser pessimista. A Europa está muito melhor do que estava há 20 anos.

A UE é a força estruturadora da Europa

A Europa ou a União Europeia? 
A Europa e a União Europeia. Hoje em dia, Berlim faz parte da União Europeia. Vamos lá assinar a declaração dos 50 anos.

Mas são a mesma coisa? 
Não. A União Europeia é a força estruturadora da Europa. Parte dos problemas na Europa resultam de haver uma nostalgia de uma mini-Europa, por exemplo, aqui, naquilo que eu chamo o «Brussels beltway». As pessoas esquecem-se de que os alemães de Leste, e temos a sorte da senhora Merkel vir daí, têm tanto direito como nós, os belgas ou os franceses, a serem europeus. A Europa ganhou com o alargamento e em termos de influência. Disso posso dizer e posso dar o meu testemunho pessoal. Eu era ministro dos Negócios Estrangeiros em 1992 e posso assegurar que, hoje, a Europa conta muito mais no mundo do que nesse tempo.

Quando fazemos a provocação temos em conta a razão demográfica. As coisas estão a passar-se do Atlântico para o Pacífico. A força demográfica tenderá necessariamente a reduzir a influência da cultura europeia. O que é que resta? Qual é a utopia? Em que é que nós devemos acreditar? 
Em termos demográficos, podemos ter um problema, mas, de qualquer maneira, temos uma dimensão diferente. O que se está a passar é que a China e a Índia estão a libertar um potencial que já tiveram. Houve uma altura em que a China constituía uma parte muito grande da economia mundial, antes do extraordinário crescimento dos Estados Unidos. São coisas cíclicas, também. Agora, o que é que a Europa pode dar como contributo? Aquilo que nós somos, de facto. É um lugar-comum, mas é verdade: a unidade na diversidade, os valores europeus, os valores do humanismo que vêm da Grécia clássica, da herança judaico-cristã, do Iluminismo... A Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão foi uma criação europeia, o parlamentarismo também. Sem chauvinismos, acho que a Europa pode estar orgulhosa dos seus valores e da sua contribuição para o mundo.

As forças que estão a formatar culturalmente a globalização são europeias e também americanas, mas a América, ao fim e ao cabo, é uma filha, às vezes mal comportada, da Europa. A América, como sistema, é herdeira do liberalismo inglês e das ideias revolucionárias francesas. Esses valores matriciais estão na nossa origem, e devemos estar satisfeitos por também estarmos na origem das sociedades e economias abertas. Falta ainda fazer alastrar o Estado de direito, as liberdades, os direitos e as garantias; essa batalha ainda não foi completamente ganha. Uma das missões da Europa é a sua responsabilidade global, ou seja, a promoção externa dos nossos valores, nomeadamente dois essenciais para a Europa, a liberdade e a solidariedade, que são, talvez, os valores que melhor nos definem.

Um novo humanismo

Ainda não são valores universais? 
São valores que nós queremos que sejam. São valores que nós consideramos que cada ser humano deve poder usufruir e que estão ligados à dignidade da pessoa humana. Aceito que culturalmente haja diferenças, mas qualquer pessoa quer ser livre, ninguém quer ser escravo. Uma pessoa, se puder exprimir-se livremente, não quer ir para a prisão porque tem uma opinião diferente, não quer ser torturada, não quer ser morta. Creio que são valores universais. É verdade que nem sempre são reconhecidos como tais, e foi a Europa que pela primeira vez definiu estes valores como seus e universais. Temos o dever de continuar a defendê-los, porque há muitos países (e alguns não muito distantes) onde os vossos colegas são assassinados e continuamos sem saber quem os matou. Isso mostra que a Europa tem o dever de lutar por estes valores, porque senão estamos numa coisa meramente económica, e a economia não é tudo.

Esses valores decorrem daquela que é a matriz europeia, judaico-cristã. Como é que isso convive com o peso crescente de comunidades, no seio da União Europeia e da Europa, alheias a essa matriz ou com referências completamente diferentes? 
Por favor, não conduzam a minha intervenção para esse debate, às vezes um bocadinho sofista, da herança judaico-cristã. A Europa é muito mais complexa do que isso. A Europa tem uma matriz judaico-cristã essencial na sua formação cultural, mas tem, antes ainda, a herança clássica da Grécia e de Roma, e tem também, porque não dizê-lo, outras fontes que às vezes tendemos a ignorar: a celta, a eslava, a germânica e também a islâmica, o que às vezes não se quer reconhecer. Sem a contribuição islâmica, não teríamos tido o saber da Antiguidade. E foi na Península Ibérica que Averróis, e também o grande pensador judeu Moisés Maimónides, e outros, fizeram a transição da cultura clássica para a cultura europeia. Foram essenciais, de acordo com todos os historiadores da cultura europeia.

