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Expresso

Crise financeira nos EUA

O choque ao contrário

Com os preços do barril de petróleo na Europa abaixo dos 45 dólares, Rembrandt Koppelaar, editor de 'The Oil Drum', avisa que o cartel da OPEP tudo fará para impedir uma derrocada ainda maior dos seus rendimentos.

Os preços do petróleo parecem estar loucos. Em cinco meses, o barril de Brent (crude de referência na Europa) caiu de perto dos 145 dólares para menos de 45. O processo inverso levara ano e meio - desde Janeiro do ano passado até ao pico histórico de 3 de Julho deste ano (143,95 dólares em Londres). Assistimos, num curto período, a um "choque petrolífero ao contrário", sublinha o analista holandês Rembrandt Koppelaar, editor do 'The Oil Drum', e um dos especialistas europeus do modelo designado por 'pico do petróleo'.

Esta reviravolta surpreendeu os adeptos desse modelo que aponta para uma tendência de longo prazo de escalada dos preços do petróleo em função de se ter já atingido ou de se vir a atingir nos próximos anos um pico mundial de produção, a partir do qual a oferta desacelera e se acumularão problemas para a satisfação de uma procura crescente. Aos 'piquistas', que tinham prognosticado correctamente o disparo do preço do barril desde 1999, foi difícil mudar de agulha e reconhecer uma inversão - ainda que provavelmente temporária - da tendência.

Risco de colapso parcial

Os analistas interrogam-se agora até onde poderá descer o preço do barril nesta rampa inclinada. Rembrandt acha que não deverá cair abaixo dos 40 dólares, pois "este é o patamar além do qual muitos dos campos petrolíferos, hoje em dia em operação, descerão abaixo de um limiar de rentabilidade". E acrescenta: "Se descerem a tal ponto, o sector petrolífero sofrerá um colapso parcial e quase todos os países exportadores de crude sofrerão um problema grave na sua liquidez. Para alguns isso significaria uma quebra económica no curto prazo e disrupções sociais e políticas no médio prazo". Por isso, o analista é peremptório: "O cartel petrolífero, bem como a Rússia, o Azerbaijão e o Cazaquistão farão tudo - mesmo tudo - o que estiver ao seu alcance para evitar que isso venha a suceder".

Refira-se que, em termos do cabaz de 13 variedades de crude oferecidas pelo cartel, o preço médio diário está abaixo dos 42 dólares por barril, o que levou a Organização dos Países Exportadores do Petróleo (OPEP) a reunir no fim de semana passado um comité consultivo de ministros no Cairo, no Egipto, o que coincidiu com uma reunião dos ministros dos países árabes exportadores de crude. Contudo, o comité manteve-se politicamente dividido e nenhuma decisão foi tomada.

O especialista holandês sublinha que "o orçamento 'médio' dos países da OPEP para 2008 - e para 2009 - baseia-se num escalão entre 50 a 60 dólares por barril". "Preços abaixo desse limiar darão um enorme incentivo político a que a OPEP decida, este ano, ainda maiores cortes de produção, na ordem de um adicional de 2 a 3 milhões de barris por dia", diz Koppelaar. A OPEP, que tem vindo a fazer uma aproximação com a Rússia, reunirá, de novo, a 17 de Dezembro em Orão, na Argélia. Há a probabilidade de os participantes se entenderem em mais um corte de produção.

Forças contraditórias

Rembrandt é de opinião que o ano de 2008 poderá vir a fechar com preços do barril na ordem dos 60-70 dólares.

Duas forças contraditórias se digladiam no mercado - por um lado, o impacto na procura do clima recessivo e de abrandamento do crescimento económico em todo o mundo, em particular nos principais consumidores de petróleo (Estados Unidos, Europa, Japão e China), e, por outro, o efeito real dos cortes de produção decididos pela OPEP, nomeadamente o anunciado na reunião anterior de 24 de Outubro, de 1,5 milhões de barris diários a partir de 1 de Novembro, bem como o impacto sazonal do Inverno.

Actualização do texto publicado na edição do Expresso de 29 de Novembro de 2008