Introduziu os nomes de Averróis e Maimónides. A que propósito? 
Foram filósofos como eles que fizeram a transição e que foram buscar, digamos, o racionalismo da Antiguidade para a Idade Média. Sem Maimónides, sem Averróis não teria havido Renascimento na Europa. É muito importante lembrarmo-nos de que a nossa Europa tem várias fontes culturais importantes. Dito isto, é óbvio que a matriz cristã é muito mais forte do que outras. Do ponto de vista meramente cultural, uma das contribuições essenciais do cristianismo foi a dignidade da pessoa humana, quer dizer, o princípio de que o ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus, e tem uma dignidade intrínseca que é anterior até ao próprio grupo, e eu penso assim. Penso que se há um conflito entre direitos meramente individuais e direitos de uma colectividade, os direitos individuais primam sobre os da colectividade.

Há quem não pense assim. Veja por exemplo a questão da mulher islâmica que é sujeita a uma coacção (e podia também dizer católica porque nas nossas aldeias também já se passou isso). Se se colocar uma contradição entre aquilo que é o sentimento da comunidade, do grupo, seja ele étnico ou religioso, e o direito individual dum homem ou duma mulher, eu opto pelo direito do homem ou da mulher. Temos de ter respeito pelas diferentes comunidades, sejam elas islâmicas, ortodoxas, judaicas, o que forem, mas os direitos da colectividade não primam sobre o direito individual da pessoa humana. É neste sentido que eu acho que a Europa está a conseguir um novo humanismo na idade da globalização. E isso é essencial.

Qual é a pele desse novo humanismo? Sloterdijk disserta sobre a circunstância desse novo humanismo. Qual é essa circunstância? 
Ele é um dos meus autores favoritos. Recomendo muito um livrinho dele, «Si l’Europe s’Éveille», a meu ver, um dos melhores livros que há sobre a Europa. Quando falo no novo humanismo, digo que os velhos valores vindos da Grécia antiga, que foram depois reafirmados no Renascimento europeu, são hoje mais prementes por causa da globalização. O facto de nós estarmos em contacto, como nunca estivemos ao longo da história da humanidade, com aquilo que outros seres humanos fazem em outras partes do mundo, leva-nos a pensar a humanidade no seu conjunto. É aqui que vejo o aspecto positivo – culturalmente positivo – da globalização. O pensamento ecológico, por exemplo, é já de certa forma uma resposta à questão da globalização.

Não só.... 
Está bem, mas quando os nossos horizontes eram os da  nossa paróquia, da nossa aldeia, quando muito do nosso país, o futuro do Planeta não eram necessariamente uma preocupação… Hoje em dia quando falamos de ecologia qual é a primeira imagem que nos vem ao espírito? É a imagem da Terra, com uma atmosfera que está ameaçada. O pensamento ecológico é também um contributo para o novo humanismo. A questão africana, a consciência de que devemos poder ajudar Darfur. Eu estive em Darfur. Vi jovens, rapazes e raparigas que vinham da Europa, a maior parte deles que podiam estar confortavelmente nos seus países a correr um risco de vida diário, para ajudar pessoas com quem, à partida, não têm nada em comum. Isto é, são seres humanos como eles.

Nós temos bases, hoje, para criar o humanismo real. Antigamente tínhamos o «grande humanismo» mas era um humanismo filosófico, teórico. Magnífico. Mas hoje é que estamos a conhecer-nos a nós próprios, porque somos confrontados com as decisões tomadas nos pontos mais remotos do planeta. Isso graças à tal Internet que tem horríveis manifestações de mau gosto, mas também nos dá a possibilidade extraordinária de podermos comunicar e estar em contacto com todos os pontos do Globo e sentirmo-nos, não quero ser excessivo, irmãos, no sentido de que somos da mesma espécie humana. Isso é notável.

Ou seja, passamos da cultura dos cafés de que falava Steiner para a cultura do cibercafé. 
Não diria isso, porque não gosto muito. Mas a cultura de abertura, à ideia de que as duas coisas – o local e o global - não entram em contradição. Podemos estar ligados a um local, a uma região, ou a uma pátria e, ao mesmo tempo, sermos membros activos dessa comunidade global. Vejo muito a Europa como uma forma de estruturação desta ordem global.

O que é que quer dizer com forma de estruturação? 
Estruturação desta comunidade global quer dizer que, quando nós próprios na Europa defendemos os nossos interesses nacionais, procuramos fazê-lo cooperativamente. Criando e estabelecendo uma união, estamos a desenvolver um modelo que merece pelo menos ser estudado. Isto suscita uma grande admiração, às vezes mais fora da Europa do que cá dentro. A Europa conseguiu, com Estados-nação extremamente fortes, com muitos séculos de existência, com entidades culturais também algumas muito poderosas, conseguiu, na realidade, estabelecer um sistema de convívio e de concertação que não tem paralelo na história. Por isso é que eu digo, seguindo Sloterdijk, que a Europa é o primeiro império anti-imperial.

No passado, uma tão grande associação de países só era conseguida no modelo imperial, que também foi, aliás, uma invenção europeia. De Roma a Carlos Magno, de Napoleão ao Terceiro Reich de Hitler ou ao Império Soviético havia uma ideia de federar várias nações pela força, pela conquista ou, na melhor das hipóteses, com o Império Austro-húngaro, através de um equilíbrio de poderes. Hoje em dia nós temos uma Europa onde 27 países se juntam porque livremente o querem. Do ponto de vista da organização política internacional, não conheço em toda a história nenhum caso com tanto sucesso. E é nesse sentido que digo que é possível um modelo para a reestruturação global, ou seja, é possível defender a nossa identidade ao mesmo tempo que nos abrimos aos outros. É aqui que o aspecto cultural é importante. Porque, se a cultura é entendida como construção de uma identidade contra as outras, o tal identitarismo, então temos um problema grave, como vimos recentemente nos Balcãs. Mas se a cultura for abertura, então abrem-se enormes possibilidades.

A identidade europeia é específica

Há uma identidade europeia? E o que é? 
A identidade regional ou nacional é mais precisa mas também mais limitada. Sobre a identidade europeia, é um lugar-comum o que vou dizer mas é verdade: é a identidade na diversidade. Não encontramos em nenhuma outra parte do mundo, num espaço físico relativamente tão pequeno, tantas identidades numa só interpretação, num contacto com tantas e diversas fontes.

Por essa lógica até os americanos são europeus, porque há ali identidades diferentes mas convivem no mesmo espaço. 
É bom recordar Denis de Rougemont. Perguntaram-lhe como é que se definia região, e ele respondeu que não se podia definir, mas sentir. Quando se está numa região, sentimos que estamos nela. Quando estou nos Estados Unidos percebo que são muito diferentes da Europa, sente-se, percebe-se isso.

E o que é ser-se europeu? 
Para já é viver aqui na Europa e ter uma identificação com as nossas múltiplas Europas, com as nossas identidades nacionais que não são uma contradição com a própria ideia da Europa. O nacionalismo é um mal, o patriotismo não. Um autor francês disse que «le patriotisme c’est l’amour des siens et le nationalisme c’est la haîne des autres». Um dos erros de um certo pensamento europeísta foi o de querer estabelecer uma identidade europeia por cima dos e contra os Estados; quiseram construir uma Europa como se fosse um Estado, uma espécie de nacionalismo europeu. Tenho procurado desenvolver o conceito de União Europeia em torno do valor acrescentado. Isto, para usarmos um critério económico.

O que é que traz a dimensão europeia? Esta não deve ser contra as identidades nacionais ou outras, mas a favor de acrescentar dimensão, abertura, variedade. Niklas Luhmann dizia que, para integrar a maior variedade do ambiente em que se move um sistema, é necessário também maior complexidade. É por isso que também o sistema europeu institucional tem de ser um sistema complexo. Porque, para integrar toda esta variedade, é preciso ter um certo nível de complexidade e na Europa nós temos de nos habituar a essa ideia. Alguns não se habituaram, ficam muito frustrados quando pensam que não conseguiram estabelecer na Europa uma espécie de Estados Unidos da Europa, quase uma réplica de um Estado federal integrado que liquidasse as entidades nacionais. Não vamos liquidar nem é desejável que as liquidemos, temos é de trabalhar com elas.

As fronteiras da Europa são políticas

Quanta variedade pode ser integrada? Até onde é que se pode integrar? Em termos práticos, quantos países, ao fim e ao cabo? 
Em termos de teoria dos sistemas essa é a grande questão. Nós podemos acrescentar mais variedade no sistema, desde que introduzamos mecanismos de complexidade que mantenham a coerência.

Isso traduzido...? 
Quando digo, de maneira aparentemente espontânea, que não devemos avançar para mais alargamentos enquanto não resolvermos a questão institucional, é precisamente por isso, porque chegámos a um ponto em que, se continuarmos a aumentar a variedade sem darmos uma maior coerência institucional, podemos prejudicar todo o sistema.

Só coerência institucional? 
Institucional e política. Porque as duas coisas estão ligadas.

Se essa coerência existir, a integração pode continuar «ad eternum»? 
Eu não disse «ad eternum», mas pode continuar.

Há limites para a Europa? Há fronteiras? 
Não gosto dessa palavra, tem uma triste história na Europa. Por causa dessas fronteiras morreram muitos milhões de europeus. Tantos que morreram para conservar uma fronteira que, alguns anos depois, por uma qualquer negociação internacional, foi deslocada para aqui ou para acolá. Nós, em Portugal, também lutámos pela nossa independência – e bem. Como dizia o meu mestre Denis de Rougemont: «Vous êtes L’État-région parfait» (vocês são o Estado-região perfeito). Só podemos estar orgulhosos de o termos conseguido. Mas esta concentração obsessiva nas fronteiras custa a entender do ponto de vista de um humanista.

A palavra fronteira é uma palavra que, além desta dimensão trágica, é limitativa. Normalmente quando falamos de fronteira é para dizer «daqui não passas», não é para dizer «passas daqui». Não devemos à partida presumir aquilo que será a liberdade de outras gerações de definir politicamente a Europa. Para mim, Europa é um conceito político, não é um conceito geográfico.

Costumo dizer, a brincar, que, se me perguntarem qual é a fronteira ocidental do continente europeu, eu sei, porque é o Cabo da Roca. Se dermos mais dois passos para ocidente caímos no Atlântico. Existem os Açores e a Madeira, mas é ali a fronteira do continente europeu. Agora no Leste e no Sudoeste, onde é que está? Algures na Ucrânia? Ou na Turquia? E a Geórgia e a Arménia? Aí entramos por definição em zonas de transição e, por isso, a decisão há-de ser política. A decisão política desta geração é integrar estes 27 países e aqueles a quem oferecemos essa possibilidade, desde que cumprarm todos os critérios. Alguns pedem-me que diga onde acaba a Europa, mas porque hei-de dizê-lo? Deixemos isso para as gerações futuras. 

A finalidade europeia

A Europa como conceito. Quanto mais complexo mais diversificado, quanto maior a complexidade, maior a possibilidade de sobrevivência europeia. É isso que está a dizer? 
Sim. Desde que haja mecanismos de coerência política e eficácia institucional. Eu acho que uma acrescida variedade não é negativa, é um recurso desde que haja essa coerência política. Por isso é que a questão institucional, que não é o alfa nem o ómega da Europa, é uma questão importante e tem de ser resolvida. Não podemos passar a vida a discutir questões institucionais e não chegar a acordo sobre elas. Foi Ortega y Gasset que disse que Espanha era um projecto de vida em comum. Ora, com as devidas distâncias, a Europa é isso também, é um projecto de vida em comum. As instituições são instrumentos para um projecto de vida em comum.

É essa a finalidade europeia? 
Sim, a vida em comum mas em torno de alguns valores, a paz em primeiro lugar, mas também a liberdade e a solidariedade. O que permite também a defesa dos nossos interesses. Há outras coisas que não são talvez tão atraentes, mas que são importantes, nomeadamente a capacidade da Europa de defender os seus interesses. Hoje, os Estados de maior dimensão não têm força para, num plano de igualdade, defender os seus interesses diante da Rússia ou da China ou até dos nossos aliados norte-americanos, que têm uma dimensão de defesa e tecnológica muito superior à nossa.

É por isso que, como disse Paul-Henri Spaak, todos os Estados na Europa são pequenos. Só que alguns ainda não se deram conta disso. Para defender interesses, além da questão dos valores e das ideias, precisamos da dimensão. Por isso estou confiante em que a Europa vai progredir. Porque, mesmo que às vezes haja estas crises e fracassos, se não for de dentro, virá de fora a mensagem de que a Europa se deve unir. Um exemplo é o facto de ter sido agora possível lançar as bases da política energética europeia. Há dois anos era impossível. A percepção global do desafio das alterações climáticas, por um lado, e da urgência da segurança energética, por outro, criaram condições que nos permitiram avançar. A Europa não está em refluxo, neste domínio está em expansão.

Essa atitude europeia veio um bocado por arrasto daquele documentário de Al Gore, o ter-se tornado chique, o ter aparecido numa capa da «Vanity Fair», ganhou «glamour» e sofisticação. 
A Europa é que lidera esse combate e Al Gore, com todo o respeito, veio atrás. Foi a Europa que fez Quioto, não foram os Estados Unidos. É verdade que Al Gore está a dar um grande contributo para a opinião pública americana e mundial eu espero que influencie a América a juntar-se a nós. Os Estados Unidos não ratificaram Quioto. Quem está numa posição de vanguarda é a Europa.

Nas suas origens, a União Europeia destinava-se a unir os inimigos e evitar novas guerras, o que agora é praticamente dado com adquirido. Recentemente, numa entrevista, falou da energia como elemento integrador. Não é demasiado redutor, por oposição a estes grandiosos objectivos iniciais de há cinquenta anos? 
Não. Quando começou há 50 anos, a Comunidade Europeia partiu também de uma visão funcionalista, a de Jean Monnet. Foi inteligentíssima essa estratégiae não tenho palavras para dizer da minha admiração por esses homens que tiveram essa intuição para a Europa. Agora, quando digo que temos aqui um estaleiro novo de construção europeia, não estou, de forma nenhuma, a pôr em causa os outros valores. Continuo a pensar que esses são os valores essenciais – a paz, a liberdade, a segurança. Temos de ter uma narrativa para o século XXI. A nossa juventude hoje já dá por adquirida a paz. Falar aos nossos filhos da II Guerra Mundial, que ainda por cima não tocou Portugal tão directamente, parece estarmos a falar da Idade Média. Mas se falarmos das questões do ambiente, já dizem mais aos jovens.

A globalização é, de certa forma, o leitmotiv para a Europa. Temos de a encarar como um desafio, que nalguns casos provoca até reflexos de protecção, mas também temos de encarar a globalização como uma oportunidade: a Europa pode formatar essa globalização com os seus valores, o tal novo humanismo. Eu acho que aí há um potencial imenso, sobretudo para a juventude. Hoje há muitos jovens que, quando se lhes fala da necessidade de ajudar África, e se lhes explicarmos que, graças à Europa, podemos fazer uma diferença aí, isso para eles é mais mobilizador do que falar-lhes apenas da reconciliação franco-alemã a seguir à II Guerra Mundial. Com todo o respeito pelo que isso representou.

Uma última pergunta: o eleitorado sempre preferiu os líderes que tivessem um «caso» com o impossível. Qual é o seu impossível? 
Não são só os eleitorados.  Qualquer cônjuge prefere que o outro tenha um «affaire» com o impossível em vez do possível [risos]. Não gosto muito da palavra utopia porque a palavra utopia constituiu muitas vezes fundamento para totalitarismos. É uma palavra muito perigosa e eu não a uso quase nunca. Agora, a ideia do impossível é um pouco o sonho, o sonho lúcido, para voltar a usar uma expressão do Sloterdijk. O nosso sonho lúcido na Europa deve ser este: um novo humanismo para uma globalização com os nossos valores, os valores do nosso humanismo. É impossível?

É difícil mas acho que podemos avançar nesse sentido. O que podemos aspirar do ponto de vista político é deixar as coisas um pouco melhor do que aquilo que encontrámos. Não é assim tão entusiasmante como essa ideia de ter um caso com o impossível. Eu não lhe chamaria impossível. O meu sonho lúcido para a Europa é esse. Talvez seja impossível mas podemos aproximar-nos do impossível, dotando-nos de um novo humanismo à escala global. E os valores europeus, vistos em termos de abertura e não de superioridade ou arrogância, devem estar na base desse novo humanismo.

Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 24 de Março de 2007, Actual, página 4